Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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31 de janeiro de 2011

The Cake is Not a Lie

"we do what we must because we can"

GLaDOS

Portal - Aperture SciencePortal veio junto com o pacote Orange Box, quando minha intenção era apenas jogar Half-Life 2. Durante todo esse tempo permaneceu trancado nos servidores da Valve, sem nunca ser baixado para minha máquina. Até que uma coincidência negativa me deixou sem jogos instalados em uma noite em que minha esposa iria sair com uma amiga e voltar tarde. Deixei o cliente do Steam baixando o jogo e fui pegar meu filho na creche. Segundo o Ghedin, dava para fechar o jogo em duas horas e meia. Coloquei meu filho para dormir e fui jogar. Minutos depois eu estava vidrado na tela e imerso na insana câmara de testes de GLaDOS. Três horas depois, minha esposa chegou e eu ainda estava jogando. Ela ficou acordada mais um pouco, subiu fotos para o Facebook. E eu jogando. Falei com ela que só iria dormir depois que terminasse. Ela entendeu e foi dormir. Uma hora depois, eu ainda estava jogando, no limite das minhas forças, e estava de cara com o último inimigo. Morri. Morri. Morri. E fui dormir. Sonhei com portais se abrindo, com puzzles. Acordei. Minha esposa levou meu filho para creche, pois tínhamos almoço marcado. Tomei banho correndo, me arrumei. E voltei a jogar. Enquanto minha esposa se arrumava, eu enfrentava GLaDOS. Venci e assisti o final. Fui para o almoço com a música "Still Alive" tocando insistentemente em minha cabeça e um sorriso bobo no rosto. Portal tinha entrado para minha lista de favoritos.

Como é possível que um subproduto da Valve de apenas seis horas de duração (em minhas mãos, pelo menos) possa ter conseguido o feito que Half-Life algum foi capaz? Uma mistura única de desafio, narrativa e humor negro.

"You just keep on trying until you run out of cake"

Raríssimos foram os jogos de desafio ou puzzle de que eu gostei. E mais raros ainda aqueles que eu completei. O obstáculo sempre foi o fator dificuldade. Apesar de ser considerado inteligente pelos meus pares, eu diria que meu intelecto está mais propenso a armazenar e digerir dados do que resolver problemas práticos. Nunca joguei xadrez. Nunca fui um mestre no jogo de damas. Enigmas com palitos de fósforos e outros similares em revistas sempre me deixaram frustrados. E frustração não é o nome do jogo. Os poucos títulos que me cativaram apresentavam uma rápida curva de aprendizado ascendente e se tornavam impossíveis para mim depois de três ou quatro fases.

Em Portal, a Valve acertou na medida exata para me prender em poucos minutos e continuar me desafiando progressivamente até a batalha final. É um título que, ao mesmo tempo em que não segura sua mão para cumprir os desafios também é habilmente construído para que você possa intuir as saídas, mesmo quando tudo parece impossível. Ao contrário de estressantes sequências de plataforma ou puzzle em títulos fora do gênero, aqui seu sucesso NÃO depende de reflexos de relâmpago ou saltos precisos (na maioria dos casos, pelo menos). Você pode analisar o ambiente, experimentar, inventar soluções, no seu ritmo, seja em duas horas e meia, seja em quatro, seja em seis.

Portal - Chel

O conceito do jogo é simples. Não há inventário. Não há estatísticas na tela, pontos de vida, munição. Uma única e excepcional arma faz parte do seu arsenal, um instrumento capaz de abrir portais de entrada e saída. É impossível de se explicar sem usar muitas palavras, mas, tantos anos após seu lançamento, imagino que todo mundo já conheça pelo menos a idéia. Entretanto, se você não jogou, nada do que foi escrito ou visto irá prepará-lo para a sensação que dá entrar por um destes portais. Um lado do seu cérebro irá assimilar o evento e o outro lado irá se apegar à velha forma de ver o mundo e se recusará a visualizar as possibilidades. Você chegará na metade do jogo e ainda se flagrará dizendo: "eu não acredito que estou fazendo isso!". O verdadeiro desafio do jogo não vem de GLaDOS ou das salas milimetricamente arquitetadas. Virá de sua própria resistência a compreender o que pode ser feito. E, quando você se libertar das amarras do que é "normal", você estará dominando o jogo.

"Now these points of data make a beautiful line"

A Valve poderia perfeitamente soltar o jogador em uma sucessão de desafios a serem vencidos usando a Portal Gun e ainda assim ter um título de sucesso. A jogabilidade vicia. Mas, ainda assim, como quase tudo vindo da desenvolvedora, era necessário algo mais. E esse algo mais chama-se Narrativa. Com N maiúsculo, por favor, esses são os caras que colocaram uma introdução sem tiros em um jogo de tiro, doze anos atrás.

