Retina Desgastada
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18 de janeiro de 2011

Jogando: Risen (conclusão)

Permita-me narrar dois pequenos eventos da minha longa passagem pela ilha de Faranga.

Risen - Capa Altas horas da noite, estava eu jogando Risen no meu computador, com minha esposa ao lado em seu laptop, completamente envolvido pelos horrendos sons de um templo subterrâneo. Era o primeiro templo que eu explorava a fundo, imerso nas luzes das tochas, nas sombras projetadas nas paredes, nos estranhos gemidos vindos das paredes e no profundo rosnado que parecia vir da próxima esquina. Armadilhas, Esqueletos Guerreiros, Ghouls e outras ameaças em uma área que já havia vitimado outros exploradores minutos antes de meu herói aparecer. Durante minha exploração, encontrei as ruínas de uma cidade muito antiga, com casas, camas e armários de uma civilização perdida. De uma janela, eu avistei um inimigo jamais visto, que aparentemente era capaz de manifestar bolas de fogo. Em Risen, qualquer inimigo jamais visto costuma ser uma sentença de morte. Aproveitando a distância, eu mirei minha besta na silhueta distante e disparei. A barra de energia da criatura diminuiu ligeiramente. Eu estava certo. Seria um adversário poderoso. O ser olhou ao redor, mas não conseguiu me localizar, longe, protegido atrás de uma janela. Disparei outra seta. E outra. E outra. Dez ou mais setas depois, ele caiu. Ao meu redor os sons não pararam um único instante. Sondei a região de minha posição privilegiada e localizei outro Esqueleto Guerreiro. Disparei uma seta e o morto-vivo saiu correndo, tentando descobrir a origem do ataque. Continuei analisando a vasta caverna que se estendia diante de mim. Encontrei outro Esqueleto e este eu derrubei. Mas havia sombras demais, outras casas, outras janelas, outros recantos onde inomináveis monstros poderiam estar me esperando. Meu coração batia acelerado diante da inevitável necessidade de explorar o ambiente. Eu não queria largar minha janela, meu refúgio. Nesse momento, a segurança se quebrou e meu personagem foi atingido por um violento golpe nas costas. Eu gritei. De verdade. Minha esposa pulou do meu lado e me olhou com uma cara esquisita. Mas o primeiro esqueleto que eu tinha acertado estava bem ali: a maldita inteligência artificial tinha conseguido navegar pelo ambiente e não desistira até me atacar.

Em outra ocasião, à frente de um exército de Inquisidores invadindo a última fortaleza do inimigo, eu recebi a ingrata tarefa de me infiltrar e abrir os portões. Do lado de dentro, uma tropa de poderosos Saurians guerreiros que poderiam me transformar em picadinho. Do lado de fora, uma poderosa força-tarefa de soldados e templários que poderia me ajudar. Meu procedimento, na maioria dos casos, é entrar, eliminar tudo que houver no caminho e executar a missão. Não desta vez. A quantidade de inimigos era muito superior ao que eu poderia dar conta. Usando a perícia Sneak, eu me esgueirei para analisar a situação. Dois Saurians aqui, três logo ali, mais dois acolá, o lugar estava fervilhando de oponentes. Para evitar o conflito, eu subi uma escada. Lá em cima, mais monstros. Sem ter para onde ir, segui em frente. E vi a alavanca que abriria os portões. Protegido por um dos maiores Saurians já vistos. Joguei a discrição para cima e corri em direção à alavanca. O Saurian avançou em direção. Lutei, movido pelo desespero, pesando cada golpe com precisão. O som da luta atraiu outros inimigos. O tempo que separava minha vitória de um massacre total estava se encurtando. Derrubei o guardião com um golpe decisivo e, com outros Saurians logo atrás de mim, corri até a alavanca e abri os portões. Meus aliados entraram com força total na fortaleza e eu corri para me juntar a eles, com um rastro de monstros no meu encalço. A missão tinha sido cumprida.

Isto é Risen.

Risen - My Screenshot 21

Todo jogo é composto de pequenas histórias como estas que se interligam e formam um todo, uma aventura que você pode olhar para trás e pensar: "eu participei". Grandes jogos tem muitos destes momentos e títulos medíocres não possuem um único instante assim. Apesar da terrível derrapada em seus minutos finais, Risen é um título que redime a Piranha Bytes dos erros cometidos em Gothic 3 e a reaproxima de suas magníficas raízes no primeiro Gothic.

