Retina Desgastada
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22 de fevereiro de 2013

Esse Tal de Lore

Arthas

O leitor Eder R. M. fez uma crítica muito construtiva na postagem "Jogando: DC Universe Online": "(...) lendo esse texto creio que percebo claramente a razão de vc não ter gostado do WoW mas ter adorado esse DCU Online: Lore. Sim, lore. Vc conhece mto da (e parece fanático pela) história da DC, e isso se reflete em sua euforia. Por algumas frases do texto da sua "não-introdução" ao WoW, vê-se que você não tinha a menor noção de nada vezes nada da fascinante história do jogo (Orcs? Na introdução dos Worgen? LOL)."

Ele está corretíssimo (e diz mais sobre WoW, vale a conferida). Quando o camarada @magaiverpr me ofereceu a chave do World of Warcraft, eu expliquei para ele que nunca tinha jogado um Warcraft na vida e que não conhecia nada do lore. Ainda assim, ele foi bem... insistente.

Mas o que é este tal de lore? A palavra vem do inglês e pode ser traduzida como "conhecimento", o conjunto de fatos, tradições e crenças a respeito de um determinado assunto. Não por acaso, a palavra folclore vem da junção de dois termos ingleses, folk ("povo") e lore, sendo, então o conhecimento popular, as tradições populares, em contraposição ao conhecimento erudito e acadêmico. Mas... e nos jogos? O lore é o conjunto de conhecimentos relacionados àquele universo ficcional. Se você conhece Grodd, Deathstroke, Arkillo, a Ilha Oolong, Chemo e Trigon, você está antenado com o lore do universo de super-heróis DC. Se você conhece Arthas, Worgen, Aegwynn, Turalyon e Alleria, você respira World of Warcraft.

Aegwynn

Conhecimento não é algo que se adquire da noite para o dia. Qualquer um que tenha começado a ler uma revista de super-heróis deve se lembrar de como foi angustiante não entender metade do que estava acontecendo na primeira revista que comprou, provavelmente trazendo o meio do caminho de uma saga que já tinha começado ou a conclusão de uma história de dois meses antes. Não por acaso, muitas histórias, independente da mídia, começam com o protagonista sem memórias, ou vivendo em algum lugar modesto e longe do centro das ações, ou se descobrindo ser o salvador do universo depois de levar uma vida banal, ou sendo arrastado à força para alguma situação fora do seu controle. O objetivo é fazer com que o espectador/leitor/jogador tenha as mesmas revelações que o protagonista, em doses homeopáticas. O universo ficcional vai construindo sua verossimilhança, suas particularidades, a conta-gotas, para não gerar sobrecarga.

Alguns universos ficcionais constroem um lore forte e permanecem fiéis a ele. A Blizzard é especializada nessa área: Diablo, Starcraft, Warcraft são mais do que jogos. São mundos. Há livros, há quadrinhos, há tradições que foram moldadas com o passar dos anos. E, como tudo que alcança um determinado grau de complexidade, o ponto de entrada para novos buscadores de conhecimento pode ser hostil. Marvel, DC, Warhammer 40K, cada um destes mundos com décadas de histórias nas costas foi um tormento adaptativo para mim no primeiro contato. Em World of Warcraft não encontrei esta barreira: a introdução é tranquila, sem informações desnecessárias e no ritmo certo. Mas, talvez justamente por não revelar tudo de imediato, a Blizzard não conseguiu me prender por tempo o suficiente para me mostrar todo o seu potencial. Eu sei que ele existe. Há relatos de maravilhas além da imaginação humana. E tampouco acredito ser necessário ter passado pelos jogos de estratégia de Warcraft para apreciar o MMORPG: estes dez milhões de usuários não estavam todos lá nos primórdios da desenvolvedora.

Mas o lore de DCUO já estava dentro de mim, após décadas de leituras. Um fascínio antigo forte o bastante para ignorar problemas óbvios de mecânica. Fosse outro universo, criado especificamente para o jogo ou se fosse um título pago, certamente DCUO não ocuparia mais do que um par de horas no meu histórico. É uma vantagem injusta, sem dúvidas.

