Retina Desgastada
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5 de setembro de 2018

No Man’s Sky: Uma Odisseia no Espaço

(originalmente publicado no Gamerview)

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Quando No Man’s Sky foi apresentado para um grande público pela primeira vez, parecia um sonho realizado: um universo inteiro a ser explorado, com fulgurantes batalhas espaciais, animais exóticos a serem descobertos, aventuras a serem compartilhadas. Seria mesmo possível que uma pequena desenvolvedora com uma equipe minúscula tinha criado os algoritmos perfeitos para simular bilhões de planetas distintos? Não se sabe se a Sony acreditou na premissa, mas a produtora gigante investiu seu prestígio e tempo para nos convencer de que era possível e o jogo foi destaque durante uma conferência da E3, sacudindo uma audiência que queria acreditar.

O resto da história vocês já conhecem.

Muitos outros estúdios teriam capitulado diante da avalanche de críticas que No Man’s Sky recebeu em seu lançamento. Não sem razão, em uma indústria repleta de promessas não cumpridas e doces mentiras. Mas a Hello Games continuou lapidando seu título por dois anos seguintes, acrescentando novidades, adicionando funcionalidades que ficaram devendo, se dedicando exclusivamente ao sonho que todos tinham, eles e nós.

Com a grande atualização batizada de Next, a dúvida de todos é: agora vai?

A Fronteira Final

Acordo sem memórias de quem sou, de onde estou e como vim parar aqui. Um frio cortante ameaça me matar, mas o traje resiste por enquanto. Uma fumaça nada animadora escapa do que sobrou de minha espaçonave. Estou sozinho e no início de uma jornada que irá se estender por anos-luz em busca de respostas na vastidão de um Cosmos que não liga para minha presença.

É um começo compartilhado com muitos jogos, a tabula rasa onde os jogadores mais imaginativos irão construir suas narrativas. Exceto que em No Man’s Sky o vazio do espaço é mais vasto, de uma proporção poucas vezes vistas. Somos um mísero ponto de sapiência em um planeta inteiro, habitado por criaturas indiferentes, em uma atmosfera tóxica ou letal de outras formas. Na primeira decolagem da espaçonave finalmente consertada, essa sensação de sermos minúsculos se amplia mais ainda quando saímos da atmosfera e vemos as estrelas pela primeira vez e outros planetas próximos sem tela de carregamento. É aquele momento que você se dá conta que pode ir para qualquer lugar, em qualquer direção, sem fronteiras. E essa percepção volta a se ampliar mais lá na frente quando domamos a viagem no hiperespaço.

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Em muitos pontos, No Man’s Sky é Minecraft no espaço. A mesma sensação sufocante de liberdade, a mesma falta de um propósito claro, o mesmo excesso de ambição gerado a partir de um time mínimo de desenvolvedores, a mesma complexidade mecânica que não pega na sua mão nem te ensina o que fazer com tudo que tem a oferecer. Consequentemente, a odisseia da Hello Games também não é recomendada para qualquer um. Se você espera um jogo de gerenciamento de recursos, uma aventura entre as estrelas, um simulador de combate de naves ou mesmo um FPS de sobrevivência, certamente irá sair decepcionado, porque No Man’s Sky se perde em todos essas pretensões, não executando com propriedade nenhuma delas.

No Man’s Sky é Minecraft no espaço, no sentido que convida o jogador a se perder, se deixar levar por suas paisagens, aceitar que tudo é possível (embora complicado) e que essa é sua caixa de areia.

Exobiologia para Dummies

No Man’s Sky oferece algumas rotas narrativas que você pode tomar, nem todas elas disponíveis no lançamento, mas agora há um ou outro fio condutor para o jogador não se sentir tão perdido nesse universo. Existem alguns mistérios bem escondidos no jogo que levantam questões profundas dignas de uma ficção-científica de qualidade, mas também é possível simplesmente se ater a construir a melhor base que sua perseverança e sua criatividade permitirem, caçar piratas espaciais, tornar-se o rei do comércio ou vagar de planeta em planeta como um nômade até se cansar.

Além de seguir um desses mistérios, escolhi também procurar animais.

Uma das primeiras coisas que meu filho e eu fizemos em Minecraft foi montar um zoológico, com a ajuda de mods que acrescentavam novos animais e um ferramenta de captura (uma Pokébola, por que mods são assim mesmo). Ele é fascinado por animais e isso nos dava um propósito no jogo da Mojang. Não iria deixá-lo excluído de minhas andanças por No Man’s Sky e seria uma ótima oportunidade de testar outra de suas alardeadas funcionalidades: um gerador praticamente infinito de espécies.

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Como um Spore enlouquecido rodando por Inteligência Artificial, cada planeta possui sua própria fauna e sua própria flora, criados randomicamente pela mão invisível de um design inteligente. Identificar e até nomear essas criaturas e plantas é uma das possibilidade que a Hello Games incentiva, recompensando seus exploradores com créditos. Na teoria, é possível esbarrar em uma criatura que já tenha sido identificada por outro jogador e ver exibido o nome que ele deu. Na prática, há sérias dúvidas se isso é possível, até mesmo pelo tamanho da galáxia que estamos falando aqui. Ainda assim, na falta de meios para construir meu zoológico, brinco de exobiólogo e adiciono a um cadastro universal seres como o Calango das Neves, o Tatu Pulguento ou o Saco Florido. Capturo alguns deles em fotos na ferramenta nativa e me divirto.

