Retina Desgastada
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17 de abril de 2010

Jogando: Dead Space - Conclusão

Horror. Horror. Horror. Horror. Horror. Horror. Horror. Horror. Horror.

Eu poderia escrever 200 linhas com a mesma palavra repetida e ainda assim não conseguiria fazer jus a tudo aquilo que Dead Space consegue atingir. Ficariam faltando "repulsa", "ritmo", "surpresa", "solidão", "perda". É melhor escrever um post completo, então.

Dead Space Dead Space

Poucas vezes, desde Blood, um jogo teve tanto foco nos aspectos mais nojentos da experiência audiovisual. Dead Space fala sobre transformações, sobra a fragilidade da mente humana e, principalmente do corpo humano, em um ambiente que não lhe pertence, em situações para as quais nenhum dos dois foi concebido. Um parasita alienígena que altera o DNA das pessoas e as transforma em aberrações? Quantas e quantas vezes já visitamos esse mesmo cenário? Não importa o número exato, esse será um valor insuficiente para as diabólicas mentes por trás da modelagem das criaturas que Isaac Clarke enfrenta. O que foi feito é pouco para aqueles responsáveis por desenhar as mais imundas texturas a passarem diante de meus olhos. Dead Space fala ao estômago, choca pelo excesso. Sangue, vísceras, carne e ossos. A Ishimura tornou-se um matadouro e o jogo não se intimida diante da tarefa de agarrar o jogador pela cabeça, arregalar seus olhos e despejar todo tipo de impacto visual em sua direção.

Dead SpaceDead SpaceEm determinados momentos, Dead Space aparenta seguir uma fórmula. Muitos dos "sustos" tornam-se previsíveis para o jogador veterano. É neste momento que Dead Space demonstra não depender apenas de truques de áudio e "monstros atrás de você" para garantir sua qualidade. É neste momento também que o jogo tira algumas cartas da manga e apresenta um muito bem arquitetado equilíbrio entre momentos de tensão, momentos de combate, momentos de enigmas, cutscenes e áreas de tranquilidade. As engrenagens deste jogo estão expostas, falta até um pouco de sutileza em outros momentos, quando a previsibilidade ameaça irritar. Mas essa mesma fórmula que quase cansa assegura que, logo a seguir, o trem voltará aos trilhos.

Eu falei em fórmula? Pois Dead Space surpreende ao subverter a própria fórmula e apresentar elementos novos que NÃO podem ser previstos. E não estou me referindo apenas ao final surpreendente... Com grande paciência e domínio das técnicas narrativas, a Visceral Games sacode os raros momentos de marasmo com criaturas inéditas, enigmas complicados ou até mesmo paisagens de tirar o fôlego. Quando você acreditar que já descobriu o ritmo do jogo, ele irá fugir de suas mãos, entrar em um duto de ventilação e pular nas suas costas minutos depois completamente transformado.Você nunca irá esquecer o primeiro ataque do tentáculo gigante ou a primeira vez que olhou para fora da nave... Parece contraditório, mas Dead Space, apesar da fórmula, consegue ser surpreendente sem perder a familiaridade, deixando o jogador em um contínuo estado de incerteza.

Dead SpaceDead Space pega emprestado características de outros jogos e filmes, mas um deles é quase único do tormento de Isaac Clarke. Apesar de outros personagens a bordo da Ishimura, o trágico herói está sozinho. Sozinho com monstros, internos e externos. Os NPCs monologam com o personagem principal que permanece isolado em sua mudez. Suas batalhas são todas solitárias. Nos corredores vazios, ele vai coletando fragmentos de civilização que colapsaram diante da absoluta anarquia de uma força que não respeita nada. Mas, ao contrário de System Shock 2, por exemplo, estes fragmentos não colam direito, a história por trás da queda da Ishimura não faz parte do jogo. É uma história que o jogador pode até conhecer, mas que Isaac Clarke não consegue discernir. Envolto em mais perguntas do que respostas, ele persegue um fim para esta solidão.

Solidão Sem Fim

É difícil comentar sobre a melhor qualidade de Dead Space sem cair no risco do spoiler. O MELHOR de Dead Space, aquilo que faz o jogo se erguer acima da maioria dos survival horrors que o precedem, é o soco emocional contido em seus minutos finais. Para ser claro, Dead Space é um título que tenta emular System Shock 2 em vários aspectos e cujo protagonista é um capacho mudo de interesses superiores e que é enviado em sucessivas missões de "pegue isto" e "conserte aquilo". Como um courier espacial equipado para matar, Isaac Clarke atravessa a Ishimura em ziguezague realizando as tarefas mais inglórias possíveis. A história é um fiapo esticado por um cenário sombrio e um pretexto para mutilar e levar sustos. Exceto... exceto pelo final. A terrível revelação pertence a um patamar que faz o final de System Shock 2 parecer uma brincadeira inconseqüente. O horror implicado não está no destino de um personagem, um fato, inclusive, que eu sabia de antemão. O horror está na negação de outro personagem que, como eu, também sabia.

