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25 de junho de 2022

Jogando: Remnant From The Ashes

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O que está acontecendo aqui? Sem entender patavinas de nossa jornada, em busca de uma pessoa que poderia nos ajudar, desaparecida em um labirinto de dimensões, chegamos ao final. A conclusão é abrupta e sem sentido, uma batalha contra um chefe que sequer pode ser considerado desafiador. O lugar em que ele estava desmorona e é isso. Não há um epílogo, não há respostas, não há exatamente um sentimento de satisfação, o que nos levou a procurar o último mundo que não tínhamos visitado, por causa de um atalho. Completamos todos os mapas e ficamos nos olhando sem saber para onde ir. É claro que o caminho era um só: desinstalar. Ou então vagar eternamente pelo universo de outros jogadores, desafiando a aleatoriedade dos mapas e dos inimigos em busca de... em busca do quê mesmo? Desinstalamos Remnant From The Ashes.

Se você perguntar para mim ou para o meu filho se perdermos nosso tempo atravessando o confuso título da Gunfire Games, nenhum de nós vai responder que foi um desperdício. Na verdade, foi delicioso. Um exercício de parceria contra ameaças que levaram nossas habilidades até o limite, um jogo que exige muito e entrega pouco, sempre nos mantendo inseguros sobre o que se esconde na próxima esquina.

Em termos gerais, Remnant From The Ashes tem uma premissa simples: nosso planeta foi invadido por forças de outra dimensão. É o típico ponto de partida que você já viu executado dezenas de vezes, com variados graus de competência. Half-Life 2 está aí para não me deixar mentir como essa linha genérica pode render uma boa atmosfera. Aqui, essa ameaça incompreensível atende pelo nome de Raiz, uma mistura difícil de sintetizar, que abrange soldados estranhos, raízes literais que se alastram e algum tipo de consciência coletiva. Para encontrar aquele que talvez saiba como deter a Raiz de uma vez, é necessário penetrar em um labirinto multidimensional com portas para outros mundos.

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A partir do momento em que você deixa o planeta Terra devastado, o jogo finalmente ganha seu brilho, com paisagens verdadeiramente alienígenas e sociedades herméticas onde o Homem não é bem vindo. Não espere por um RPG de exploração, com inúmeros NPCs e missões para serem cumpridas. A violência é a linguagem universal que atravessa essas realidades e os poucos seres conscientes que dialogam com você ao longo do caminho irão tão somente despejar uma quantidade absurda de lore, que não tem qualquer influência na forma como você interage com seus universos. A impressão que se tem é que Remnant From The Ashes tem uma enciclopédia de conteúdo nos bastidores, mas seus desenvolvedores não se importam se você está absorvendo ou não, e seguem te empurrando para frente com um campo de batalha atrás do outro. É quase um Othercide nesse sentido.

Mecanicamente, é o jogo mais muquirana que já vi. A estrutura é de um looter shooter: mate criaturas para conseguir evoluir seu personagem e seus itens, mate criaturas mais fortes para conseguir artefatos melhores. Entretanto, os inimigos são nivelados pela média do seu equipamento e a única evolução que importa é de suas características no frigir dos ovos. A maior decepção fica por conta das selvagens e estimulantes batalhas contra chefes. Muitos levaram mais de dez tentativas para serem vencidos. Ainda assim, todos eles deram como recompensa artefatos de valor extremamente questionável. O resultado é que não há absolutamente nenhum item que você possa encontrar ou fabricar que seja um divisor de águas, embora diferentes armas em diferentes situações possam facilitar essa ou aquela luta.

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Percebi esse aspecto do jogo logo de início. Tão logo encontrei uma combinação de armas que me era confortável, segui com ela praticamente até o final. Meu filho, insatisfeito e curioso, testou todos os equipamentos possíveis e foram constantes suas críticas sobre a eficiência deles. É frustrante levar uma hora marcada na relógio para vencer um chefe e receber um item desinteressante em troca.

A proposta da Gunfire Games é que Remnant seja um jogo de grinding ou mesmo um jogo como serviço. O "fator de replay" é forte, uma vez que o layout dos mapas é aleatório, assim como a disposição de inimigos, chefes e tesouros. Cada mapa reseta quanto é salvo e os inimigos ressurgem. Uma vez que é possível e até incentivado entrar no mundo de outros jogadores, a ideia é que os jogadores travem uma jornada infinita, repetindo muitas vezes determinados mundos e confrontos até ter visto tudo que se tinha para ver ou atingir um grau de excelência como jogador capaz de atropelar seus oponentes.

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Nenhum de nós estava satisfeito com essa perspectiva: repetição. Atravessamos a Terra duas vezes, primeiro no "universo" do meu filho, depois no meu "universo", para ter o nível e os recursos necessários para seguir em frente com o mínimo de segurança. Meu filho chegou a insinuar que poderíamos trocar de jogo. Nesse ponto, encontrei um mod na internet: Accessibility Damage Reduction. Esse mod permite reduzir o dano tomado em 25%, 50%, 75% ou ridículos 99% e dobra o ganho de experiência. De comum acordo, utilizamos a opção mais leve, removendo 25% do dano dos inimigos. O jogo continuou desafiador, determinados chefes seguiram impressionantes e conseguimos escapar da necessidade de fazer grinding.

Remnant From The Ashes tinha potencial para ser um título inesquecível, mas optou por alguns caminhos estranhos. Ao invés de contar uma história, utiliza seu contexto arrebatador para fazer corredores e arenas de combates sucessivos contra hordas de inimigos e criaturas exóticas. Ao invés de colocar uma cenoura na frente do burro, para incentivá-lo a ir em frente, cada vitória é premiada com um brinde fajuto e um tapinha nas costas. Não há nem mesmo uma forma de se vender as armas de baixa qualidade ou as armaduras que vamos acumulando. Cada evolução de característica é uma mixaria de 1%. Cada melhoria de arma ou armadura é apenas a certeza de que os inimigos se nivelarão outra vez. E então acaba. Não chega a ser um final ruim como o de Desolate, mas antes fosse, porque o final ruim de Desolate pelo menos fazia sentido e concluía alguma coisa.

E, mesmo assim, atravessaria Remnant From The Ashes todo de novo para descobrir dimensões estranhas lado a lado com meu filho e derrubar monstros perturbadores em sua companhia.

Ouvindo: The Young Gods - Speak Low

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