Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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13 de janeiro de 2020

(não) Jogando: Elite Dangerous

Elite Dangerous 01

Espaço. A fronteira final. Desde garoto, a imensidão do Cosmos sempre exerceu um profundo fascínio por mim. A possibilidade de desbravar tais horizontes é algo que até agora jogo algum conseguiu capturar. O mais próximo, sem sombra de dúvida, é Elite Dangerous.

Através do triunfo final de David Braben, descobri uma verdade inconfessável sobre o espaço: ele é chato.

Ganhei o jogo de presente de Natal do camarada @magaiverpr, meu fornecedor não-oficial de produtos viciantes. Sem ele, Minecraft não teria entrado em minha vida, tampouco os MMOs. E, por pouco, não fui puxado pelo buraco negro que Elite Dangerous armou em meu redor, me libertando de sua força gravitacional somente após nove horas de "exploração", salvo no último minuto por um aparente infortúnio.

Elite Dangerous apresenta para o jogador o que provavelmente é o maior mapa já feito para um jogo eletrônico, possivelmente tão vasta quanto o do próprio universo. São miríades de estrelas e sistemas planetários que podem ser alcançados desde que você tenha largas doses de paciência e doses ainda maiores de combustível. São notórias as histórias de pilotos imprudentes que se viram perdidos no espaço profundo sem meios de retornar ao universo mapeado. É grande a esse ponto, encontrando rival talvez somente na ambição desmedida de No Man's Sky.

Com um cenário de proporções literalmente cósmicas, emergem dois problemas. O primeiro deles é que não há muito o que se oferecer em termos de conteúdo. Seria humanamente impossível preencher esse mapa com grandes paisagens, locações únicas e cenários exóticos. O que eu vi talvez não corresponda a 0,1% do universo disponível, mas, ou eu esbarrei no mais insosso recorte de todo o jogo, ou estatisticamente não há muito a se apresentar mesmo.

Elite Dangerous 03

Elite Dangerous 04

O que temos aqui, então, poderia muito bem ser um roguelike, com cenários gerados proceduralmente, onde mudam a cor da estrela, a cor dos planetas, as missões disponíveis nas estações e outras variáveis. Tudo isso acentuado pelas longas distâncias de voo entre um ponto e outro, que, na minha experiência, poderiam variar entre um e quinze minutos contemplando as estrelas passando em hipervelocidade. Com a assistência de voo ligada, eu poderia tranquilamente fazer um sanduíche enquanto o "protetor de tela" executava. Dada a imensidão verdadeira do vácuo sideral, o realismo em Elite Dangerous é o horizonte.

O segundo problema desse sandbox colossal é lançar nas costas do jogador a responsabilidade de decidir o que fazer. Esse é o calcanhar de Aquiles de jogos de sobrevivência e algo que eu venho apontando (e contornando) desde Minecraft: se o jogador não trouxer para o universo uma meta pessoal clara, ele irá se cansar rápido. Uma história mínima, um lore escondido que fosse, que funcionasse como um fio condutor, ajudaria muito Elite Dangerous. No Man's Sky apresenta isso, Conan Exiles apresenta isso e são dois jogos que crescem um pouco por conta desse apreço por um contexto maior. Até mesmo Rig N' Roll se favorece ao trazer uma trama, por mais frágil que fosse. Por outro lado, aquele grande sucesso da Mojang e Citadel: Forged With Fire são dois títulos que soltam o jogador no vazio, sem rumo, mas acabaram me agradando.

Para muitos, Elite Dangerous oferece a liberdade absoluta e, de fato, não há limite para o que você pode ser ali dentro: minerador, comerciante, caçador de recompensas, pirata, profissional de resgate, transportador de turistas, desbravador, mercenário.

As Tolas Desventuras do Comandante Retina Desgastada

Já no tutorial, descobri que piloto de combate não seria o meu caminho. Só não fui destruído pelo drone de treinamento porque o laser dele era muito fraco. Minha segunda situação de confronto no jogo me confirmou isso e o NPC não me transformou em escombros espaciais porque a polícia apareceu.

Elite Dangerous 05

Passei a realizar missões de entregas de dados entre estações, um dinheiro fácil, honesto e que não exige módulos adicionais para a nave. Basta selecionar a missão no menu da estação, realizar a desacoplagem automática, selecionar o destino (ou traçar uma rota) em outro menu, travar a direção, ativar a hipervelocidade, fazer um sanduíche, voltar, fazer ajustes finos para alinhar com a estação, solicitar a docagem automática em outro menu, completar a missão em mais um menu, selecionar outra missão...

Em suma, eu estava navegando entre menus e olhando estrelas passarem. É relaxante. Como eu disse, também é viciante e as horas passam sem que você se dê conta, enquanto a música rola em seus ouvidos como um cobertor quentinho em uma noite de inverno. Existe a possibilidade de desativar todos os procedimentos automáticos e voar por conta própria, o que, em um teclado e mouse, para alguém sem experiência nesse tipo de jogo, é um convite a explodir em uma fulgurante bola de fogo.

