Retina Desgastada
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8 de fevereiro de 2023

Jogando: The Forest

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Na primeira noite, que não contou, The Forest se mostrou um jogo bastante escuro, em que a noite guarda seus mistérios. Mais escuro que Conan Exiles em noite sem lua. Ainda assim, brinquei de construir fogueiras e meu filho fez um banco de sentar, ainda tentando entender as mecânicas. Na segunda noite, que também não contou, The Forest mostrou sua verdadeira face. Uma fogueira na beira da praia virou um palco de guerra. As trevas pariram canibais, mais do que conseguimos contar. Criaturas da noite que entravam e saíam da proteção das sombras, com movimentos furiosos e ataques imprevisíveis. Fugimos para o mar e ficamos em cima de uma pedra. O frio nos congelou. Entre morrer sem dignidade em cima de uma pedra ou voltar para a praia para uma batalha final, optamos por matar ou morrer. Morremos.

Para todos os fins, foi nossa segunda investida em The Forest que contou pra valer. Lemos um pouco mais sobre o jogo e tomamos todas as precauções possíveis para não atrair os selvagens da Península. Mesmo assim, passamos a primeira noite em uma ilhota no meio de um rio, assustados e com frio. Nas duas margens, víamos as silhuetas dos canibais passando em grupos grandes, ouvindo seus uivos guturais, torcendo para que não vissem a luz de nossa fogueira no meio das pedras, torcendo para que o rio fosse fundo o suficiente para que eles não cruzassem, torcendo para que eles fossem embora quando o sol nascesse.

Aquela primeira ilhota foi nosso lar por um período de tempo miserável. Nosso lar era um punhado de folhas jogado por cima de uma dúzia de gravetos. Servia para salvar o jogo, porém, se dormíssemos, a tenda improvisada era destruída. Passamos então noites em claro, com medo, com fome, com chuva caindo sob nossas cabeças e gerando frio.

Cogitei desinstalar The Forest. Seria o primeiro jogo de sobrevivência que desistiríamos por ser cruel demais, brutal demais nesse início. Em contrapartida, uma parte de mim estava sentindo aquela euforia perdida, aquela sensação de temor pela própria vida, de temor pelo desconhecido que os bons títulos do gênero evocam em seu começo. A noite Hiboriana de Conan Exiles, os ruídos perturbadores do Enderman em Minecraft, o fantasma do desligamento por falta de energia em Outpost Zero, as criaturas anômalas de Desolate. A falta de entendimento das regras secretas que operam nesses jogos gera paranoia, apreensão, o medo primal daquilo que não se consegue explicar.

Felizmente meu filho não fraquejou e minhas dúvidas ficaram contidas no fundo do meu crânio. O medo foi cedendo à ousadia.

Triângulo das Bermudas

Em The Forest, controlamos o sobrevivente de um acidente aéreo em uma região inóspita do que parece ser o Canadá. Nos destroços, há apenas o cadáver de uma aeromoça, com um machado de emergência fincado no peito. Não há outros corpos e tudo indica que eles foram levados. Entre os outros passageiros, há Timmy, o filho do protagonista.

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A história de The Forest é um fiapo narrativo que passará batido pela maior parte dos jogadores e cujos detalhes são debatidos em wikis. A desenvolvedora Endnight Games não se preocupa em dar explicações muito claras de nada e tampouco coloca pressão para que o jogador avance em sua busca por Timmy. Há pistas espalhadas pela Península que formam um quebra-cabeça praticamente indecifrável sobre a região. Você não é a única vítima dos estranhos canibais que patrulham as colinas, as praias ou a mata. Há resquícios de campistas, missionários, exploradores de cavernas e outros desafortunados. E também há mutantes, abominações grotescas que desafiam as leis da biologia.

Ainda assim, há em The Forest elementos suficientes para manter a atmosfera de mistério e desconhecido no ar. Ruínas e pinturas ancestrais indicam que há forças em andamento muito mais antigas que as árvores que se erguem nessa floresta. A reta final do jogo é um passeio por uma conspiração inesperada, que evoca os melhores momentos de Lost.

A Lei do Mais Forte

Entretanto, não se engane: a força de The Forest não está em seu enredo subjacente mas na brutalidade de seu universo. É um título que consegue ser selvagem. Em que começa com nossos personagens se esgueirando como ratos assustados e termina com nossa transformação em caçadores impiedosos. É o sistema aplicado dos bons survivalcraft, que aqui ganha tons extremos: a sensação de impotência é bem forte no início, mas a sensação de poder é bem alta (embora enganosa) próximo do término.