Grinding nas Estrelas

Com raízes fincadas nos jogos de sobrevivência, o que poderia ser um jogo de encantamentos e descobertas sofre com a repetitividade excessiva. Para fazer isso ou aquilo funcionar, você precisa extrair toneladas de determinado minério. Para extrair toneladas daquele minério, você precisa abastecer sua ferramenta com quilos de rocha. Para extrair a rocha, você precisa alimentar seu extrator com diversas árvores. Elementos exóticos disponíveis apenas em determinados planetas aumentam a complexidade com viagens desnecessárias. Quando me dou conta, gastei várias horas para desbloquear uma tecnologia que nem sei se terá alguma aplicação prática no futuro imediato.

A navegação pelos menus é tão árida quanto a geografia dos planetas. Com um teclado inteiro à minha disposição, me espanta que a Hello Games não tenha desenvolvido um botão específico para tirar fotos ou convocar sua nave. O sistema piora na construção de bases, quanto temos que escolher menus, submenus, sub-submenus para implementar o menor dos objetos. Uma simples seção de acesso rápido facilitaria muito em um jogo onde para levantar um simples cômodo de quatro paredes, piso e teto você precisa derrubar diversas árvores antes.

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A ilusão de ser um explorador se encerra logo ali no horizonte diante da falta de destaques na paisagem. Como em Star Wars, cada planeta é um bioma único. Se você pousa em uma região gelada, pode apostar que o planeta inteiro é idêntico, sem variações, sem montanhas excepcionais, sem rios, sem lagoas, sem acidentes geográficos. Aquele sueco louco trabalhando com Java tinha uma visão mais clara de ecossistemas que um time inteiro e Minecraft possuía interessantes variações, discerníveis em alguns minutos de caminhada e o jogador se sentia estimulado a explorar seus limites. Em No Man’s Sky, se o jogador quer ver novidades, é melhor pegar a nave e ir para outro planeta, talvez outro sistema solar, uma viagem que depende também de grinding de elementos pelo caminho.

A falta de espaço no inventário é outro obstáculo para o mais intrépido explorador, obrigando múltiplas viagens até o ponto de comércio mais próximo. Para um rato coletor como eu, que não pode ver nada pelo caminho que já minera ou coleta, é um freio involuntário.

E agora?

Então, No Man’s Sky não é aquilo que a gente sonhou. Não era no lançamento e continua não sendo. Next acrescenta mudanças mais do que bem vindas. Entretanto, expectativas são um monstro difícil de domar e talvez a tecnologia para entregar o cosmos em nossas telas nunca esteja pronta.

Se No Man’s Sky não é o que deveria ser, ele é, pelo menos, um bom jogo? Certamente. Com todas as suas falhas? Certamente. Com as promessas não cumpridas e a polêmica? Certamente. Para todos? Não, definitivamente não.

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Ele exige demais, não somente da máquina, como também do jogador. Ele exige paciência para suportar suas mecânicas, seu tempo de carregamento inicial, seus longos teleportes ou viagens pelo hiperespaço. Mas também exige imaginação, aquela vontade de olhar para as estrelas e querer descobrir o que tem lá, exige disposição para empreender a viagem e, principalmente, esperança de que há algo de bom escondido em algum canto dessa vastidão, dessa vasta, vasta, vastidão.

Post-Scriptum: Dois dias depois de entregar esse artigo, dei minha busca por encerrada finalmente. Não sabia, mas apenas a justificativa do texto continuava me segurando em No Man's Sky. Entregue o texto, o peso do vazio se fez presente. A lenta progressão da campanha que prometia revelar seus mistérios e a perspectiva de grindings cada vez mais constantes assombravam minha mente. Com o coração árido como suas paisagens, despedi-me de minhas naves, minhas bases, minhas descobertas, para novas aventuras, em outros universos.

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2 comentários:

Shadow Geisel disse...

"...sem variações, sem montanhas excepcionais, sem rios, sem lagoas, sem acidentes geográficos."

Nesse ponto eu discordo: já no lançamento, dois anos do Next, eu pelo menos me deparei com cavernas, gargantas em montanhas e vários terrenos acidentados, então talvez essa carência de variedade nas topografias tenha sido particular da sua experiência. Sobre o Next em si, acho que os que conheceram o game agora se deram bem. Depois de passar mais de 80 horas vagando por planetas, mesmo com o Next eu não sinto mais vontade de me dedicar ao jogo (talvez pela repetição e incongruência de recompensas que você bem citou.

C. Aquino disse...

Eu sempre ficava com a pulga atrás da orelha: o jogo só tem isso ou os algoritmos me trollaram? Cavernas eu até achei, algumas grandes, outras nem tanto. Mas gargantas em montanhas? Nenhuma. Nem montanhas que mereçam o nome de montanhas, para ser sincero. Quem sabe eu volto um dia, sem propósito ou campanha, apenas um andarilho saltando entre as estrelas...

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