DC Universe Online - Luthor

Em outras experiências, o lore acaba se tornando mais importante que o jogo em si. Não escondo de ninguém que sou fã do universo de Halo. Não graças à Microsoft, vale dizer. De todos os títulos da série, joguei apenas o port para PC do primeiro jogo. O segundo saiu exclusivo para Windows Vista, sistema operacional que não comprei e nem pretendo comprar, em uma escusa manobra de marketing. Os demais, apenas rumores para PC. Mas gostei tanto do primeiro jogo que resolvi comprar um pack de três livros. De lá pra cá, já li sete livros baseados na franquia, sem arrependimentos. A mania acabou sendo trocada por Warhammer 40K, mas foi bom enquanto durou.

Dead Space, o jogo, veio para mim acompanhado por duas animações, dois quadrinhos (Horror Multimídia | Horror Multimídia: Parte 2) e um livro, com variados graus de interesse. As histórias de bastidores de Dead Space são mais interessantes que o festival de sustos e mutilações que Isaac Clarke protagoniza pode deixar transparecer e a primeira história em quadrinhos é um primor. Joguei Dawn of War concomitante com um livro de mais de mil páginas, além da animação.

Ponto de Ruptura

Flashpoint - Ponto de Ignição Ainda sobre DC Universe Online, eu diria que ele chegou no momento certo no coração de um velho decenauta. Não compro revistas tem mais de um ano. Também me decepcionei com a queda abrupta de qualidade das histórias. Enquanto eu me esforçava para ler coisas pavorosas para me manter atualizado, veio a notícia de que a editora iria fazer um reboot em todos os personagens. Tudo aquilo que eu estava lendo e tinha lido seria completamente descartado. Era o golpe final que faltava. Finalmente tinha entendido o choque que os veteranos dos anos 70 sentiram com a chegada da Crise nas Infinitas Terras. Nada mais ia valer.

Ironicamente, DCUO havia sido concebido para se integrar com o universo normal da editora, mas o longo período de desenvolvimento atrasou o jogo. Em janeiro de 2011, saiu o MMORPG. Em maio do mesmo ano, começava Ponto de Ignição, a saga que iria alterar tudo nos quadrinhos. Não havia tempo hábil para incorporar as mudanças. Como resultado, DCUO terminou sendo a única mídia que se manteve fiel ao que havia nos quadrinhos antes do fatídico evento. Na verdade, parece que a cronologia no jogo é até anterior à Crise Final, por exemplo. Alguns elementos divergem do que havia nos quadrinhos, mas, no bojo, é uma versão congelada do universo DC pré-Novos 52. Pode sumir, como tantos outros jogos do gênero, mas garantiu uma sobrevida aos personagens na forma como os conheci.

Às vezes, as tradições de um jogo, suas peculiaridades que o tornam único e dão alimento para nossa de conhecer mais, nascem no próprio jogo e evoluem com ele. Outras vezes, o jogo já começa com toda uma bagagem cultural nas costas, como Batman: Arkham Asylum, e que pode, inclusive, depor contra, como qualquer fã de Aliens pode atestar. E em outras, como em DCUO, pode ser nossa última chance de compartilhar um conhecimento que foi modificado e que já não é mais familiar para a "velha guarda".

Quando tiver visto tudo que há para se ver, tanto na campanha heróica quanto na campanha vilanesca, DCUO terá esgotado suas possibilidades. E, como bem apontou o Eder, será logo, uma vez que o jogo da Sony não tem nem um décimo do escopo do gigante da Blizzard. Todo o conhecimento terá sido relembrado. E será hora de explorar novos mundos.

Ouvindo: Scar Tissue - Barricade

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9 comentários:

Jimmy Fischer disse...

Eu tenho "lore" apenas da Marvel até meados da década de 90...
DC?Naquela época a DC me parecia tão sem sal e os heróis e vilões dela com nomes tão "comuns" e bobinhos... teve uma época onde até alguns heróis de ambos os mundos se encararam e até hoje não me sai a imagem do incrível Hulk dando um baita soco no peito do Superman e este sequer ter sentido os efeitos de um ataque de um dos seres mais poderosos do universo Marvel...
Como disse, o quadrinho não me sai da mente, mas a revista, a história e o contexto nem me lembro...

Shadow Geisel disse...

sobre o lore de Diablo, preferi os jogos mesmo. Li o livro Diablo 3: A Ordem e achei fraquíssimo.

sobre os reboots que você cita, nçao acho que sejam o mesmo caso de Crise nas Infinitas Terras. venhamos e convenhamos, Aquino: a crise veio para passar uma borracha em personagens que beiravam o pastelão advindos da época em que os quadrinhos eram feitos para crianças (retardadas), não para adultos que gostam de super-heróis.
o problema é que a manobra, só pra variar, caiu no gosto dos editores e acabou servindo de artifício para aumento de vendas. tá vendendo pouco? diz que foi tudo mentirinha. tá dando menos lucro? transforma todo mundo em zumbi e depois diz que era uma realidade alternativa...

