Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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7 de maio de 2014

A Casa Caiu

Towns"Apressado come cru", já dizia a minha avó e eu já repeti por aqui. Pergunte também a qualquer pessoa sensata e ela lhe dirá que não é uma boa ideia comprar um apartamento na planta.

Ainda assim, o Steam Early Access está aí e vende promessas: carros sem rodas, casas sem paredes e pizza sem queijo. Algumas vezes com um pequeno desconto pelo "privilégio" de ser um dos primeiros a acreditar na conversa e no sorriso do desenvolvedor, ou em um vídeo-conceito bem editado.

Se nem todo o projeto pode ser julgado por suas maçãs podres, ainda assim não devemos nos omitir de apontar que há algo errado no cesto das frutas...

Cidade-Fantasma

Towns é mais antigo que o próprio sistema de Early Access. Na verdade, ele inaugurou o Greenlight do Steam, sendo um dos jogos que fizeram parte da primeira grande leva de dez títulos aprovados, no final de 2012. De lá para cá, vendeu mais de 200 mil cópias e faturou cerca de 2 milhões de dólares.

Uma história de sucesso?

Não, porque Towns nunca foi terminado em todo esse tempo. Uma vez criado o selo Early Access, ali entrou para nunca mais sair. E tudo indica que este dia não chegará mesmo.

 

Towns

"Um ano depois e sua casa ainda ainda não tem um teto?" "É Early Access"

O desenvolvedor anterior, Xavi Canal, jogou a toalha no início do ano, alegando que não estava mais aguentando a pressão. Entra em cena Florian Frankenberger, que se torna o novo líder do projeto. Ele admitiu publicamente que seu time não irá concluir Towns. O motivo? O jogo "não vendeu bem". Ver correção no final do texto...

Frankenberger planeja lançar uma continuação de Towns, com todas as funcionalidades que foram prometidas anteriormente e não cumpridas. Na prática, quem apostou no jogo antes, vai ter que comprar Towns 2 se quiser receber pelo que já pagou.

E a Valve, como fica nessa história? Você já leu a Política de Uso da loja virtual para produtos inacabados? Ninguém leu. O Gamasutra entrou em contato com a empresa para saber qual é o procedimento nesses casos, mas ainda não recebeu resposta. Enquanto isso, a Valve segue vendendo Towns no Steam...

Propaganda Enganosa

Então, o Steam não tem nenhum critério e quer mais é pegar a parte dele e guardar no banco? Ou, igualmente ruim, não tem ninguém tomando conta da loja? Com a enxurrada de títulos semanais, muitos de qualidade duvidosa, é possível imaginar que uma das hipóteses esteja correta.

Talvez confiando na cumplicidade do Steam, o pessoal do Earth: Year 2066 colocou sua promessa no Early Access no mês passado. O jogo supostamente seria um "FPS de ficção-científica pós-apocalíptico de mundo aberto", como se um aglomerado de buzzwords fosse um bom substituto para um projeto de verdade.

(e veio pelo Greenlight, a laureada porta de entrada para novos talentos e ideias geniais que não conseguiriam entrar no mercado tradicional de outra forma. Mas divago.)

Earth 2066

Aqueles que pegaram seu suado dinheiro e escolheram gastá-lo com Earth: Year 2066 e não com algo sólido, bom e barato, como Killing Floor, por exemplo, tiveram uma surpresa desagradável: acordaram numa banheira de gelo com a carteira vazia e um jogo inacabado nas mãos.

Mas muito inacabado mesmo. Tanto que as reclamações viraram uma longa discussão no Reddit. O desenvolvedor foi acusado, entre outras coisas, de usar artes roubadas para fazer o jogo e de apagar comentários negativos no fórum oficial.

Desta vez, a chiadeira chegou nos ouvidos da Valve e a empresa não apenas removeu o "jogo" da loja como também garantiu um estorno para quem solicitar a devolução do dinheiro.

Tiro no Escuro

Com 185 títulos em Early Access, em diferentes estágios de desenvolvimento, o sistema não dá sinais de que vá ser abandonado. Muito pelo contrário: mais projetos chegam a cada dia. Em seus primeiros meses, o Greenlight aprovava 10, 20 jogos em cada leva. Recentemente, a média subiu para 70, 80 títulos aprovados.

Sem garantias do desenvolvedor, sem uma política clara do lojista, o consumidor fica à mercê de vendedores de sonhos. Alguns deles podem até mesmo entregar o que foi combinado, mas não tenho fé que esta seja a norma.

