Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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7 de março de 2014

Jogando: Minecraft

Arrasto-me das profundezas de um buraco cavado na terra. Não sei mais se é o Sol está lá fora ou não, em que dia da semana estou ou quando foi minha última refeição. Sou uma toupeira humana, um farrapo puído do que já fui, consumido pela pedra, envenenado pela madeira, obcecado por metais.

Isso é Minecraft, jogo e metáfora.

Minecraft - My Screenshot 09

Este é o título que atropelou a lista programada para 2014. Que sabotou a frequência de postagens. Que uniu pai e filho diante do mesmo vício: um jogo de exploração infinita sem objetivos tangíveis exceto aqueles que a imaginação cria.

"Minecrack": 60 horas jogadas, 200 quilômetros caminhados, 19 mortes, 203 criaturas mortas, 942 tochas criadas para afastar a escuridão. Nas últimas 24 horas, mais 11 mil almas se juntaram à roda.

Maldição Quebrada

Reza a lenda que há uma maldição no blog e que boa parte desta maldição é culpa de um certo @magaiverpr. Este Avatar da Teimosia presenteou a mim e a meu garoto com uma licença para o extraordinário fenômeno da Mojang no dia do meu aniversário, em 7 de Janeiro. Como cachorro mordido de cobra tem medo até de linguiça e como estava envolvido nos ajustes finais de outro projeto, fui adiando a instalação, adiando, adiando. Não poderia imaginar que meu destino já estava traçado.

O fato é que Minecraft é a isca definitiva para um Explorador como eu.

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A criação do sueco Notch é matematicamente capaz de gerar um mundo randômico repleto de paisagens exóticas que é literalmente do tamanho do planeta Terra. Ou maior. Biomas diversos como desertos, paisagens polares, ilhas, florestas tropicais, florestas temperadas, planícies, pântanos, mesas e mais. Temos cachoeiras belíssimas, montanhas aguçadas, lagoas escondidas, templos perdidos, ravinas abissais, rochas flutuantes, rios sinuosos, cogumelos gigantes que podem estar logo ali, além do horizonte. Tudo isso apenas na superfície. Porque embaixo dos pés se formou um outro mundo igualmente vasto e aleatório, formado por cavernas colossais, lagos de lava subterrâneos, minas abandonadas infestadas de monstros e tesouros, masmorras, rios sombrios e os restos de uma civilização que não existe mais.

Minecraft é uma overdose para quem procura paisagens e tem a necessidade de conhecer tudo que há para se conhecer. É uma tarefa impossível, que pode consumir décadas de um jogador. Do ponto em que você começa até o limite técnico da engine são 12 mil quilômetros. Em qualquer direção. Isso em um único mundo: sempre existe o botão que pode gerar outro mapa inteiramente novo em segundos.

A Vida, o Universo e Tudo Mais

O calcanhar de Aquiles do jogo é que não há um objetivo. Não há um enredo, não há explicações, não tem contextos. Não há nem mesmo um tutorial e o jogador novato fará visitas constantes ao Wiki do jogo.

Ou seria essa falha outro de seus maiores triunfos?

Minecraft - My Screenshot 08

Na ausência de uma mão que o guia, você tem a liberdade absoluta de fazer o que quiser, quando quiser, como quiser. Seu principal dilema é evitar a morte, que costuma vir nas mãos de criaturas sobrenaturais que aparecem de noite em ambientes escuros. Em seguida vem a fome, que pode enfraquecê-lo. Todo o resto é cosmético e opcional. Então, suas necessidades mais básicas são abrigo, luz e comida.

Nas primeiras horas, Minecraft flerta com o Survival Horror, literalmente. Você só tem suas mãos e a roupa do corpo para sobreviver aos horrores da primeira noite. Sons horrendos atravessam a escuridão e monstros que você não entende ainda como funcionam estão no seu encalço. Seu instinto primal aflora e tudo assusta, como nos instantes iniciais da Humanidade.