Jimmy, engraçado é que a sua descrição da DC me lembra exatamente a impressão que eu tinha da Marvel quando comecei a ler. sem sal e com personagens risíveis. e os uniformes dos vilões da Marvel, nem se fala. haja tinta roxa e penduricalhos. só pra finalizar, NEM EM MIL ANOS QUE O HULK TERIA CONDIÇÕES DE PEITAR O HOMEM DE AÇO...

C. Aquino disse...

FLAME WAR!

Jimmy Fischer disse...

A questão é:
Eu preciso ser fã de Dc ou Warcraft para me divertir com ambos os jogos?
Pra mim, ajuda, mas não tem muito a ver!

Jimmy Fischer disse...

Bah cara, tu pegava os heróis/vilões da marvel e tinha muita coisa bem bolada...
Daí na DC era "espantalho"... "duas caras"... "pistoleiro"...
Eu era fanático pela edição trimestral de "grandes heróis marvel", eu tinha os primeiros que eram bem raros e hoje em dia valeriam uma grana se eu os tivesse mantido.
A DC tinha uma edição similar, mas não consigo me recordar do nome...cara, era muito ridículo!
-
Enfim, depois de muita pesquisa achei o quadrinho, foi a série DC X Marvel publicada em 1996.
Olha o tamanho da bobagem:

http://s206.beta.photobucket.com/user/zabuza300/media/supesvshulk18sq-1.jpg.html

Jimmy Fischer disse...

http://pt.wikipedia.org/wiki/DC_vs_Marvel:_O_Conflito_do_S%C3%A9culo

Breno disse...

"sobre o lore de Diablo, preferi os jogos mesmo. Li o livro Diablo 3: A Ordem e achei fraquíssimo."

Putz, tem coisa pior para um autor de literatura dizer que o trabalho dele é pior que uma narrativa de jogo?

Sobre lore, em relação a jogos, para mim isso tudo é bobagem. Os melhores jogos que eu joguei eu peguei a serie já andando, como foi o caso de Freespace 2, Jagged Alliance 2, Wing Commander Saga(mod para Freespace 2), Metal Gear, etc...

"a crise veio para passar uma borracha em personagens que beiravam o pastelão advindos da época em que os quadrinhos eram feitos para crianças (retardadas), não para adultos que gostam de super-heróis."

Ja parou pra pensar que o publico de quadrinhos de hoje eram as crianças retardadas de ontem,kkkkkk.

Eu não fui muito de ler quadrinhos na infancia, somente tchurma da monica,kkkkkk. Recentemente eu li Watchmen, Nausicaa do vale do vento, Berserk uns dois volumes de Akira e a obra prima Lobo Solitario e filhote. Se for pra ler quadrinhos, nada de baixa qualidade...

Eder R. M. disse...

Só li agora esse post:)

Sei que mtas vezes posso ser uma mala em minhas divagações, e até soar meio arrogante, mas fico bastante feliz do comentário ter sido construtivo. Ainda mais em um blog que prezo mto e pelo menos uma vez por semana dou uma olhada para ver o que há de novo.

Meus eventuais comentários gigantescos servem para "ventilar" algumas opiniões que tenho sobre games, mas não tenho exatamente onde expor.

Já pensei em "roubar" a idéia do blog e tentar escrever um, mas jamais teria a paciência necessária para escrever de forma que fosse minimamente periódica. :D

Abraço!

Eder R. M. disse...

Mas nesses jogos que você citou Breno, só a série Metal Gear tem mesmo bastante foco na história. OS outros são mais.. tipo filmes de ação blockbuster típicos, a história está lá, mas ninguém dá mta bola mesmo, o que conta é a ação :D

E essa sua última frase já me deu insipiração para discutir esse noção de que quadrinhos são em geral um entretenimento "inferior", de baixa qualidade. Já li histórias de super heróis Marvel e DC excelentes que rivalizam com histórias contadas em qualquer outro tipo de mídia.

Mas fica pra uma próxima. Não estou a fim de fazer grandes elucubrações agora. :-P

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