Infelizmente, mais casos como os acima devem aparecer nos próximos meses.

ATUALIZAÇÃO: Telhado de Vidro

Quis a cruel ironia que uma postagem sobre jogos inacabados precisasse de correções. E correções grandes.

Baseado em informações incompletas publicadas no Gamasutra, eu acabei colocando o pobre Florian Frankenberger no papel de vilão do destino do jogo Towns. Como melhor explicou o Rock Paper Shotgun, não é bem assim.

Quando Xavi Canal e Ben Palgi, criadores de Town, desistiram do projeto, eles passaram a batata quente para Frankenberger. Não existe um time, não existem auxiliares. Existe apenas Frankenberger, que recebeu a incumbência de terminar a obra inacabada com a promessa de receber 15% do lucro do jogo, já descontada a parte do Steam e os impostos.

Frankenberger entregou uma atualização um mês depois de assumir o posto de único desenvolvedor de Towns. E então viu os números de venda. O título que tinha arrecadado 2 milhões em sua história, já não estava mais jorrando dinheiro como no passado. Na verdade, era de chorar. Seus 15% não iriam pagar o seu trabalho.

Se você está imaginando Canal e Palgi tomando margueritas com os outros 85%, talvez você tenha chegado perto do que passou pela cabeça de Frankenberger. E foi aí que ele também jogou a toalha.

Ao contrário do que escrevi também, Towns nunca foi do programa Early Access. O que, se pararmos para pensar, é ainda pior. Isso significa que durante quase 2 anos, um título incompleto permaneceu na loja da Valve sem qualquer tipo de aviso ou controle. E vendeu 200 mil cópias, vale dizer.

Space Engineers

Se serve de alívio, existem jogos bons que merecem seu dinheiro e sua confiança dentro do selo Early Access. No mesmo dia em que eu destilei minha revolta contra Towns e Earth: Year 2066, o XboxPlus publicou uma ode ao jogo Space Engineers, um excelente contraponto à minha crítica.

Então, há esperanças…

Ouvindo: The Doors - L.A. Woman (Alternate Version)
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7 comentários:

Unknown disse...

"FPS de ficção-científica pós-apocalíptico de mundo aberto" deve ser o jeito mais bosta disponível pra descrever um jogo, numa boa.

Acho que nem Fallout 3, que realmente era um "FPS de ficção-científica pós-apocalíptico de mundo aberto" fez isso ahahahah.

Marcos disse...

a única vez que eu comprei um Early Pass foi o Carmaggedom Reincarnation, e acabei me dando mal por ele não ter funcionado no meu PC. só não estou tão arrependido por que os desenvolvedores estão sendo atenciosos e o jogo esta recebendo atualizações de desenvolvimento. por sinal o jogo recebeu uma atualização de cof, cof... 13gb

Marcos A.S. Almeida disse...

Todo segmento que têm um período de pujança sofre com o "interêsse" de espertalhões e aproveitadores.Antigamente se você entregasse um jogo completo e finalizado era difícil de vender; hoje você consegue vender um jogo "na planta" - ou seja , na cabeça do criador - vide kickstarters da vida.Tudo porque os jogos eletrônicos estão num período próspero.Só não tentem me convencer que "early access" e "crowdfunding" não são , em síntese, a mesma coisa.Felizmente nos 2 modelos temos pessoas honestas, o que não quer dizer que ainda assim eu os apoie, pelo contrário.

Thiago disse...

A questão levantada é muito interessante, Sr. Aquino. E concordo totalmente, que apressado come cru e sofre indigestão, isso quando não queima a boca.

Mas como todo fenômeno, isso de early access tem a ver com vários aspectos que culminaram neste formato.

1-O lado plataforma aberta do pc, que permite de tudo. Não há qualquer controle de qualidade no pc, literalmente qualquer um pode criar um jogo e tentar comercializá-lo. E pelo que andei sabendo, o steam vai arreganhar a porta e deixar qualquer um virar self-publisher por lá, sem qualquer funil qualitativo.

2-A busca do steam por quantidade e não por qualidade, algo que acabou por causar o crash dos consoles na década de 80. Não é segredo que os jogadores de PC vivem esfregando na cara dos consolistas que o PC goza de muitos mais lançamentos. O Steam não vê a hora de afirmar que tem mais jogos que qualquer plataforma na história, mais até que o PS2. E com isto, eles estão permitindo que qualquer coisa seja lançada.