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Os canibais de The Forest seguem padrões de patrulha bem demarcados e o jogador precisa estar atento aos seus "vizinhos". Nossa segunda base, uma casa na árvore, estava situada relativamente distante das trilhas usadas pelos inimigos, o que aumentou nossa confiança. Ainda assim, fomos surpreendidos uma ou duas vezes, por termos acendido luzes próximas. Os desenvolvedores programaram a Inteligência Artificial para investigar luzes ou sinais de presença civilizada, como estruturas e árvores cortadas.

Essa mecânica de não chamar a atenção é um dos grandes trunfos do jogo, mas também seu principal limitador. Quanto maior a base que o jogador construir, maiores serão as chances de atrair inimigos, que virão em grupos cada vez maiores ou mais fortes. Ainda que esse sistema aumente a tensão, ele também sufoca a criatividade e a vontade de se "erguer um Império". De qualquer forma, The Forest apresenta um sistema de construção de estruturas não apenas frágil, com poucas opções, como também é desnecessário: tudo que você precisa para sobreviver pode ser encontrado na região ou fabricado manualmente com componentes básicos, sem necessidade de bancadas, forjas ou demais traquitanas.

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Ainda assim, para quem deseja tentar exercer seu lado carpinteiro, existem pontos do mapa que são mais seguros do que os outros, livres de visitas indesejadas. Um desses pontos, que encontramos logo, era uma ilha próxima da praia, uma ilha bastante espaçosa. Em The Forest, as criaturas não sabem nadar e se afogam, se, por acaso, entram em água mais profunda. Erguemos um cafofo, uma horta, instalamos coletores de água da chuva e, por insistência minha, colocamos iluminação por toda parte. Dominar a escuridão da noite é um vício que adotei em jogos do gênero, desde Minecraft, onde a escuridão é realmente perigosa, porque "gera" monstros.

Nômades das Cavernas

Com uma base pronta, adquirimos a confiança para colocar o pé na estrada, explorar a Península e desbravar suas cavernas. Ironicamente, percebemos que as bases são praticamente desnecessárias. É possível viver em movimento em The Forest, desde que você não tenha medo da noite ou encontre uma das várias barracas abandonadas que permitem dormir em segurança. Todas as necessidades básicas de calor, cura, alimentação, e bebida podem ser saciadas pelo caminho. Desta vez, espreitávamos os canibais ao invés do contrário. Escolhíamos nossas lutas ou encarávamos de peito aberto aquelas que surgiam em nossa frente.

Apesar de seu nome, é nas cavernas que The Forest atinge seu ápice. São mais de dez complexos subterrâneos que testam o limite de sua capacidade de sobrevivência, com presença garantida de mutantes, escuridão absoluta e escassez de recursos. Se os desafios são imensos, as recompensas também são: é nas cavernas que o jogo irá entregar as ferramentas mais poderosas, como armas avançadas e instrumentos que irão ampliar sua capacidade de exploração e combate. Também é nas cavernas que se descobre o destino cruel dos passageiros do avião, o acesso para a zona final do jogo e a solução de alguns de seus enigmas.

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Ousaria dizer que jamais explorei cavernas tão tensas quanto as de The Forest. Felizmente (ou infelizmente) elas também se tornam mais fáceis quanto mais se avança. Ainda assim, a sensação de terror diante de cenas grotescas nunca desaparece por completo. A incerteza do que pode estar na próxima esquina... os lamentos dos canibais... a aparição súbita de uma criatura rejeitada pela natureza.

Emergir da caverna é a síntese de terminar The Forest: emergir das profundezas primais de volta para a claridade, com a certeza de que a civilização triunfou mais uma vez, ainda que escolhas hediondas tenham sido feitas na escuridão da razão. Mal podemos esperar pelo retorno em Sons of the Forest...

Ouvindo: Assemblage 23 - Light

Um comentário:

Ramon disse...

Este mês sai em acesso antecipado Sons of The Forest, praticamente a sequência de The Forest. O jogo parece mais macabro ainda. Espero que a Endnight tenha aprendido com os erros e corrigido para melhor a experiência no novo jogo. Sou bem zé casinha e cago de medo de sair explorando aí. Sendo assim, quero muito que tenham aumentado as possibilidades de construções de bases.

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Blog criado e mantido por C. Aquino

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