Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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1 de junho de 2024

Jogando: The Sinking City

The Sinking City My Screenshot 02

A genialidade de H.P. Lovecraft transcende gerações, como um arquiteto de um terror que ainda não tinha nome ou face. Suas monstruosidades cósmicas habitam os espaços vazios entre as estrelas ou adormecem nas profundezas dos oceanos, forças tão devastadoras que humano algum seria capaz de contemplar muito menos de lhes fazer resistência. Os mitos de Cthulhu talvez sejam a maior contribuição isolada para a iconografia do medo desde a invenção do Inferno.

O que a Frogwares consegue com The Sinking City é criar uma obra eletrônica que consegue capturar o intangível, domar o incontrolável, arrastar para a areia da praia aquilo que deveria ter permanecido no lodo abissal. É horrendo, é repugnante, é desesperador. E, ainda assim, você retorna para mais uma sessão, para mais uma investigação, para mais um degrau de descida rumo à loucura. Como seu protagonista, você não consegue se libertar dos tentáculos pegajosos do destino e encara esse desafio até o final.

Não testei tudo que existe, obviamente, mas, dentro de meu limitado campo de experiência, The Sinking City é o jogo que mais me transportou para o universo lúgubre de Lovecraft. Tudo isso sem fazer uma adaptação direta de nada que foi escrito, mas se apossando de sua atmosfera para criar algo inédito, mas mesmo assim engloba tudo. Durante quase 32 horas, eu fui Charles Reed, um detetive particular que mergulhou (literalmente) naquilo que não devia, indo de mal a pior a cada hora, movido por uma curiosidade mórbida, um senso de justiça inútil e uma esperança débil.

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The Sinking City My Screenshot 18

Pode parecer que Charles Reed é o protagonista desta história, mas ele é apenas uma testemunha. A verdadeira personagem central é a cidade de Oakmont. Como ele mesmo descreve no início, ela não aparece na maioria dos mapas. Para complicar, o mar está se levantando e já engoliu partes significativas de suas ruas e prédios. A tendência de Oakmont é desaparecer no oceano. Infelizmente, as águas trouxeram mais do que sujeira e lixo. Essas águas trouxeram pesadelos, abominações e loucura para a cidade e seu habitantes. Proscritos de diversas partes do mundo são atraídos para Oakmont, movidos por sonhos que não cessam. Eles se amontoam nas esquinas, brigam por migalhas e aguardam algo que ninguém sabe o que é, mas todos sabem que não será bom. O Juízo Final vai começar em Oakmont, para o bem ou para o mal.

Nesse sentido, a Frogwares constrói um mundo aberto de arrepiar. É um Grand Theft Auto da desgraça. Há um cuidado sensível em montar uma cidade plausível, com seus pontos pitorescos, seus bairros distintos, suas construções históricas, um espaço físico lotado de passado e sem nenhum futuro. É um cenário onde o céu nunca é azul e, mesmo nos raros momentos em que o Sol brilha, o astro-rei se esconde timidamente atrás de uma cortina de nuvens cinzentas. Oakmont é Silent Hill alagada, sufocante, insalubre.

Corrigindo Lovecraft

Durante décadas, a mente perturbada de Lovecraft foi alvo de glorificação e estudos. Lamentavelmente, o autor era comprovadamente xenófobo, racista e conservador, até mesmo para os padrões de sua época. O estranho e o ameaçador que ele expunha em suas histórias eram muitas vezes um reflexo de suas opiniões pré-concebidas sobre povos e raças que não apresentavam uma origem europeia tradicional. Essa repugnância e esse medo que ele sentia na vida real acabaram sendo decodificados em imagens que viveriam muito além de sua curta passagem pelo planeta.

A maioria das adaptações de Lovecraft foge do subtexto ou busca uma separação profunda entre criador e criatura. A Frogwares não se esquiva da polêmica. Ainda que não haja uma releitura temática de Lovecraft e o horrendo segue sendo horrendo do jeito que o autor descreveu, a desenvolvedora adiciona camadas e alertas que mexem na ferida. A xenofobia é escancarada em Oakmont e Charles Reed sente isso na própria pele, como um forasteiro rejeitado pelos habitantes locais. O racismo é traduzido para a postura de muitos para o chamado "povo de Dunwich". A Ku Klux Klan aparece sem disfarces em Oakmont e são colocados em pé de igualdade com cultistas de forças funestas.