Resolvida a questão do abrigo e da iluminação, começa a ousadia. Ousadia essa que pode levar a uma morte descuidada que poderá remateriazá-lo a muitos metros de distância do seu abrigo, sem um referencial de direção. Se você precisa de uma única dica para começar, use essa: construa seu abrigo no exato lugar onde você começa o jogo, porque é ali ou próximo dali que seu respawn original será marcado a ferro e fogo. Não faça como eu, que vagou em direção ao infinito, subiu na montanha mais alta que viu, pulou na água, andou mais um pouco e só aí montou sua casa definitiva.

Minecraft acaba sendo uma bela representação do espírito incansável de seu jogador. Com abrigo e luz, montei um esquema auto-sustentável de produzir tortas de abóboras. Nunca mais passaria fome ou teria medo da noite. E poderia ter desinstalado o título, concluída essa meta. Mas resolvi minerar (é metade do nome do jogo, afinal). Escavei, encontrei regiões novas e complexas. Extraí metais e forjei armaduras. Estava ainda mais seguro do que antes. E poderia ter desinstalado aí, nada poderia superar aquela escavação.

Ou será que não? Resolvi explorar os quatro pontos cardeais. Fui um pouco além do meu território e poderia ter desinstalado aí também: não deve haver muitas variações do que já vi e o que é muito diferente deve estar muito, muito longe. Mas resolvi aperfeiçoar minhas terras: criei currais para animais que não precisava (tinha minha produção de tortas, afinal), enfeitei caminhos, derrubei árvores. E resolvi construir uma muralha em volta de tudo. Levei horas de plácida e metódica jogabilidade. Tentei derrubar uma montanha que estava no caminho e desisti. Com a muralha pronta, ficou óbvio que os monstros continuavam aparecendo dentro do terreno. Faltava iluminar a noite. Espalhei lanternas e tochas por todos os cantos possíveis, construí um guardião. Pela primeira vez, andava fora de casa sem o Sol sobre minha cabeça e sem temor. Tinha um canto virtual que era seguro e confortável.

Minecraft - My Screenshot 18

Poderia ter desinstalado depois disso, satisfeito. Mas meu filho e eu voltamos às explorações logo depois de ter montado o "lar" perfeito. Estabelecemos metas: encontrar aldeões, encontrar lobos, encontrar Slimes. Batemos todas as metas apenas para estabelecer novas. Estamos agora procurando por um gato, o animal mais arisco de todo o jogo, um ser arredio que vimos apenas duas vezes.

Emergência

Eu menti quando disse que não há objetivos em Minecraft ou enredo. Há algo assim, introduzido mais recentemente no jogo, envolvendo dimensões paralelas e novos monstros. Parece que há até um texto do próprio Notch no fim do jogo.

Mas não estamos nem aí para isso.

Temos nossas próprias lendas, momentos de alegria e tensão alternados em um mundo que forjamos na medida em que descobrimos: um trio de cachorros perdidos em uma explosão retumbante; uma corrida desenfreada para recuperar equipamento antes que ele desapareça; uma batalha insana envolvendo um Golem, dois cachorros e um exército aparentemente interminável de esqueletos; um encontro de arrepiar a espinha com uma criatura que se teleporta em uma mina escura; uma expedição de caça que durou três noites de peito aberto contra as bestas da noite; o espanto solene de descobrir um sinal de que não somos os primeiros ocupantes deste mundo; o esforço hercúleo de empurrar uma ovelha até o curral (antes de saber que existem formas infinitamente mais fáceis de fazer isso); uma travessia cega do oceano, sem saber se teria fim; a escalada até as nuvens de uma montanha de rocha.

Minecraft - My Screenshot 13

O imprevisível pode virar até mesmo as situações mais garantidas. Ou a ousadia pode cobrar um alto preço. Com desafios auto-impostos vem problemas auto-impostos e narrativas pessoais que não podem ser replicadas. Há um Minecraft diferente esperando cada um daqueles 11 mil compradores das últimas 24 horas. É a tal da narrativa emergente.

