Retina Desgastada
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7 de setembro de 2021

Jogando: Desolate

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S.T.A.L.K.E.R. (ou, mais apropriadamente dizendo, Roadside Picnic, onde tudo começou) continua exercendo sua influência na indústria dos jogos eletrônicos do leste europeu. Enquanto a polonesa The Farm 51 e seu magnífico Chernobylite refrescou a garganta e umedeceu o rosto com a água dessa fonte, a russa Nearga tirou a roupa e pulou de cabeça, absorvendo tudo que podia do jogo ucraniano, do livro que deu origem a tudo e até mesmo do filme cult de Tarkovski. Infelizmente, eles beberam de passar mal. Infelizmente, referenciar, mesmo que trabalhos clássicos, sem a devida capacidade técnica, não é uma receita garantida para o sucesso e o resultado final fica apenas na sombra de trabalhos superiores.

Desolate, desta forma, pode ser explicado como um S.T.A.L.KE.R. convertido em jogo de sobrevivência cooperativo. A possibilidade de se jogar em grupo de até quatro pessoas talvez seja a única adição que ele traz para a mesa e atravessar essa ilha fictícia de Granichny ao lado de meu filho foi o principal combustível para chegar até o final de uma história confusa, mal contada e com uma conclusão que funciona como deboche disfarçado de existencialismo.

O tutorial já é um recorte dos problemas de desenvolvimento de Desolate. Antes obrigatório, ele agora funciona como uma apresentação opcional. Não há muito dito nesse começo e o que é dito tem pouca ou nenhuma serventia quando o jogo começa. O mesmo é válido para suas mecânicas ou sua atmosfera. O tutorial foca no horror em ambientes enclausurados, mas logo depois somos soltos na vastidão aberta de um mapa com estradas, florestas, montanhas e outros cenários naturais. A ilusão do horror se sustenta por mais uma hora, motivada pela incerteza da proposta desse universo. Afinal, se até os Enderman me causaram medo nos momentos iniciais de Minecraft, por desconhecer suas regras internas, o mesmo acontece com os fenômenos aparentemente inexplicáveis dessa ilha amaldiçoada.

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Granichny se tornou uma zona de exclusão depois de um cataclismo criado pelo Homem. Assim como a mítica Zona, temos aqui humanos e animais alterados drasticamente por efeitos desconhecidos. Anomalias de todo tipo podem ser encontradas nessa geografia, como esferas elétricas inteligentes, tornados vivos, distúrbios gravitacionais agressivos e outras aberrações das leis da Física que devem soar familiares para os jogadores de S.T.A.L.KE.R.. Somos enviados para lá como voluntários, para investigar os eventos e buscar alguma forma de explicação, alguma forma de solução. Nessa jornada será necessário lidar com saqueadores e uma facção militarista que busca estabelecer o controle da ilha, assim como monstros hostis e aparições espectrais.

É inegável que as primeiras duas horas de Desolate cumprem o que prometem. Passamos fome, passamos sede, nos esgueiramos de inimigos que não tínhamos certeza se seríamos capazes de vencer. Fomos assustados por fantasmas perturbadores e contemplamos um cenário onde claramente a razão não fazia mais sentido. Evidentemente, encontramos a morte e o terror de renascer longe um do outro, sem equipamento, em território hostil. Cada exploração trazia sua carga de recompensas mas também uma pesada carga de riscos.

Nem é Tão Desolado Assim...

Infelizmente, Desolate apresenta diversos problemas mecânicos. Não há praticamente nenhum aspecto que ele lide adequadamente. O sistema de fome e sede é desequilibrado, exigindo que consumamos quantidades absurdas de alimento e líquido, mas também oferecendo farta quantidade de ambos a partir de determinado ponto. O sistema de ferimentos é brutal, impondo limitações que mais atrapalham do que realmente impactam na sua sobrevivência: atravessei quilômetros com a perna fraturada, lento, mas cheguei vivo em minha base. A temperatura não tem qualquer impacto mencionável na jogabilidade. O processo de construção de armas superiores exige peças demais e oferece bônus de menos, apenas para você ver sua arma quebrando em duas ou três sessões de jogo. O próprio arsenal é limitado. O uso de armas de fogo está muito longe de ser satisfatório. E ainda temos os bugs...

