Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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16 de agosto de 2012

Galeria da Infâmia: Estrada da Morte

Death Race 2000 A história da Galeria da Infâmia começa exatamente em 27 de abril de 1975. Os anos 70 foram uma época estranha, onde o sonho hippie de paz e amor degringolou violentamente com o gosto amargo do Vietnã. O cinema foi invadido por uma nova geração de cineastas que veio para contestar o sonho americano, na mesma época em que o cinema de terror transcendia seu status de passatempo adolescente e nos brindava com obras-primas como Exorcista e A Profecia e a ficção-científica vivia sua fase mais distópica, com clássicos como No Mundo de 2020 e Rollerball. No embalo deste último, o diretor e oportunista Roger Corman preparou um filme que iria mudar o mundo dos jogos para sempre. Em 27 de abril de 1975, chegou aos cinemas americanos Corrida Da Morte - Ano 2000.

A película contava a história de um futuro totalitário onde o esporte nacional é a Corrida Transcontinental, um espetáculo de atropelamentos, destruição e assassinatos que cruza o país e é transmitido com sucesso para as multidões. Uma das regras claras da disputa é que atropelar pedestres vale pontos, com bônus para idosos e vítimas sem defesa: 100 pontos por um cadeirante, 70 pontos por idoso, 50 pontos por criança etc. Pilotos de todos os tipos se enfrentam com seus carros bizarros que lembram monstros ou máquinas de destruição. Neste cenário grotesco, David Carradine é o ídolo popular e um iniciante Sylvester Stallone faz o papel do vilão sujo.

death-race-2000

O filme não foi bem recebido pela crítica. Roger Ebert, o mais famoso crítico cinematográfico vivo, deu zero estrelas para Corrida da Morte - Ano 2000. E escreveu:

"A audiência era mais ou menos metade composta por crianças pequenas, e elas adoraram. Elas nunca viram nada tão divertido, eu imagino, e eu fiquei dividido entre ir embora imediatamente e ficar para testemunhar um espetáculo mais impactante do que qualquer coisa na tela: a forma como aquelas crianças pequenas estavam curtindo o banho de sangue gratuito."

Corrida da Morte - Ano 2000 recebeu censura R nos Estados Unidos, de forma que menores só poderiam assistir ao filme acompanhados de pais ou responsáveis. Não que isso os tenha impedido de ir ao cinema. Entretanto, não há relatos de que o filme tenha sido proibido, seja em seu país de origem, seja aqui no Brasil. Pelo contrário, com o passar do tempo, a obra se tornou cult, seja pela hilária produção barata, pelo humor negro, pela crítica ao totalitarismo ou, apenas por se ridícula demais para ser levada a sério. Tampouco existem acusações de crimes cometidos inspirados nas cenas exibidas com detalhes.

No ano seguinte ao filme, a Exidy, fabricante de arcades, resolveu pegar carona no sucesso e lançou seu próprio jogo: Death Race. Foi o estopim para uma caça às bruxas que nunca terminou.

São Gremlins!

Trinta e sete anos depois e a indústria dos jogos eletrônicos ainda não alcançou o nível de precisão gráfica de um filme do Roger Corman. Em 1976, então, você pode imaginar a qualidade dos gráficos que as máquinas de fliperama eram capazes de exibir. No jogo Death Race, o jogador (ou jogadores, podia ser jogado em dupla) corriam pela tela com um veículo composto por menos de dez quadrados brilhantes e atropelando criaturas compostas por um pouco mais de quadrados, tudo em preto e branco. A cada criatura atropelada, aparecia uma lápide na tela, o que tornava a corrida mais difícil, porque bater em uma delas era fim de jogo. Como no filme, acumulava-se pontos por atropelamento.

Death Race - Tela O problema de Death Race era que as "criaturas" se pareciam com seres humanos. O presidente da Exidy declarou que eram gremlins. Mas ninguém acreditou, é claro. O gabinete do arcade trazia a figura do Ceifador, o nome era muito parecido com o do filme e descobriu-se que o título do jogo durante o desenvolvimento era "Pedestrian". Com os gráficos limitados, os inimigos poderiam ser qualquer coisa: nazistas, alienígenas, gremlins ou crianças, freiras, velhinhos. O resultado foi um furor nacional. O jogo foi classificado como "doentio e mórbido" pelo National Safety Council, ONG americana que prega condições mais humanas no trânsito. Death Race foi matéria de capa de revistas e deflagrou um especial do programa de TV 60 Minutes sobre o impacto psicológico dos jogos eletrônicos.

