Retina Desgastada
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15 de março de 2023

(não) Jogando: Marvel Snap

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De tempos em tempos, meu filho pede para reinstalar Magic the Gathering Arena, para jogarmos um contra o outro. O irônico é que apresentei o título para ele na tentativa de ambos nos afastarmos da compulsão por Warframe. Acabei criando outra compulsão, sem que o jogo dos ninjas espaciais perdesse tanto espaço assim.

Porém, desta vez seria diferente. Eu queria introduzir o garoto em outro card game, o título do momento, a sensação de que todos estavam falando e compartilhando telas: Marvel Snap. Irredutível e desanimado como a maioria dos jovens de 15 anos, o garoto insistiu em Magic. Com negociação, chegamos ao seguinte acordo: jogaríamos os dois títulos, em dias alternados. A minha estratégia era aliciar sua mente analítica para os porões da Marvel e afastá-lo do outro jogo, imaginei que ele não resistiria à tentação de galgar rankings, montar decks e criar combos.

Enganei-me redondamente e o tiro saiu pela culatra.

Devagar e Sempre

Marvel Snap tem a agilidade de uma geração habituada com vídeos curtos um após o outro. Uma partida não dura mais do que cinco minutos, oferece aquele surto de adrenalina e você já passa para outra partida. Mesmo a derrota apenas te empurra para uma nova tentativa, sem pestanejar. É muito fácil compreender como e por quê o jogo tomou de assalto corações e mentes mundo afora.

Elementos estruturais aliados a sua própria mobilidade (e sua interface reflete isso de forma horrorosa na tela de um PC) tornam Marvel Snap o título perfeito para aquela fila do banco, aquele tempo de espera, aqueles quinze minutos pós-almoço. A qualquer momento, ele pode ser aberto sem muita espera e uma partida está a um clique de distância.

Entretanto, para um jogo tão dinâmico, é exasperante como sua progressão é lenta. De cinco em cinco minutos, consegui completar oito horas de jogatina e estou perplexo diante da cifra. Em contrapartida, em oito horas pouco ou quase nada avancei em termos de cartas novas ou estratégias complexas. O que me leva à primeira comparação: em oito horas de Magic eu já tinha pelo menos cinco decks diferentes que o jogo me dava, cada um com sua própria jogabilidade, além de três decks que eu montei de acordo com meus critérios, com maior ou menor eficiência. Em oito horas de Marvel Snap eu tinha as mesmas cartas que todos os jogadores no meu nível e estava vendo as mesmas táticas de novo e de novo.

Truco!

Meu filho começou apanhando sistematicamente de mim em Marvel Snap. Ele descontava no dia seguinte me massacrando em Magic The Gathering Arena com seus barulhos absurdamente customizados. Os sistemas de Marvel Snap não lhe despertavam interesse. Simultaneamente, eu buscava aperfeiçoar os meus baralhos no Magic, movido pelas constantes derrotas, e aprimorava minhas habilidades contra jogadores aleatórios. O tempo passou e percebi que estava jogando muito mais Magic do que Marvel Snap.

Isso me levou a teorizar porque um título seguia nos fisgando e outro não, apesar de todas as qualidades de Marvel Snap (e não são poucas, mas você certamente já leu todas elas por aí). É uma questão de controle.

Em Magic the Gathering, temos um controle bem fino sobre nossas estratégias. A batalha é um balé que se estende pelo triplo do tempo de seu rival. Um erro cometido aqui pode ser corrigido ali na frente. Algumas táticas exigem paciência. Algumas armadilhas são complexas demais para serem percebidas a tempo. É um xadrez, a sua maneira.

Marvel Snap exige dedicação até o ponto em que o jogador tenha uma coleção de cartas aceitáveis para começar a pensar em estratégias diferenciadas. Ainda assim, existem "metas" que todos usam e fugir delas pode não ser uma boa ideia. Em Magic, também existem baralhos manjados, mas há muito mais espaço para improviso ou técnicas bizarras. Meu filho, sem falso orgulho paterno, utiliza baralhos que jamais vi outro oponente usando, fora da curva e devastadores.

Por último, Marvel Snap me passou a sensação de ser muito mais baseado no fator surpresa. Não em suas cartas, uma vez que jogadores no mesmo patamar tendem a usar os mesmos personagens, mas em seus Locais. O conceito de Locais é, ao mesmo tempo, a grande sacada do título, algo que eu gostaria de ver implementado em outros jogos, e seu calcanhar de Aquiles. Um baralho montado com a estratégia X pode se tornar completamente inútil no Local errado e o jogador tem quase zero controle sobre esse elemento aleatório.

Marvel Snap traz na intuição seu ponto central: é necessário intuir o que o adversário vai fazer, antecipar suas ações a cada segundo e contar com a sorte dos Locais certos. Apostar que tal vai acontecer está no cerne do jogo, vide sua mecânica de Snap. É algo com o qual meu filho não sabe lidar: ele monta sua estratégia e vai, muitas vezes alheio ao que o seu adversário está fazendo, apenas interferindo ocasionalmente. Magic the Gathering Arena é sobre controle da situação, Marvel Snap é sobre previsão a todo momento.

Por hora, Marvel Snap e Magic The Gathering Arena foram desinstalados juntos. O experimento falhou. Eu tenho certeza de que voltaremos um dia a Magic The Gathering Arena. Tenho sérias dúvidas se voltaremos a Marvel Snap.

Ouvindo: In Strict Confidence - Manchmal redest Du im Schlaf

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