Por sinal, tem havido alguns ataques de estrelismo na capa do steam. Por vezes criam um DLC medíocre, ou liberam a soundtrack de um jogo, ou lançam uma versão dita aprimorada do jogo (que apenas sofreu uma típica otmização e correção de bugs) apenas de modo a voltar a ter um mega-espaço publicitário na capa.

Isso quando não lançam vários DLCs pequenos de um jogo num dia só apenas de modo a monopolizar espaço na capa do site. O Steam não tem qualquer política para conter estes ataques de estrelismo, verdadeiros floods de atualizações e tsunamis de jogos ruins. Se eu viajar por uma semana, e ficar sem acesso, fica complicado acompanhar todas as atualizações do steam, o que me força a visitá-lo diariamente.

Eu sei que muitos rangem os dentes por causa das proprietárias de consoles, mas elas, com reputações a zelar junto ao consumidor,
geralmente inibem este tipo de coisa. Ter uma empresa supervisionando tudo não precisa ser um controle ditatorial fascista. Tem que
haver um equilíbrio, um meio-termo saudável entre isto e uma completa anarquia onde tudo vale, tudo pode.

Mais e mais eu vejo jogos caça-níqueis no steam que foram feitos pensando no preço de promoção, oferecidos a valores tão baratos que são mendigar pela curiosidade do público. Quantidade de jogos definitivamente não equaliza qualidade. O steam foi uma das melhores coisas que já existiu, mas de tempos pra cá vem trabalhando na sua auto-demolição. Eu mesmo sou culpado de comprar jogos que não queria realmente, por mera curiosidade aguçada, por estarem custando um valor irrisório.

3-Quem aceitaria a noção de jogar algo incompleto? Bem... O mercado em peso de certo modo já faz isso com o púnlico. Afinal, os jogos em versão vanilla, sem ainda os DLCs serem lançados, não deixam de ser, por um certo ângulo, incompletos (e não por acasos chamados de "complete editions" em coletâneas posteriores com os DLCs). Todo MMO que receberá atualizações não deixa de ser algo incompleto, sempre sujeito a estar em fluxo, sob risco de ser suplementado com coisas novas e tendo alterações no que já é existente.

Thiago disse...

Eu sou do tempo dos jogos em cartucho no atari, nes, mega, snes. Naquela época, quando o jogo iria para a linha de montagem, precisava estar absolutamente completo e milimetricamente testado, com pente fino passado. Não era o descaso como hoje impera, em que o jogo é empurrado de qualquer jeito no mercado, com a promessa de atualizações posteriores. Daí vimos coisas como Mass Effect 3, em seu lançamento, ter os dois engenheiros de me2 totalmente mudos. Tempos atrás comprei um jogo para pc chamado consortium (tem no steam e no gog). O jogo não é ruim, mas quando lançado foi uma catástrofe, algo que até os criadores admitiram. Eles sequer chegaram a testar o jogo e optimizá-lo em placas de linha geforce, que calham de ser a maioria entre os usuários do steam. O jogo foi lançado como full, aprovado, versão final, quando estava num nível pavoroso até para uma versão beta. Só depois de uns 3 meses o jogo passou a rodar bem. Por sinal, desde então o jogo voltou duas vezes à capa do steam. Uma para anunciar a trilha sonora, e agora, só porque recebeu um patch, batizaram com um sub-título.

Eu costumo até sacanear meus amigos que ainda possuem consoles, dizendo que até prefiro que jogos como GTA demorem para sair em PC, não apenas porque virão com melhorias, mas porque eles, consolistas, são os meus provadores de comida, os meus beta-testers que ao invés de serem pagos por isto, acabam por pagar mais caro pelo jogo. Mas a verdade é que todos nós que compramos lançamentos não deixamos de ser, admitamos ou não, estejamos cientes ou não, beta-testers informais. Estamos comprando um produto que, pelos padrões de outrora, haveria de ser considerado uma versão inacabada, dada a quantidade de ajustes que receberemos, algo que antes era impraticável. Eu devia tomar vergonha na minha cara e nunca mais pegar um lançamento na vida.