Death Race - Arcade

Nos arcades espalhados pelo país, a garotada se divertia com a violência, como Ebert já havia presenciado. Segundo fontes próximas à Exidy, a polêmica dobrou a quantidade de pedidos para a máquina. Entretanto, apenas 1000 foram produzidas e foram tiradas de mercado por solicitação de autoridades locais. Todo garoto de dez anos que jogou Death Race ou assistiu ao filme de Corman conseguiu sua carteira de motorista por volta de 1981/82. Não há relatos de aumento no número de acidentes de automóvel no período.

O jogo é tecnicamente impossível de emular, uma vez que estava vinculado especificamente ao hardware das máquinas, mas novas versões foram produzidas com o tempo, sem atingir a mesma repercussão do original. Mas, naturalmente, a bola de neve não parou por aí.

"Olha a velhinha, cara!"

Carmageddon - Box Mais de vinte anos se passaram desde Death Race e podia se imaginar que talvez a polêmica tivesse esfriado. A britânica Stainless Software, que até então produzia CD-ROMs multimídia de medicina, recebeu a encomenda de um jogo chamado "3D Destruction Derby", um simulador daquelas corridas que os americanos curtem onde os carros se esmerilham até não sobrar nada em uma arena. A produtora SCi resolveu investir pesado e tentou comprar os direitos da franquia Mad Max e tornar o jogo mais brutal que esportivo. Mas não deu certo, era muito caro. Nos bastidores, se comentava sobre uma continuação para o filme Corrida da Morte - Ano 2000 e a SCi então tentou se associar ao projeto e colocou atropelamento de pedestres na mecânica do jogo. Mas o filme não aconteceu e a SCi mandou a ordem: "vamos fazer nossa própria franquia". Nascia um jogo que misturava corrida de automóveis, destruição de automóveis, e caçada de pedestres valendo ponto. Atendia pelo nome de Carmageddon.

Se os "gremlins" pixelados da Exidy provocaram a ira de muitos, o atropelamento de velhinhas, animais e todo o tipo de forma de vida presentes em Carmageddon levaram o jogo a ser efetivamente censurado ou banido em muitos países. Em boa parte da Europa, os pedestres tiveram que ser substituídos por zumbis ou robôs. Ironicamente, a Austrália, conhecida até a alguns meses atrás por ter um sistema de classificação que impunha um limite máximo de 15 anos de idade para um jogo, aprovou a venda. Já no Brasil, sua comercialização foi completamente proibida. Enquanto do outro lado do mundo, um adolescente australiano de quinze anos poderia entrar na loja e sair com a caixa de Carmageddon embaixo do braço, em terras brasileiras, um indivíduo adulto, que pode votar, dirigir um carro de verdade e até ser presidente da República, não pode comprar o jogo em nenhum lugar.

A proibição da venda no Brasil não impediu a distribuição da versão demo do jogo em CDs de revistas nas bancas de jornais. Ou porque a determinação judicial não era clara ou porque as revistas foram mais rápidas, o fato é que o demo de Carmageddon se espalhou. Virou febre.

Um caso muito particular aconteceu com um amigo meu, que não vou citar o nome. Na época, minha esposa ainda era somente minha namorada e estava montando uma equipe de professores para dar aulas particulares. Esse meu amigo entrou no time e cumpriu seu papel. No dia em que foi buscar o dinheiro na casa da minha futura esposa, que ainda morava com os pais, o dito cujo viu o ícone de Carmageddon brilhando na Área de Trabalho do computador do meu sogro. Culpa minha, é claro. Mas eu nunca poderia imaginar que o ser desprovido de noção não só iria clicar no ícone, como também passaria duas horas seguidas jogando os mesmos cinco minutos de demo do jogo de novo e de novo. Nesta versão de Carmageddon, o timer era implacável e a única forma de se conseguir tempo extra era cometendo barbaridades contra os pedestres. Então, imagine a cena: um sujeito, com quase nenhuma intimidade com os donos da casa, sentando em frente a um computador que não é seu, por duas horas seguidas, atropelando implacavelmente velhinhas, mulheres e outros inocentes enquanto ria alto. E ainda ficou para jantar.