Neste final apoteótico, Isaac Clarke deixa de ser o "garoto de recado" sem voz. Por que ele não precisa de voz. Na surpresa, você entende exatamente o que ele não precisa dizer. O verdadeiro horror não nasce no Marco ou na Colônia. Ele é profundamente humano. E triste. O jogo se torna pessoal. E a Visceral Games tem a faca e o queijo nas mãos e sabe disso. Nos momentos que antecedem a batalha contra o último chefe, não é mais o medo que guia o jogador. É ódio. É dor. No último corredor antes da luta final, não há mais monstros. É desnecessário. A música ambiental, até então pontuada por suspense, adrenalina, ganha ares épicos, de redenção, de fúria. Na última sala, o jogador pode vender tudo que tiver no Store e fazer as atualizações definitivas na Bench. Não há mais saída, não há mais o que fazer. Exceto pela redenção. Isaac Clarke está pronto para morrer. Ou matar.

No epílogo, Isaac Clarke deixa de lado outra marca de impessoalidade, tira o elmo e mostra o rosto, ao contrário de Master Chief, por exemplo. Não é o rosto que eu imaginava, mas é o olhar que deveria ser. Isaac Clarke é um homem, não um herói ou um courier blindado. Um homem marcado por horrores que ninguém deveria passar. Um homem cansado. E, logo em seguida, descobrimos que ele é um homem a quem a paz está permanentemente negada.

Dead SpacePontos positivos de Dead Space: gráficos repulsivos, ambiente de suspense constante, criaturas criativamente modeladas e um dos melhores finais já criados para um jogo. Pontos negativos de Dead Space: estrutura narrativa tênue com pouca identificação emocional (exceto pelo final), missões enfadonhas aqui e ali, armas complicadas. Nota final: 8.5.

Ouvindo: My Life with the Thrill Kill Kult - Kooler Than Jesus
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10 comentários:

BruNêra disse...

Parabêns! Exelente resenha, concordo em todos os pontos, exeto em relação as "armas complicadas" serem um ponto negativo, pra min o fato delas serem complicadas e um pouco estranhas na aparência e utilização e muito justo já que essas "armas" não são armas propriamente ditas, são ferramentas de escavação usadas como armas.

C. Aquino disse...

A falta de usabilidade das armas é justificada pelo roteiro e, de certa forma, ajuda a ampliar a sensação de constante desconforto que acompanha o jogo. Mas, acredito que os criadores tenham exagerado na dose em alguns casos e falhado na praticidade do tiro alternativo em outros. É um problema menor que não chega a ofuscar a qualidade de Dead Space.

Marcos A. S. Almeida disse...

Muito legal você ter lembrado do BLOOD.Realmente foi um dos jogos em que minha sensação de desconforto chegou ao extremo,mas não foi o único; Siren (PS2) e Penumbra:Black Plague (PC) também elevaram essa sensação ao extremo, o segundo caso agravado pelo fato de não poder-mos atacar/atirar nos inimigos.Os comentários sobre Dead Space têm sido os melhores ( ou piores,depende do gosto) no que diz respeito á violência , sangue , terror e outros aspectos.Já o tenho, e depois de fechar MASS EFFECT 2 ( Recomendadíssimo) irei jogá-lo e fecha-lo ( se a sensação de "desconforto" o permitir...eheheheh!.Ótima análise.

Breno disse...

Não vi tanto impacto no final do jogo!É bem ao estilo da revelação final em bioshock, talvez por isso não tenha causado tanto impacto em mim, e a ultima cena do jogo é tão clichê que meus ovos doeram!A proposito, a face de isaak é visivel logo no inicio, acho que vc deve ter perdido a chance de ver!Entretanto,o jogo e perfeito do inicio ao fim,exceto pelo "susto final".Ainda bem que não fizeram ancoras para continuação,pois pelo menos uma experiência completa.Pelo menos acho que não vou ficar com dor de corno se a sequência não sair para PC!

Hawk disse...

Excelente análise. Dead Space é sublime. Tomara que lancem o 2 para PC.

Como o Breno bem disse, o rosto do Isaac é visto logo no início.

Duas curiosidades: o nome dele é em homenagem a dois gênios da ficção, Issac Asimov e Arthur C. Clarke.

Pegue as primeiras letras dos títulos dos níveis e veja a frase que será formada. É um spoiler, mas para quem já terminou, não há problema.

C. Aquino disse...

Eu estava segurando estas duas curiosidades para um post do tipo "Cinco Coisas que Você Não Sabia sobre Dead Space"! E sobre o spoiler, eu já sabia antes de começar a jogar... é o preço de navegar na internet impunemente. Felizmente, a verdadeira surpresa do jogo não é exatamente a frase, mas QUEM também tinha conhecimento dela.

Hawk disse...

Ops... Desculpa por estragar seu futuro post. Mas ainda restam outras 3 curiosidades. :D

Vou deixar um link para um site muito interessante sobre a série Dead Space: http://deadspace.wikia.com/wiki/Dead_Space Nele tem muitas informações interessantes, por exemplo... curiosidades. =D

C. Aquino disse...

Sem problemas! Provavelmente vc me arranjou mais curiosidades para postar do que estas duas que eu perdi... Valeu pelo link!

Anônimo disse...

Eu me borrei só de ler tudo isso

Fernando.. disse...

Instigante.

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