Retina Desgastada
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14 de fevereiro de 2022

Jogando: Arid

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Jogos de sobrevivência existem às dúzias. Houve uma época em que praticamente lançava um novo título por semana no Steam, disputando o pódio de obras consagradas no gênero, tentando ser o novo Ark, o novo Rust, o novo 7 Days to Die ou simplesmente o novo Minecraft. Muitos estúdios aventureiros se arriscaram nessas águas e, fazendo um trocadilho, simplesmente não sobreviveram.

É uma grata surpresa encontrar em Arid não apenas um título bastante sólido como um título gratuito desenvolvido por estudantes capaz de superar por uma boa margem diversos jogos comerciais que experimentei nos últimos anos. Arid é fruto dos alunos da Universidade Bredas de Ciências Aplicadas, na Holanda, e mereceu prêmios de trabalho estudantil em festivais internacionais. É difícil de acreditar que uma equipe de entusiastas em seu primeiro projeto tenha entregado uma experiência tão instigante e livre de defeitos quanto esse jogo.

Arid já se destaca em sua proposta: explorar as fronteiras extremas do Deserto do Atacama, no Chile, considerado o deserto mais seco e mais elevado do mundo. Nessa jornada intimista controlamos Tiger, uma jovem pilota de avião de carga que é atingida por uma tempestade de areia súbita e faz um pouso forçado na região, durante os anos 30. Sem tecnologia, sem contato com outros seres humanos, ela precisará sobreviver até encontrar uma forma de ser resgatada, lutando constantemente contra a sede, a fome, o calor implacável, o cansaço e um assustador enigma que habita as profundezas escaldantes. Arid consegue assim atingir o equilíbrio perfeito entre uma aventura com pés firmes no realismo e uma pitada de fantástico e folclórico.

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Curiosamente, estava à caminho de uma decepção. Minha expectativa com Arid era um título de sobrevivência convencional em que eu ergueria uma base e paulatinamente conquistaria os desafios até atingir uma posição de conforto, construindo meu pequeno império no Deserto do Atacama. Entretanto, Arid utiliza as mecânicas dos jogos de sobrevivência para contar uma história que segue um roteiro bastante direcionado. Á exemplo do também surpreendente Breathedge, aqui o jogo nos contempla com uma meta e nos solta no mundo. Cabe a nós reunir os recursos, explorar o vasto mapa e encontrar ou fabricar o que for necessário para cumprir aquele objetivo e avançar a história.

E como é grande o mapa! É um colosso repleto de caminhos, esconderijos, pequenas histórias de dor e sofrimento, recursos raros e mais pura satisfação de simplesmente caminhar por ali (ainda que o Sol cozinhe nossos miolos).

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Essa urgência nos empurrando para frente faz com que Tiger descubra ruínas na região e as pistas de um passado sinistro. Não somos os primeiros humanos a pisarem nessa região inóspita do planeta. Entretanto, o destino foi brutal com aqueles que vieram antes.

Da mesma forma que Breathedge, não há espaço para conforto ou impérios em Arid. Ao longo de suas dez horas de jogabilidade, não houve um único momento em que eu não estivesse lutando contra o limite de meus recursos, em que eu não estivesse preocupado em como iria obter a próxima água, ou o próximo abrigo para descansar ou o próximo refúgio para me esconder dos predadores da noite. Na verdade, talvez alimentação tenha sido o único elemento que não me deu dor de cabeça. Considerando que jogo como um rato coletor, fiquei impressionado em como Arid leva a sério a questão da sobrevivência, sem, no entanto, ser tão sádico como um Green Hell da vida.

Visualmente, o jogo igualmente surpreende, apresentando gráficos que funcionam como um colírio para os olhos, a poesia do vazio, da areia, das rochas calcinadas e dos restos mortais da civilização, sem exigir demais de minha configuração modesta. Belo, otimizado, livre de bugs e gratuito. Parafraseando alguém na comunidade do jogo no Steam, Arid precisava de um DLC pago, alguma forma para que os jogadores enviassem dinheiro para seus criadores. Aparentemente, o projeto foi todo financiado pela universidade e, provavelmente, não poderia ser comercial.

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Passei sufoco, contemplei paisagens belíssimas (mas cruéis), suei e sofri com Tiger. Arid foi um daqueles raros títulos que te avisa que o final está a um clique de distância e você hesita. Eu quero mesmo me despedir dessa experiência? Em nome da imersão, disse adeus ao Atacama e fui abençoado por uma linda música nos créditos.

Ouvindo: Morrissey - Sister. I'm A Poet

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