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The Sinking City adiciona ao horror cósmico o horror cotidiano dos homens, suas ambições ególatras, seu jogo de poder, sua propensão a buscar a dominação de outros através da inferiorização. Oakmont já era um recorte de uma civilização lotada de pecados, muito antes do mar se erguer. Talvez a influência daquilo que está lá embaixo tenha contaminado a cidade desde sua fundação, mas é impossível não perceber as semelhanças entre aquilo que se pratica em seus limites municipais e aquilo que acontecia e acontece até hoje em muitas partes ditas modernas de nosso mundo.

A desenvolvedora deixa bastante claro que impacto da tragédia que se alastra por Oakmont foi muito mais forte nos bairros periféricos. De um lado, casebres alagados, mendigos chafurdando no lixo, brigas e até mortes acontecendo a céu aberto. Do outro lado, ruas iluminadas, prédios e casas de luxo, policiamento ostensivo, uma tentativa de se levar a vida normalmente.

E a Frogwares não faz uma única concessão em busca de uma conclusão feliz. Não há uma decisão tomada por Charles Reed que seja livre de consequências aterradoras ou dúvidas. Não que The Sinking City seja um título que gire em torno de escolhas, como a franquia The Walking Dead ou mesmo um Mass Effect. Escolher entre o ruim e o muito ruim é uma constante da narrativa inteira e aquilo está ali apenas para o jogador perceber que o beco não tem saída. Todas as almas em Oakmont estão desviadas da luz, seja usando de meios absolutamente inaceitáveis para atingir bons objetivos, seja praticando o mal em todas as etapas do processo. Não demora muito para que Charles Reed e, por consequência, o próprio jogador, não aceite as regras do jogo e sacrifique um pedaço de sua inocência para avançar.

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Fhtagn!

Se até agora essa análise se concentrou em aspectos narrativos ou atmosféricos de The Sinking City, é porque suas mecânicas são seu ponto fraco. O primeiro defeito é a repetitividade: 80% de tudo que você irá fazer ao longo do jogo está exposto logo em sua primeira meia hora. Se você não aceita a forma como os sistemas de localizar pistas funciona nesse início, eu lamento dizer que não vai muito além disso. Para mim, foi bastante satisfatório.

Outro aspecto da repetitividade está na reutilização quase infinita de cenários internos. Todos os prédios de apartamentos são iguais por dentro, mudando apenas o posicionamento de uma coisa ou outra. O mesmo vale para casas, instalações industriais, praticamente tudo. São poucos os espaços únicos em The Sinking City. A reciclagem de elementos também está muito presente nos NPCs, principalmente naqueles que circulam pelas ruas, sem nem mesmo ter um nome.

The Sinking City My Screenshot 18

Em termos de IA, o jogo também deixa a desejar. Os NPCs se comportam de forma não natural, ás vezes se aglomerando em determinados espaços. Ironicamente, esse defeito pode funcionar à favor da atmosfera: a maior parte dos transeuntes é composta por pessoas perdidas ou abaladas emocionalmente, no limiar da loucura. Oakmont, dependendo do bairro, é uma grande "cracolândia" lamacenta e IA imperfeita adiciona a esse clima, mesmo não achando que foi proposital.

O sistema de combate faz parte daqueles 20% que você não descobre de início. O combate não é satisfatório em momento algum. Novamente, acredito que esse defeito pode funcionar à favor da atmosfera. Os horrores lovecraftianos nunca foram ameaças que podiam ser resolvidas na bala, mas evitadas ao máximo. Infelizmente, The Sinking City também traz batalhas ocasionais contra inimigos humanos e está bem longe do que se imaginaria para um jogo de ação, já que essa nunca foi a ideia. É curioso que The Sinking City 2 tenha sido anunciado e aparentemente seguirá a escola Resident Evil de survival horror.

The Sinking City então não é daqueles jogos em que você perde horas realizando missões paralelas porque não consegue largar suas mecânicas deliciosas (saudades eternas, Outcast: A New Beginning!). The Sinking City é daqueles jogos que você perde horas realizando missões paralelas apesar de suas mecânicas, movido pela obsessão de saber até onde vai esse poço sombrio. E acredite: ele desce para profundezas desconhecidas pelo Homem.

The Sinking City My Screenshot 50

Ouvindo: Moreirinha E Seus Suspiram Blues - Expresso Do Blues

Um comentário:

Raphael Airnmusic disse...

Análise muito massa, Aquino!

Eu estou acompanhando esse jogo desde que foi anunciado mas deixei pra jogar em outro momento, com tempo e calma, exatamente pq tenho a impressão de que vou me encaixar nessa situação de tentar ir o mais fundo possível hehehe

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Blog criado e mantido por C. Aquino

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