Carmageddon - Atropelamento

Esse mesmo sujeito nunca dirigiu um carro. Nem tem vontade. Adorava Carmageddon. Poderia ser usado como exemplo de que jogos eletrônicos não causam prejuízo, mas ele é apenas um caso no meio de dois milhões de unidades vendidas da franquia. A lógica dita que um caso isolado não sirva de exemplo, ainda que a turba de linchadores virtuais e paranóicos midiáticos ocasionalmente afirme o contrário.

Rodando por Aí

Se comprar em loja era inviável e a pirataria era minha bandeira naqueles tempos, naturalmente a versão completa de Carmageddon terminou em minha máquina. E posso afirmar com experiência em primeira mão que o jogo completo é chato.

O que críticos e censores não perceberam é que atropelar os pedestres é apenas uma função secundária do jogo. No demo, era incentivado. Mas no jogo final era apenas uma das três formas disponíveis para se completar a aventura e a mais trabalhosa delas. Cada etapa de Carmageddon era uma vasta arena representando alguma localidade física: uma cidade, uma mina abandonada, um balneário turístico, o campo. Para avançar para o próximo, você precisava percorrer um número determinado de voltas no circuito, ou destruir todos os carros dos competidores. Ou atropelar cada um de centenas e centenas de pedestres, muitos deles escondidos nos piores e mais inacessíveis lugares. Qualquer um que jogasse a versão completa do título percebia logo no primeiro cenário que esta meta era insana e enfadonha.

Porém, no primeiro Carmageddon a marcação do circuito a ser percorrido não era das melhores. Para piorar, todos os outros carros estavam mais interessados em destruir o seu do que em correr para frente. Em pouco tempo, a partida se convertia em uma batalha de vida ou morte entre os pilotos degenerados e aniquilar a oposição era o caminho mais rápido para a vitória. No final das contas, o jogador terminava assumindo o papel de justiceiro, exterminando justamente aqueles loucos perigosos soltos nas ruas, ainda que com um grande desrespeito pelas leis de segurança e com fartas doses de sangues.

Carmageddon - Oponente

Para completar a "tragédia", Carmageddon era um jogo de corrida difícil de controlar. E os cenários se repetiam incessantemente. Depois de muitas horas da mesma jogatina, percebi que não estava nem no meio. E desisti.

Carmageddon II: Carpocalypse Now foi lançado um ano depois, um pioneiro no esquema das franquias anuais. O salto tecnológico é gritante, saindo do mundo dos sprites em 2D e entrando de sola nos modelos em 3D. O controle do carro foi melhorado, os cenários foram muito mais diversificados, novos (e ridículos ) poderes foram introduzidos e a duração do jogo foi diminuída. Resultado: a dose certa de diversão. Na rasteira do primeiro título, também foi proibido no Brasil.

Carmageddon TDR200 não foi desenvolvido pela Stainless e não avançou um milímetro na jogabilidade. Em 2000, os gráficos já pareciam ultrapassados e a novidade havia esfriado. O jogo vendeu mal e, por um longo tempo, enterrou a franquia. Para minha infelicidade, nunca consegui fazer a versão pirata rodar em meu computador...

Carmageddon Renasce

Carmageddon Reincarnation

Os direitos de uso da franquia se tornaram uma bagunça. Em 2003, aparentemente a Take-Two tinha adquirido a licença e prometeu lançar um quarto jogo em breve. Nenhuma notícia se ouviu até 2005, quando a SCi, assimilada pela Eidos, anunciou que o projeto estava engavetado para sempre. Nesse meio tempo, a Eidos foi engolida pela Square-Enix e Carmageddon ficou perdido em uma gaveta com um aviso: "não abra, conteúdo polêmico".

Corrida Mortal Em 2008, foi a vez da obra de Corman ser finalmente refilmada. Conduzida pelo polêmico Paul W. S. Anderson, o culpado pela franquia cinematográfica de Resident Evil, a refilmagem trazia o ator de ação Jason Statham no papel que antes havia sido de David Carradine. Batizada por aqui de Corrida Mortal, a película deixava de lado o grotesco e o tosco do filme original em favor de um orçamento mais espetacular. Sai a crítica social: os corredores não são mais astros bizarros glorificados pela audiência, mas prisioneiros de alta periculosidade que a população queria mais era que se ferrassem mesmo. O protagonista não é um ex-participante do esquema, agora desiludido, mas um homem inocente injustamente acusado. O filme não obteve a relevância do primeiro, mas gerou uma continuação lançada direto em DVD. Corrida Mortal ganhou censura R, mas nunca foi proibida em país algum.