Ainda assim, a conta-gotas, estava fazendo meu pé de meia para comprar uma nave melhor embora eu não pudesse atinar exatamente para que eu precisaria de uma nave melhor. Os voos com passageiros pagam fortunas impressionantes e alguns deles querem viajar por lugares interessantes, então estabeleci isso como minha meta final.

A paciência começou a se esvair como um vazamento de combustível no vácuo gélido quando peguei uma missão que pagava o dobro do preço normal para um sistema distante. Experimentei a imensidão em uma dose maior do que tinha me acostumado, no meio da madrugada, louco para dormir. Embora Elite Dangerous seja um jogo em um universo compartilhado, aparentemente sair no meio de uma missão me colocaria em um checkpoint invisível longe do meu destino. Vi as estrelas passando, os minutos se arrastando. Foram quinze longos minutos até o sistema desejado, apenas para errar na reentrada e descobrir que meu destino estava eclipsado por um planeta. Para contornar o planeta, certamente por inépcia minha, gastei outros vinte minutos.

Meus olhos estavam se fechando, mas completei a missão.

Elite Dangerous 06

Apesar dos dissabores de ter consumido 50 minutos de minha vida com frustração e sono, eu estava de volta a Elite Dangerous no dia seguinte, disposto a fazer grana. Eu iria pegar uma missão de resgate que pagaria três vezes o que aquela missão tinha pagado. Eu iria praticamente dobrar minha conta bancária. Tudo que eu precisava fazer era encontrar uma caixa preta no sistema X.

Lendo o que eu escrevi até agora me parece óbvio que era uma ideia furada desde o começo: encontrar uma agulha em um palheiro do tamanho de uma constelação. Por que eu descobri, depois de chegar lá, que era uma constelação. Mais de uma estrela, vários planetas, vários agrupamentos de asteroides e uma nave naufragada em algum lugar dali esperando para me deixar rico, ou, menos pobre.

A essa altura de Elite Dangerous, já estava consumido pelo vício. Abri o jogo enquanto esperava a visita de um casal de amigos, sabendo que rastrear aquele sistema de ponta a ponta daria trabalho. Ao invés de confiar na visão, atualizava o menu de Navegação constantemente, esperando a sorte me favorecer. Cada "Fonte de Sinal Desconhecida" era alinhada com meus sensores e se revelava uma pista falsa. Diante do tamanho de pontos disponíveis, já estava perdendo a esperança. Até que encontrei. Com uma vibrante cor azul e o texto "Ponto da missão" ao lado do sinal "desconhecido".

Mirei a nave na direção correta, liguei o assistente de velocidade, acionei as turbinas e fui. Vi os mostradores de minutos diminuindo. Era uma mera questão de dois minutos para chegar lá. Tudo bem que  navegar sem assistência para me aproximar e obter a caixa-preta seria um problema separado, mas, o pior já estava feito: havia achado a agulha no palheiro sideral.

Faltando um minuto, os amigos chegaram no portão. Minha esposa falou para eu atender. Eu falei que precisava de um minuto. Ela falou para eu atender o portão. Com negrito. As estrelas passavam, o contador diminuía. Fechei o jogo.

Felizmente, a tarde foi prazerosa. Entretanto, no final da noite, lá estava eu em Elite Dangerous, querendo saber se ainda estava próximo da caixa-preta. Não estava. Eu estava de volta ao "começo" do sistema, com todos os pontos de navegação ainda bloqueados ou escondidos.

Elite Dangerous 07

Uma hora e meia de buscas depois, não havia encontrado novamente a "Fonte de Sinal Desconhecida" que levaria a minha quase fortuna e teria selado meu destino nos braços de Elite Dangerous. Era o fim de minha carreira de piloto, a última gota de frustração.

David Braben fez uma obra-prima que captura o universo em sua vastidão, mas também em seu vazio. É uma tentação perigosa que seduziu muitos pilotos por dezenas, centenas de horas. Entretanto, também é um título que exige mais tempo, dedicação e imaginação que tenho ao meu alcance nesse momento. Largo minha modesta Sidewinder nesse vácuo em busca de novas aventuras em paisagens diferentes.

Ouvindo: 13th Moon - Vanished From My Pocket
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Um comentário:

Marcos A.T. Silva disse...

Talvez as coisas tivessem mudado se você tentasse só por mais algum tempo, Carlos. Olha, tem os Thargoids, tem o comércio, que é sempre interessante, principalmente pra grindar em busca de novas, maiores e melhores naves, tem a mineração, tem as wings, tem exploração, com a consequente venda de informações obtidas pra Universal Cartographics etc.

Tem muita coisa pra fazer, principalmente dentro da bolha. Bem, mas essa é a minha opinião, né. Eu adoro o jogo, parei mesmo por falta de tempo. Aliás, sobre lore, sempre nas estações, tem bastante informações sobre procurados, sobre acontecimentos, sobre como vai a vida das três facções do jogo, etc. Bem, mas acho que é questão de gosto. :)

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