Portal, em muitos aspectos, me lembrou a obscura franquia de filmes de terror O Cubo, mais especificamente o primeiro e o terceiro filme. O ambiente estéril e impessoal, mortífero e sem sentido seguido por uma estranha e insolúvel conspiração, cujos bastidores não são tão organizados ou assépticos quanto a fachada. Nesse cenário desolador, a protagonista sem voz ou nome é constantemente instigada, traída e atormentada por uma inteligência artificial sádica, manipuladora e, ao mesmo tempo, frágil e digna de pena.

Portal - Signs 02

A história não nos é contada diretamente de forma alguma e aparece lentamente, seja através da fala de GLaDOS, a única voz presente em todo o jogo, seja através de mensagens desconexas grafitadas fora dos limites controlados pela máquina. Através destes pedaços de informação, o jogador vai montando um quebra-cabeça ainda mais complexo do que os desafios físicos impostos pelo ambiente. Trata-se de uma história feita de mentiras, de loucura, de horror e que, de alguma forma, está relacionada ao hermético universo de Half-Life. Esta colcha de retalhos possui mais lacunas do que bordados, mas nestes vazios reside o grande enigma de Portal.

"I'm being so sincere right now"

Uma outra empresa qualquer poderia se dar por satisfeita ao criar um jogo desafiador e com uma narrativa intrigante. Não a Valve. Entrando como a cereja deste bolo, está GLaDOS, o mais perturbador, sarcástico, detestável, adorável, insano, mentiroso e sádico vilão contemporâneo desde o Coringa.

GLaDOS é rainha do espetáculo, roubando todas as cenas em que se manifesta. A protagonista, que entra muda e sai calada, aqui é apenas uma mão virtual para segurar a arma para o jogador enquanto este se diverte e, ao mesmo tempo, tenta sobreviver à antagonista. Com uma voz feminina agradável, ela é capaz de dizer as maiores barbaridades sem perder a linha em quase nenhum instante. E, quando fica claro ao jogador que há algo muito errado com a máquina, os sorrisos vão se transformando em uma mistura de riso amarelo com riso nervoso. Parabéns ao time da Valve e seu texto exuberante, repleto de fina ironia. E parabéns à dubladora (e cantora) Ellen McLain, que emprestou sentimento e doçura nos momentos certos, e incerteza e loucura nos momentos de arrepiar a espinha. Eu ria enquanto pensava: "Meu Deus, esta coisa maldita está tentado me matar!".

Portal - Test Chamber

Ao final do jogo, entram os créditos e a música "Still Alive", cantada pela mesma Ellen McLain personificando uma invencível GLaDOS e prometendo novos horrores. Em nome da ciência. A canção funciona em dois sentidos, atuando como catarse após longas horas de confronto graças ao seu ritmo pop e colante enquanto a letra (e a voz da máquina) assusta em contraste e confirma que o pesadelo não terá fim.

Não se deixe enganar pelo meme que diz que "The cake is a lie". Existe bolo. E ele é delicioso e molhado.

Portal - Cake

Ouvindo: Garotos Podres - Pato Careca

12 comentários:

NevesZerg disse...

Li seu twitter agora, as 01:01 da madruga, deitado em minha cama, mas 2 coisas me chamaram a atencao, levantei e fui escrever esse comentario no micro.

Primeiro, Voce tambem curte garotos podres??? pensei que so eu gostasse.

Segundo, The cake IS a lie. Esse é todo combustivel que move o personagem principal, esse é o cumbustivel que move o mundo, a fé das pessoas que acreditam que a vida ha de ser melhor. Sim , sei que o bolo existe, mas prefiro acreditar nas mentiras de GLaDOS e voltar para a cama feliz, e ainda sim, acreditar que Portal, ainda é um dos melhores games lancados para PC.
E que venha portal 2.

Abracos,
Neves.

NevesZerg disse...

Esqueci de comentar na mensagem anterior, GLaDOS, foi considerado por alguns sites, como o maior vilao de todos os tempos numa lista de 100 viloes de games.

Fabio Bracht disse...

Agora vai ouvir Jonathan Coulton, o gênio que compôs a Still Alive. Quando tu ouvir Code Monkey, Skullcrusher Mountain, The Future Soon, Shop Vac, Chiron Beta Prime, Betty and Me e Re: Your Brains, entre diversas outras, vai ver que Still Alive é o padrão de letras do cara.

http://www.jonathancoulton.com/songs/

Hawk disse...

Que texto sensacional!

Obrigado por este texto. Me deu vontade de jogar Portal novamente.

Como estou sem grana pelos próximos meses, acho que não conseguirei adquirir Portal 2 em seu lançamento. Então, quando este for lançado, me contentarei a jogar o primeiro jogo.