Enquanto isso, a marca Carmageddon ganhava ferrugem. E a Stainless, agora renomeada para Stainless Games, ganhou uma bolada de dinheiro ao produzir a bem-sucedida versão eletrônica de Magic The Gathering. Com dinheiro na mão, seus donos tiveram a ideia louca de comprar de volta os direitos da franquia e a Square-Enix vendeu de bom-grado.

Max is Back

Com um site novo no ar em 1º de Junho de 2011, parecia inevitável que o legado de Roger Corman voltaria a ser sentido na indústria dos jogos eletrônicos. Quase um ano inteiro se passou sem novidades, até que a Stainless Games resolveu capitalizar em cima da onda do crowdfunding e anunciou um Kickstarter para o novo jogo. Pediam a quantia de 400 mil dólares para lançar Carmageddon: Reincarnation em 2013. Indiferentes a estranheza de uma empresa com capital no banco passar o pires dessa forma, os jogadores atenderam ao chamado e a meta foi atingida em 10 dias. A Stainless prometeu que se o valor passasse de 600 mil dólares, também haveria versões para Mac e Linux. Bateu 623 mil dólares em contribuições em 6 de junho de 2012, pouco mais de um ano depois de ser anunciado inicialmente.

Roger Ebert não poderia imaginar em seus mais sombrios pesadelos que Corrida da Morte - Ano 2000 ainda respiraria mais de um quarto de século depois e patrocinada por uma legião de fãs sedentos por atropelamentos fictícios em telas domésticas.

Ouvindo: This Ascension - Fearful Symmetry
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8 comentários:

Shadow Geisel disse...

texto enorme. só vai dar pra ler no final de semana. mas já sei que vou conhecer um monte de jogos "novos".

C. Aquino disse...

Achievement Unlocked: ter um texto considerado enorme por Shadow Geisel.

Marcos A. S. Almeida disse...

Aquino , acho que na orelha do seu próximo livro deveria vir escrito "...crítico ferrenho da perseguição que os jogos com violência sofrem..." por conta da abordagem persistente , informativa e construtiva que você faz á esse assunto.Enquanto você estiver incansável na defesa dos jogos , continuarei lendo com prazer textos como esse.Parabéns.

Helder J.C disse...

Bom texto. O final ficou com uma expectativa de "continua..." =D

Mais postagens, mais postagens ! !

LocoRoco disse...

Gostei do texto, uns dos melhores do site.

Jimmy Fischer disse...

Bom texto, me fortaleceu duas certezas:
1ª-Jogo "polêmico" cria um marketing gratuito.
2ºO cinema e a TV podem jogar qualquer lixo na sua cara que ninguém reclama.Qualquer jogo com uma gotinha de sangue ou alguma insinuação à violência, sexo e outros "tabus" vira inimigo público número 1.
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Videogame não te influencia em nada!Jogo desde os 9 anos no ATARI 2600, já joguei todos esses jogos violentos na minha infancia/adolescencia, nunca dei um tapa em alguém e nem tenho vontade...trabalho como motorista do transporta coletivo e detesto jogos de corrida!
Os maiores chatos são as emissoras de TV(por saberem que perdem audiencia com alguem jogando) e os evangélicos(que teimem em se meter em assuntos que não lhes diz respeito).
Belo texto, muito profundo!

Tobias disse...

Caramba, joguei muito o demo de carmageddon. Minha meta depois de muito jogar, era conseguir completar o circuito. Com o tempo dado pelo demo (tempo que o demo acabava mesmo você conseguindo atropelar trilhões de pedestres), era impossível conseguir completar as duas voltas fazendo o circuito no mapa. Portanto a manha era bolar os atalhos entre um checkpoint e outro, e pisar fundo no acelerador.

(O último checkpoint era estrategicamente posicionado na beirada do topo de um prédio, hehe).

Participei do kickstarter e estou ancioso para mês que vêm (setembro), colocar as mãos na minha cópia do original no GOG, e ano que vêm no ReinCARnation! >:D

Shadow Geisel disse...

"Então, imagine a cena: um sujeito, com quase nenhuma intimidade com os donos da casa, sentando em frente a um computador que não é seu, por duas horas seguidas, atropelando implacavelmente velhinhas, mulheres e outros inocentes enquanto ria alto. E ainda ficou para jantar."

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

não consigo parar de rir pra comentar outras partes do texto...

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