Retina Desgastada
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11 de setembro de 2022

Jogando: Broken Age

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Terminei Broken Age movido pela força do ódio e pela necessidade de completar uma série no canal, que até agora não foi assistida por mais de cinco pessoas. Ainda assim, cinco pessoas que precisam ser alertadas sobre o desastre em que a aventura tresloucada de financiamento coletivo da Double Fine Games se transformou, mas que serão muito mais felizes assistindo do que efetivamente jogando.

O que mais entristece em Broken Age é a mutação pela qual o jogo passa entre seu primeiro ato e o segundo. Isso explica por eventos que aconteceram durante seu desenvolvimento. Tim Schafer, a lenda viva do gênero de adventure, um veterano da era de ouro da Lucas Games, com títulos fundamentais em seu currículo, como Full Throtle, Grim Fandango e Psychonauts, passou o chapéu em 2012, através do Kickstarter. Pedia 400 mil dólares dos fãs para fazer um novo adventure que seria similar aos clássicos que ele mesmo havia entregado anteriormente. Em nove horas, meta foi atingida. A promessa acabou fazendo chover mais de 3.45 milhões de dólares em seu bolso, até hoje um dos maiores resultados já registrados na plataforma de crowdsourcing. Parecia um sonho se concretizando, o começo de uma nova era livre de interesses corporativos, em que o Autor trabalharia diretamente para o Consumidor.

Essa era se quebrou.

O desenvolvimento de Broken Age se complicou a tal ponto que ficou claro que o orçamento daria para cobrir apenas metade do jogo, mesmo assim com atraso. O chamado primeiro ato foi lançado separadamente e suas vendas deveriam financiar a produção do segundo ato. Atualmente, as duas metades são vendidas como um jogo só, como deveria ter sido desde o início.

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Entretanto, é nítida a divisão, não apenas dentro da trama, como pelo seu tom. Eu sabia de antemão que Broken Age era vilipendiado pelos fãs dos adventures e por boa parte da crítica, mas aceitei o desafio de experimentá-lo. Afinal, o conjunto de experiências de um jogador, ocasionalmente, também precisa passar por títulos ruins. Para minha surpresa, o primeiro ato de Broken Age é mágico e envolvente.

Não sou o melhor jogador de adventures do mundo e fico profundamente irritado com puzzles sem sentido que são coerentes apenas nos intrincados mecanismos cerebrais de seus criadores. Encodya está aí que não me deixa mentir. Por outro lado, empresas como a Telltale perceberam que não são necessários enigmas obscuros para se contar uma boa história. A primeira metade de Broken Age então me apresentou uma trama intrigante, dividida entre dois personagens aparentemente díspares: uma confeiteira chamada Vella, que será oferecida em sacrifício a uma criatura fantástica; e Shay, um garoto espacial, mimado pelo computador de bordo, que anseia por aventuras e se envolve com um lobo falante.

A Double Fine Games entrega nessa primeira parte um conjunto de desafios suaves e muito fluidos, em que é possível fazer a conexão clara e limpa entre os componentes. As soluções caminham de forma natural e não se colocam na frente do universo inusitado que estamos explorando. Temos aqui uma sociedade que vive entre as nuvens, bichinhos feitos de pano que vivem entre montanhas de sorvete, servos cegos de um deus caolho, uma árvore falante que odeia lenhadores e outras situações e personagens cativantes que misturam contos de fada e ficção científica.

Nada do que vi e amei no primeiro ato poderia me preparar para a reviravolta que acontece entre os atos e que me pegou realmente de surpresa. Porém, nada do que vi e amei no primeiro ato poderia me preparar para o sufoco, o tédio e o desprezo que me aguardavam no segundo ato.

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Ao invés de introduzir novos cenários e situações, o jogo recicla elementos. A grande vantagem é que há uma mudança de perspectiva e uma mistura gostosa de se observar. Se Broken Age narrativamente não nos apresenta novos encantos, ele reaproveita e reforça o que o tornou radiante anteriormente.

Lamentavelmente, tudo isso se perde atrás de mecânicas insuportáveis de puzzles indecifráveis, mesmo com o uso de guias. Os fãs de adventure tradicionais reclamaram que o primeiro ato estava casual demais e Tim Schafer enlouqueceu no segundo ato. O resultado disso é uma jogabilidade que irritou até mesmo os fãs mais hardcore. É evidente que o design dos puzzles se tornou obscuro e sem charme. A necessidade de se revisitar com frequência lugares distantes só piora a sensação de que Broken Age havia se tornado um trabalho para mim, um título que precisava ser terminado apenas para ficar completo em um canal de poucos acessos. O prazer de se descobrir lugares novos cedeu espaço a constantes idas e vindas, de pegar o item A e ver se talvez ele funciona no ponto Z, no outro lado do mapa. Se funcionar, retorne ao ponto X para conseguir o item B, para tentar entender como ele irá se encaixar no ponto Y. Repete.

São dois jogos, duas direções, dois tons convivendo na mesma obra. O primeiro ato de Broken Age receberia facilmente uma nota 9 se eu estivesse ainda usando o sistema de nota, enquanto o segundo ato receberia um desastroso 3, talvez até largado pelo meio do caminho. E a história, aquela com a qual eu estavam me importando no começo, recebe um desfecho morno, sem direito a um mísero epílogo para me dizer o que aconteceu depois com aqueles personagens adoráveis.

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Juntando trilha sonora e direção de arte, Broken Age é um belíssimo exemplar do que não deve ser feito nessa indústria, sobre como um mestre pode perder a mão de vez em quando, sobre sonhos financiados que não correspondem ao que se esperava, uma pílula dourada de sabor delicioso, que termina por entalar na garganta e deixa um amargor permanente na boca.

Ouvindo: Parapraxis - Eternal Curse

2 comentários:

Nulagem disse...

Pelo menos umas 3x por semana eu entro aqui, haha. Não vi os vídeos, mas de antemão já sei que esse tipo de adventure baseado em puzzles não é pra mim. Que sirva de alerta para os colegas fãs do gênero.

raphael aremusica disse...

Que tristeza ler isso, eu fui um dos financiadores na época mas só acompanhei por alto a confusão do desenvolvimento.

Joguei a primeira metade e concordo com tudo que vc escreveu sobre ela, porém qdo saiu a segunda parte eu acabei não jogando e estou com essa pendência até hoje, no entanto esperava algo na mesma linha, nunca imaginaria que mudaria tanto assim.

Agora, depois de ler isso, vou acabar adiando por mais tempo ainda a finalização do jogo hehehe

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Blog criado e mantido por C. Aquino

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