Fallout 3 conseguiu contar a história que seus criadores queriam mesmo oferecendo algumas ferramentas de liberdade para o jogador, escondida embaixo de quilômetros e quilômetros de área explorável. Outras ferramentas mais complexas foram criadas por modders para injetar criatividade à fórmula e permitir a engenharia fina do espaço virtual. Com Minecraft e seu sandbox de proporções titânicas, estamos no limiar de um título que pode ser tudo aquilo que comentei antes, o RPG perfeito.

Falta encontrar o equilíbrio preciso entre a liberdade e capacidade de traçar seu próprio caminho com uma história de fundo coesa, um título que possa ser resolvido não apenas com balas e espadas mágicas, mas também com construções, engenhos, alianças. Onde sidequests oficiais possam ser combinadas com metas pessoais. Onde possibilidades entrem na frente de gráficos de ponta. Onde a evolução não seja medida apenas pela quantidade de inimigos que você matou mas também pelo legado que você ergueu.

Minecraft - My Screenshot 19

Os blocos estão na mesa. Falta a mão de um gênio para construir esse novo mundo.

Ouvindo: Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows - Holding Out For A Hero
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7 comentários:

Shadow Geisel disse...

não querendo jogar areia em cima da sua empolgação não, Aquino, mas pelo problemas de mecânica que vc citou no (ótimo) texto, dificilmente MC pode sequer ser citado na mesma frase que carrega a sentença RPG perfeito. acho que esse jogo é uma grande vítima de Ad Graphicum (ataque aos visuais em vez de a argumentos rsrsrs). eu joguei a demo no PS3 e não me senti muito atraído não. a falta de objetivo me afasta desse tipo de jogo que joga nas mãos do espectador a responsabilidade de contar boas aventuras.

C. Aquino disse...

Como Minecraft está agora, ele é quase uma linguagem, um framework, uma plataforma para se produzir infinitas coisas. Incluindo aí o RPG perfeito. Falta agora alguém pegar essa linguagem e escrever uma obra prima.

Marcos A. S. Almeida disse...

Se existe um jogo que pode definir a palavra sandbox , acho que é Minecraft.Entrei nesse mundo sem realmente entrar nele - sim, é meio difícil compreender, mas quem tiver um filho menor que jogou MUITO ele , vai entender.Esse jogo é sobre construir coisas.Descobrir coisas.Experimentar coisas.E dado o número de pessoas jogando e criando , ainda há muito á se descobrir e experimentar.É uma experiência muito boa e certamente viciante.Como joguei por um bom tempo Terraria - outro ótimo sandbox - e eles são parecidos em muitos aspectos, decidi não experimentá-lo, sem arrependimentos.Até porque, na verdade, experimentei, não é mesmo?

Anderson disse...

Recomendo testar o mod AdventureCraft q serve basicamente pra criar e usar mods de terceiros.
Com ele da pra incluir aventuras com enredo e alterar as mecânicas do jogo.

Quem sabe entre os milhares de mods pro AdventureCraft vc n acha algo próximo do rpg perfeito.

Vilas Boas disse...

Podem torcer o nariz pro que penso sobre Minecraft, mas não tenho saco para simulador nenhum, tampouco simulador de LEGO!

Para mim, MC não é um jogo, já... que não tem um propósito! ficar vagando ao infinito e além?

Não Obrigado!!

Marcos A. S. Almeida disse...

Calma Vilas Boas , fique tranquilo: o seu conceito de jogo está á salvo em Minecraft.Dentre muitos mundos gerados nele , há aqueles típicos de mata-mata como CS , CoD ou BF ,só que com arco e flecha.Mata-mata infinito e além.

Marcel C. Da Silva disse...

De fato, nunca me senti atraído por jogar minecraft, mas adorei Terraria (que praticamente "zerei" no patch 1.2 quando passei duas semanas na casa da minha sogra) e atualmente tenho jogado Starbound quando não tenho conexão com a internet.

Esse estilo é muito interessante pq VOCÊ traça as metas, e que estímulo maior você tem pra jogar quando a meta do jogo é pessoal? Por isso que 50h passam como se fossem 50min.

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