4-Cada vez mais temos a sensação de que jogos eletrônicos são um serviço, e não um produto. Com a migração cada vez maior para um sistema puramente digital, tal noção só tem sido reforçada. Veja quem comprou aquele zeebo lazarento, por exemplo, e hoje não consegue acessar nada com ele nem fazer download de jogos, mesmo aqueles pelos quais pagou. O serviço foi interrompido, e o consumidor ficou a ver navios. Ou quem tem o primeiro xbox, e não mais consegue baixar dlcs, deixado na mão. OU os que compraram jogos no xogo (eu fui um) e não fizeram back-up dos downloads. Os jogos free to play e mmos são exemplos gritantes disto. Por isso mesmo jamais gastei um centavo sequer neles. A gente compra algo neles hoje, mas não sabe se em seis meses o jogo ainda estará operacional. Até mesmo o steam, se um dia a valve falir (ainda que hoje possa parecer remota tal idéia) pode nos deixar na mão. Aliás, a qualquer momento, a empresa criadora de um determinado jogo nele pode lançar uma correção que torne o jogo incompatível, e não há garantias de que os jogos já lançados manterão compatibilidade com novos sistemas operacionais.

A verdade é que já fomos condicionados a aceitar que jogos são um serviço, que são risco, que são expandidos e aperfeiçoados ao longo do tempo, e que podem ser abruptamente interrompidos. Tudo isto sedimentou um terreno propício para o early access (e os abusos decorrentes do sistema).

Thiago disse...


Eu, particularmente, não gosto de idéia. Mas se outros gostam, bom pra eles. Eu sei que há muitos atrativos para algumas pessoas. Por exemplo, o jogador sentir-se (ainda que em muitos casos iludindo-se) que está ajudando a moldar o jogo, interferindo no processo criativo. Eu acho que aqui há um risco duplo: O do jogador ser iludido de que tem poder de influência ou mesmo de veto quando não possui (o criador já tem uma idéia fixa do que fará) ou até o risco da visão ("artística", por assim dizer) do criador ser comprometida por influência do público. Mais e mais, para bem ou para mal. empresas querem dar essa sensação de que a comunidade de fãs interessados auxilia a moldar o jogo final. O novo unreal anunciado é um sintomático exemplo disto. É um sinal dos tempos, uma consequência inevitável da postura mais aberta e próxima com o público que as empresas andam tendo, com potencial para bons e maus frutos.

Se por muito menos já tivemos fãs que na condição de pequenos investidores querem agir como grandes ditadores... Já vi gente, sem bom-senso para regras de rpg, exigindo que todos os romances de dragon age sejam bissexuais. Ou gente, sem conhecimento de narrativa, exigindo que o final de me3 permita vencer os reapers num confronto direto (depois do jogo inteiro sendo estruturado sob a norma de que não se pode vencê-los de modo convencional, com o protagonista indo o tempo todo numa direção alternativa). Estar disposto a ouvir o que o mercado tem a dizer é bom. Mas necessariamente fazer o que a massa de público exige e abaixar a cabeça, se o jogo visa ser algo mais que um pero produto prostituído e desprovido de uma visão autêntica ou qualquer pretensão artística, é ruim.

Se formos pensar bem, isso aí do early access não deixa de ser um estímulo para o pre-order. Afinal, antigamente podíamos deixar o produto já pago, sem ter qualquer prévia interativa dele. Agora, os afobados podem ir jogando versões preliminares. Pode nunca vir lançado, mas os jogadores já passaram a aceitar a idéia de que jogos são um serviço provisório, cuja tomada pode ser puxada a qualquer instante. Para disto passar para a situação da gestação interrompida, é um salto muito pequeno realmente.

Se eu já olho com desconfiança para lançamentos, considerados bons o suficiente para chegar ao mercado em massa e passar pelo crivo da crítica, sob temor de que tenham muitos bugs, que receberão patches que anularão todos os meus saves, quem dirá então um jogo que ainda está sendo criado? Paciência é uma virtude, e jogos já finalizados para serem usufruidos são o que não falta.


A garotada de hoje não teria paciência para esperar cartas chegarem e serem respondidas. A ansiedade é tal que não aguentam sequer 30 segundos por uma mensagem num chat como de facebook. Baixam da internet filmagens ilícitas em cinemas por câmeras portáteis de filmes que farão estréia local em poucos dias. Não é pra menos que contentam-se em mudar-se para uma house ainda em construção. Acho que esse povo morreria se fosse tranportado para a década de 90, em que tínhamos defasagem de por vezes dois meses com relação às revistas de games estrangeiras, com nossa dose de informação sendo mensal.

C. Aquino disse...

Obrigado pelas suas colocações, Thiago! Concordo com a maioria das suas posições: os tempos estão mudando e não necessariamente para melhor.

Sugestão: você argumenta muito bem, se não tiver um blog ainda, faça um! :)

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