O Ghedin não deveria estar falando sério sobre terminar o jogo em 2 horas e meia. Não sei quanto demorei, mas com certeza fora mais que 5 horas.

Marcos A. S. Almeida disse...

Esse texto exemplifica muito bem o que é o Retina.Aquino escreve como se fôsse-mos seus confidentes, descrevendo suas impressões pessoais sobre o jogo e mostrando detalhes do seu dia-a-dia.Basicamente o que eram os blogs no início.E isso é muito legal,pois nos faz sentir entre amigos,visto que a maioria dos blogs nos joga informação sem essa pitada de pessoalidade.Nada contra,até porque a diversidade só faz bem, e cada um cumpre o seu papel na blogosfera.Mas essa excessão , que é o Retina, é muito boa.
Quanto ao jogo,confesso que tenho certa resistência á jogos puramente quebra-cabeças, que era a impressão que eu tinha de Portal.A julgar pela análise do Aquino, me parece que ele não é só isso.Baixei a demo de um jogo chamado THE BALL, e alguém me disse que ele é o como PORTAL , só que para resolver os puzzles temos que rolar/utilizar uma bola e com alguns monstros em nosso encalço.Mas basicamente é de puzzles e estou gostando.

Rodrigo Ghedin disse...

Hawk, a menos que o contador de tempo do Steam esteja bugado, fechei em ~2h30. Achei o jogo bem curto, mas só enrosquei feio (perdi uns 20 minutos) naquela parte onde aparece uma arma de fogo que fica te procurando numa sala e dispara um míssil. Na real, fiquei parado na sala seguinte (tinha que criar um portal para o míssil passar da anterior para essa e, então, quebrar o vidro).

E que venha Portal 2! :-D

[]'s!

C. Aquino disse...

NevesZerg, meu gosto musical é bastante eclético, passando por Aphex Twin, trilhas de jogos, The Cure, Iron Maiden e Garotos Podres. E acho que sou o último blogueiro que ainda usa esse esquema de "estou ouvindo...". Geralmente é a música que está no Winamp no momento em que boto o ponto final da postagem.

Fabio, muito grato pela dica! Vou baixar primeiro as músicas gratuitas do Jonathan Coulton, depois eu vejo se rola um álbum na íntegra.

Hawk, eu também duvido muito que eu vá jogar Portal 2 no lançamento. Como a Valve é uma mãe, o preço deve cair pela metade um ano depois. Eu vou esperar.

Marcos, eu QUASE comprei The Ball na última promoção do Steam de fim de ano. Mas segurei a grana para outras coisas. Esta na minha alça de mira!

Ghedin, eu empaquei na mesma sala! E já era três horas da manhã... Dei ALT-TAB, procurei uma ajuda na internet e fiquei posesso por não ter pensando na solução sozinho!! Todos os outros, eu resolvi por mim mesmo.

Hawk disse...

Ghedin, tu é ninja cara. Eu enrrosquei em várias partes.

Teve uma parte, que fiquei batendo cabeça umas 2 horas, não consecutivas.

Marcus D. Ribeiro disse...

Me deu uma vontadeimensa de jogar POrtal novamente, apesar de apostar que não farei isso. Tenho uma lista enorme jogos pra terminar e com mulher e filho, você sabe, é difícil. Quanto a POrtal 2, estou ancioso pracaramba, e guardando grana pra ele e Assassins Brotherhood.

Marcos A. S. Almeida disse...

Ehehehe , Marcus , toda vez que leio uma análise por aqui, também fico com essa sensação.O Aquino , com seu texto, têm esse poder.Mas já embarquei numa furada - Morrowind - e numa boa - Dead Space. Longe de mim dizer que Morrowind seja ruim ( acho que inclusive estou cometendo uma "heresia" , não é mesmo Aquino?) mas como já não gosto do gênero , ele me pareceu com gráficos muito datados.

Fagner P. disse...

Até que fim jogou hein, hehe.
Portal também é um dos meu favoritos com certeza, o unico problema é que é realmente curto, fechei ele com menos de 3 horas, e tudo por culpa da GLaDOS, que eu demorei bastante tempo pra destruir aquele computador miserável, esperamos que o 2 seja mais longo.

Luis Felipe Vitte Soligueti disse...

Portal é realmente um grande jogo, tanto que está no Top 3 jogos da minha vida, eu considero ele tão perfeito quanto Tetris em sua jogabilidade. E a GLaDoS é realmente sensacional, depois de um tempo, a minha principal motivação para continuar queimando a cabeça nos puzzles era ouvir a próxima fala dela. Portal, eu acho, que foi uma das melhores 2 horas da minha vida. Aliás, belo texto, adoro a sua forma de escrever, tanto que estou lendo todas as analises que vc já fez.

Retina Desgastada

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