Retina Desgastada
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25 de janeiro de 2019

Jogando: NaissanceE

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Desde criança sempre fui fascinado pela ficção-científica, pela possibilidade de explorar outras realidades, outras dimensões alheias à condição humana. A imensidão do espaço me intriga, o fato de sermos minúsculos habitantes de um planeta minúscula orbitando uma estrela que é pífia diante de uma infinidade de outras estrelas muito, muito maiores. E isso apenas dentro do Universo conhecido. Logo cheguei à conclusão que existiriam conceitos e civilizações tão alienígenas para nós que sua compreensão nos seria impossível.

Lamentavelmente, raras são as obras que se esforçam para criar essas sensações: incompreensão, estranheza, humildade. Mesmo aqueles filmes e jogos que chegam a imaginar outras dimensões ou estruturas além da esfera humana geralmente pisam em terreno familiar ou fracassam ao explicar demais.

Perdido no labiríntico NaissanceE, vi minha imaginação se transformar em concreto, virar jogo, mergulhar e quase não sair. De alguma forma quase arcana, seu modesto time de criadores conseguiu capturar tudo que eu esperava: incompreensão, estranheza, humildade. Ao longo de pouco mais de 4 horas de jornada, saciei meu lado Explorador e voltei a ser criança, beatificado diante da glória de mundos desconhecidos e inexplicáveis.

Em NaissanceE, você é uma mulher sem memória ou personalidade aprisionada em uma mega-estrutura que possivelmente é um dos maiores e mais fascinantes mapas dos jogos eletrônicos. O enredo está totalmente em segundo plano aqui e seu propósito é seguir em frente, escapar desse ambiente que claramente não foi projetado por reles mortais. Se você procura por respostas, não irá encontrar nenhuma. Se você procura por alento, tampouco terá suas preces atendidas. Espanto. Assombro. Opressão no peito. Morte. Esses serão os companheiros de sua travessia dessa paisagem alienígena.

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A princípio, o jogo pode ser confundido com um walking simulator. Não há interações significativas, não há uma trama, você apenas passeia por lugares inexplicáveis. A arquitetura de NaissanceE é seu enredo, o espaço é sua jogabilidade. Entretanto, seus projetistas espalharam pelo caminho doses exatas de enigmas, sejam puzzles que desafiam a inteligência ou sequências de plataformas que testam suas habilidades. São sopros de "jogo" em uma aventura que é basicamente se deixar perder e encontrar uma saída em um espaço que não foi feito para ser navegado. Por conta desses momentos de "jogo", NaissanceE flerta com a frustração. Há pelo menos uma sequência de saltos que quase me fez arrancar os cabelos e desistir e um nível inteiro que peca pela falta de locações deslumbrantes e pela letalidade de seus obstáculos.

Caminhar por seus níveis é um teste para os nervos. Não porque hajam sustos ou ameaças, mas por conta do não-pertencimento: você é o invasor perambulando por onde não deveria estar. Nesse ponto o jogo acerta ao colocar distâncias monumentais no caminho do jogador e desenvolver uma mecânica simples mas importante para corrida. Por mais que você queira apreciar a vastidão, em muitos momentos você se sentirá impelido a correr porque apenas andar seria por demais cansativo, física e mentalmente.

NaissanceE 12

Felizmente, para cada percalço que esse(s) mundo(s) coloca(m) em sua frente, há um momento de deslumbre logo em seguida. É repetir a cada dez minutos o questionamento "que lugar é esse?". Há traços de Escher nessas construções, há traços de Brutalismo, há influências de um hipotético Mondrian monocromático. Em outros momentos, evoca as profundezas colossais da Aperture Science em Portal 2. Apenas para reverter todas suas expectativas em outro capítulo, trazendo cenários inesperados e salas secretas ainda mais bizarras que a atmosfera normal do jogo.

NaissanceE foi engendrado com uma paleta de cores limitada, que aumentam o impacto da arquitetura hostil. Essa ambiência perderia muito se a trilha sonora também não fosse perfeita. Sons e ritmos fora do convencional acentuam o aspecto mais exótico da experiência e dão muitas vezes o tom de apreensão dessa odisseia.

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O título derrapa para ser um jogo trivial em seus minutos derradeiros com o obrigatório encontro com um "chefe final". O suspense que até então nos acompanhava se torna então uma corrida desesperada pela vida, para se encerrar em um jorro de luz sem explicações. Desta forma, sua jornada se encerra, tão abruptamente quanto começou. NaissanceE termina porque precisa terminar, mas o destino de Lucy, nossa exploradora involuntária, é tão vago quanto nossa imaginação.

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