Perca-Se!

Em minha análise inicial eu disse que a desenvolvedora alemã é um cozinheiro de uma receita só. Isso é verdade. Risen, em muitos aspectos, é praticamente um remake do primeiro Gothic: as facções, o mal adormecido, a busca pela arma perfeita capaz de vencer o tal mal, o cinismo e a violência de um mundo à beira da barbárie, o impressionante mundo aberto e as soturnas sequências inteiras em catacumbas, tudo isso veio de Gothic. Não é novidade, mas é um velho amigo que não se via há muito tempo e que agora retorna para uma temporada na cidade.

Risen - My Screenshot 30 Risen - My Screenshot 31Risen - My Screenshot 34

Faranga é bem menor em escopo que Gothic 3 e isso é uma qualidade. Com uma área menor para preencher, a Piranha Bytes conseguiu apresentar um fascinante microverso aberto, com detalhes escondidos em cada canto. Para um Explorador como eu, é um convite à perdição. Some a isto um carismático grupo de NPCs (ainda que alguns modelos se repitam demais), um som ambiental que te arrasta esperneando caverna adentro, batalhas que exigem doses iguais de reflexo e análise tática e temos um título que poderia ter entrado na minha lista de favoritos. Se não fosse o final.

Aos iniciantes no trabalho da empresa, eu recomendo paciência e cautela. A curva de aprendizado é longa e, no começo, você será presa fácil de quase qualquer perigo. Astúcia será sua principal arma. E, ainda que no fim você possa ter se tornado um tanque ambulante, haverá até o último instante inimigos capazes de trucidar seu personagem se você não se focar nas lutas. Esqueça a festa de cliques alucinados de Gothic 3. Permaneça na defensiva e aguarde o momento em que o oponente está de guarda baixa. Siga seus instintos. E, só então, clique. Veja mais algumas dicas no "Guia de Turismo da Ilha de Faranga".

Risen - My Screenshot 32 Risen - My Screenshot 23

Infelizmente, a trilha sonora não é das mais marcantes. Depois do excelente trabalho executado no espúrio Gothic 3, temos aqui músicas que não tem presença e que não são memoráveis. Por outro lado, talvez a Piranha Bytes tenha criado seu título com os melhores efeitos sonoros até agora, o que ajuda na imersão. O trabalho de voz dos personagens também está impecável, principalmente o leve toque de sarcasmo em algumas das falas do protagonista.

A história de Risen poderia ser melhor apresentada. No início, há a clara falta de uma bússola para o protagonista: não há objetivo algum, exceto "se vire". Se isto server para aumentar a sensação de liberdade, também serve para aumentar a preguiça e a vontade de encontrar uma casa abandonada qualquer e tentar criar porcos. Qual é a motivação inicial do personagem em se juntar a qualquer uma das facções? Por que não ficar quieto em um canto, livre de problemas, então? Mais adiante, após horas de jogo, você é finalmente apresentado à ameaça que paira sobre Faranga e a raça humana e tudo que você supunha antes perde parte do sentido diante da gravidade do problema. Porém, mesmo após a conclusão da trama, algumas perguntas sem resposta continuam pairando em minha cabeça. A falta de um epílogo decente também compromete, fica-se a impressão que os desenvolvedores descartaram todos os NPCs no final, como se o jogador não tivesse criado empatia com eles.

Eu também afirmei antes que não havia bugs em Risen. O que não é verdade. Eles existem: um personagem entrando na parede aqui, uma levitação que acaba mal ali, mas não há nada que prejudique a jogabilidade ou derrube o jogo de voltar para o Windows. Risen também é muito pouco exigente em termos de requisitos técnicos, rodando com força total em meu equipamento de dois anos atrás. Diferente de Gothic 3, um sugador de recursos até os dias de hoje.

Em Risen, a Piranha Bytes prova que a velha receita continua valendo, mesmo que amargue no final. Que venha Risen 2.

Risen - Sunset

Pontos positivos de Risen: ambientação imersiva, combates sólidos, gráficos impressionantes e NPCs carismáticos. Pontos negativos de Risen: trilha sonora pouco expressiva e um dos piores finais já produzidos. Nota final: 9,0.

(avalanche de postagens: 1/14)

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Um comentário:

José Guilherme Wasner Machado disse...

Excelente resenha, Aquino! Confesso que após alguns previews eu não estava dando nada por Risen, mas após o seu relato, bateu uma grande vontade de experimentar o título!

Abraços!

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