A lista poderia se estender mais, porém nada é mais decepcionante do que a curva de dificuldade. Passadas as primeiras horas do jogo, quando você finalmente encontra sua base de operações, Desolate muda de perspectiva. A partir daí, ele se torna muito mais fácil do que foi no começo. Ainda que tenhamos morrido mesmo assim ao longo da jornada (muitas vezes por excesso de confiança), nunca mais tivemos a mesma sensação de desespero do início, mesmo penetrando em território desconhecido, mesmo entrando em contato com novos e perigosos monstros. Nesse sentido, se iguala ao frágil Nether, outro título de sobrevivência que amedronta, mas logo perde seu apelo.

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Tínhamos então armas melhoradas, roupa melhorada, farta disposição de alimentos e remédios, várias perícias desbloqueadas e nenhum caminho de evolução de personagem muito claro. Meu filho percebeu um bug: a melhor de todas as armas  só podia ser feita em um tipo de bancada porém, mesmo construindo a tal bancada, o jogo não a reconhecia como tal. Não que tivesse alguma diferença: nossas armas causavam 305 pontos de dano, enquanto a arma "definitiva" causava 320.

O combate em Desolate é basicamente corpo a corpo, uma vez que munição para armas de fogo é escassa e elas não são eficientes. Para um título baseado nesse conceito, Desolate trazia uma movimentação travada e inimigos que podiam se esquivar quase infinitamente. Se uso aqui os verbos no passado é que seus desenvolvedores fizeram uma nova atualização no sistema de combate no último dia, no dia em que encerramos a missão final. Pela primeira vez, sentimos fluidez nas lutas e nossos personagens engatando um golpe atrás do outro de uma forma mais natural. Tarde demais, mas merece elogios.

Nesse ponto, claramente já éramos os senhores do terreno. O desafio já havia sido superado sessões atrás e, evitando determinados inimigos, era possível ou atravessar correndo o mapa sem riscos ou atravessar enfrentando qualquer outra coisa que se colocasse em nosso caminho. É uma pena que o enredo desperdiçou esse potencial para nos enviar em missões repetitivas de encontrar documentos ou coletar peças de maquinário. Com nosso equipamento confortável para o nível de desafio, não havia prazer em explorar cada canto do mapa em busca de um saque que era composto por bugigangas na maior parte do tempo.

Graficamente, o jogo entrega uma experiência positiva, com paisagens inesperadas e um bom uso de iluminação. O fato de eu para diversas vezes para fotografar os arredores era um indicador da tranquilidade que agora sentia, mas também do visual de Desolate.

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Existem missões secundárias, oferecidas por personagens identificados por suas profissões (Cientista, Engenheiro, Comerciante, Treinador), uma característica emprestada de Tarkovski. Porém, meu filho optou por focarmos na linha principal da história. Pesquisando na internet, vi que as missões secundárias são basicamente missões de grinding que liberam algumas receitas novas de fabricação. O fato de não termos sentido a necessidade deles é outro sinal do desbalanceamento da aventura.

Com 23 horas passadas em Granichny, a conclusão não se mostra à altura do tempo dedicado. Muito pelo contrário. Desolate oscila entre ser um jogo de sobrevivência, ser um jogo de ação, ser um jogo de horror ou ser um jogo de ficção-científica, sem completar seu potencial em nenhum desses pontos e termina tentando ser filosófico, também sem sair da média. Essa não será uma Zona que deixará saudades, mas uma que fico satisfeito de deixar para trás.

Ouvindo: The 69 Eyes - Who's Gonna Pay the Bail

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