Jogando: Phoning Home

phoning-home-01

Jogos de sobrevivência desenvolvidos com poucos recursos, mas muita paixão, já me surpreenderam positivamente mais de uma vez. Nesse aspecto, eu poderia citar Arid, Near Death ou Starsand. O próprio Minecraft, bastião do gênero, começou como o projeto de uma pessoa só. A essa lista, eu gostaria de acrescentar o simpático Phoning Home.

Outra característica que une todos esses títulos (até mesmo o aparentemente aberto Minecraft, da sua maneira) é que todos tem uma linha narrativa. Existem objetivos a serem cumpridas, etapas a serem seguidas e, consequentemente, uma conclusão. Ter uma história não é ingrediente fundamental para um título do gênero funcionar e muitos se bastam em sua brincadeira de caixa de areia. Entretanto, quando um arco dramático está presente e a jogabilidade oferece um Norte, o jogo fica mais rico aos meus olhos.

Nesse sentido, Phoning Home tem história, personagens, carisma e até mesmo uma decisão ética em sua conclusão. O jogo nos apresenta com uma abertura que já foi usada e abusada em diversas mídias: somos náufragos e precisamos enviar um sinal para casa, para sermos resgatados. É o "phoning home" que dá título ao jogo. Entretanto, o diferencial é que pertencemos a uma civilização cibernética. Nossos ancestrais abriram mão de seus corpos biológicos e transplantaram sua consciência para máquinas. Entretanto, essa transição aconteceu em eras muito antigas e as memórias desse passado estão perdidas no terreno das lendas. A dicotomia entre entidades de matéria orgânica e entidades de metal está no coração da experiência de Phoning Home.

phoning-home-12

phoning-home-17

Em sua superfície, o jogo busca inspiração na estética de Wall-E. Controlamos um robô bravo e resistente, mas mudo e, aparentemente obsoleto. Seu nome é ION. Ao naufragar em um planeta desconhecido, ele precisa encontrar recursos para realizar consertos e se manter ativo, ao mesmo tempo que busca um caminho para salvar a si mesmo e a IA que controla sua nave avariada. Nessa jornada, ION encontra outra nave naufragada nas mesmas condições e a unidade robótica ANI, falante, muito falante. ANI será a companheira de ION para explorar esse mundo hostil, ora funcionando como uma parceira que precisa ser protegida das intempéries, ora atuando como guardiã armada da aventura. Qualquer semelhança com os personagens de Wall-E não vai muito além dessa superfície.

A partir da dinâmica entre os dois irão nascer os maiores desafios do jogo. O aspecto survival de Phoning Home não está presente na construção de estruturas, mas no gerenciamento de itens de primeira necessidade para os dois robôs, como equipamentos, componentes, baterias, reservas de combustível e outros artefatos que podem ser sintetizados a partir de recursos encontrados no próprio planeta. Nesse aspecto, Phoning Home não é nem fácil demais, nem difícil demais. Haverá momentos de escassez e economia, mas também haverá momentos de abundância e administrar os altos e baixos é uma parte significativa da experiência.

phoning-home-05

Phoning Home se torna um desafio de verdade na parte de explorar o planeta. As regiões são verdadeiramente colossais e navegar entre elas irá exigir paciência e um senso inato de localização, uma vez que o jogo não traz um mapa. As distâncias exageradas e relativamente vazias funcionam para destacar tanto a solidão de seus protagonistas como a sensação de abandono em um espaço para o qual você não pertence. Não chega a ser uma experiência extrema como Starsand, mas cruzar esses horizontes exige esforço físico e mental. A primeira impressão engana: os protagonistas podem ser fofos, mas sua odisseia é desgastante.

O amadorismo do estúdio transparece em arestas que seriam polidas no trabalho de estúdios mais experientes. Em Phoning Home, é perfeitamente possível colocar a si mesmo em uma situação impossível de vencer, o que exige recuperar um save antigo. Determinadas habilidades podem ser abusadas e muitas vezes a solução que encontrei parecia algo que eu tinha improvisado, não algo que os desenvolvedores tinham planejado como o caminho "correto". Em contrapartida, em outras partes cometi erros terríveis provocados por minha própria burrice, inclusive me desorientar após um teleporte e seguir na direção oposta.

phoning-home-14

phoning-home-15

A personagem ANI talvez seja falastrona, um contraponto para o clichê do protagonista mudo. Entretanto, cabe a ela reproduzir os questionamentos que o jogo almeja. Qual é o valor da vida? Teremos tomado a decisão certa ao abandonar nossos corpos orgânicos? Que direito temos para decidir sobre o destino de outros seres vivos?

Assim como o planeta que lhe serve de cenário, Phoning Home esconde muito mais do que aparenta e acaba entregando uma jornada surpreendente.

Ouvindo: Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath

Postar um comentário

0 Comentários