Retina Desgastada
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7 de fevereiro de 2021

(não) Jogando: Encodya

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(publicado originalmente no Gamerview)

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Pode parecer que o cyberpunk "está na moda" por causa do trabalho recente da CD Projekt com Cyberpunk 2077, mas o fato é que nunca as lentes artísticas do gênero foram tão necessárias para se compreender o mundo em que vivemos e Encodya não é uma exceção ou clone. Uma sociedade indiferente aos excluídos, dominada pela tecnologia, com o controle de vidas de nações inteiras nas mãos de um punhado de corporações, a selva urbana mais selvagem do que nunca... Aquilo que William Gibson e outros anteviram nos anos 80 é a nossa realidade agora, descontado o neon e as armas de monofilamento.

A Chaosmonger Studio se aventura por um terreno essencialmente marcado pela crítica social com uma obra que flerta com a literatura infantil e parece não se decidir sobre pra qual público se destina. Como um monstro cibernético desconjuntado, seu adventure tenta conciliar, sem êxito, uma arte exuberante, uma trilha sonora cativante e personagens simpáticos com um mundo cruel, mecânicas ultrapassadas de longa data e um enredo que não faz jus ao universo que propõe.

Era Uma Vez...

... uma pobre menina órfã conhecida como Tina. Seu único companheiro nessa vida é o robô Sam, um colosso desajeitado e gentil que funciona como sua babá desde o nascimento. Tina vive nas ruas, vivendo de restos de uma sociedade que finge que ela não existe. É realmente deprimente ter que abrir o jogo com uma missão em busca de comida e se satisfazer com um pedaço de lasanha catado no lixo.

Apesar das inevitáveis referências a sua situação, o jogo tenta manter um astral positivo que acaba entrando em conflito com o que vemos. Encodya é uma fábula disfarçada sobre uma menininha predestinada a salvar seu mundo ou é uma sarcástica crítica às mazelas urbanas e os perigos oferecidos pelo consumo excessivo de tecnologias? Porque, sim, Tina tem um grande futuro nessa aventura, como inclusive é previsto por uma velha cigana em um dos vários becos de Neo Berlin.

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As ruas de Neo Berlin.

Essa cidade futurista quase entra como um terceiro personagem, sendo outro dos grandes charmes do jogo. É óbvio ululante que Tina foi projetada para conquistar a simpatia imediata, com seu jeito meio Tank Girl meio Shirley Temple. O mesmo acontece com Sam e seu olhar desencontrado, que exala doçura. Porém, Neo Berlin brota como uma presença quase palpável na trama, através de uma arte minuciosa, embora não muito criativa.

O que você espera de uma cidade cyberpunk você irá encontrar aqui: neon por todos os lados, ruas imundas, publicidade escancarada, caracteres japoneses (que os próprios habitantes confessam não entender o motivo), carros voadores e viciados em ciberespaço. Entretanto, a abundância de minúcias traz uma palpabilidade inesperada e você sente que seria possível viver ali, ou, no caso de Tina, buscar a sobrevivência.

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Aqui a gente faz RTX no braço, chupa Cyberpunk 2077!

Entretanto, Neo Berlin e suas vielas sórdidas, mas acolhedoras, que me fizeram começar a questionar quem seria o público alvo de Encodya. O claro contraste entre sua protagonista e seu cenário levantam dúvidas. Essa não é uma cidade para contos de fadas, ainda assim o roteiro e os conceitos que ele apresenta servem de palco para uma moralidade tão preto no branco que fariam Mickey Mouse feliz. A metáfora política aqui presente (e que a Chaosmonger Studio insiste em tratar como uma mera coincidência, se omitindo de assumir qualquer responsabilidade) é tão forçada que se torna risível para um adulto. Em contrapartida, há elementos na trama, principalmente seu final verdadeiro, que deixariam uma criança desconfortável.

Ainda que eu seja um ferrenho defensor da indivisível união entre arte e política e até mesmo concorde com os pontos de vista que a desenvolvedora defende, sua execução na atmosfera do jogo beira o medíocre, uma caricatura de posicionamento, um esbravejar pueril, quando não inofensivo, que encaixa mal no resto da aventura.

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Um prefeito mal-intencionado que também é um baixinho que gosta de subir em cadeiras e se chama Rumpf. Muito sutil.

Encodya é Um Adventure, Sem Dúvida Alguma

Assim como o "cyberpunk", o termo "adventure" também traz consigo uma carga de expectativas que vem de décadas atrás. Nesse caso, Encodya opta pela tradição. Alguns dos mais antigos problemas do gênero reaparecem no jogo em pleno ano da graça de 2021. A saber, temos: caçada por pixels na tela, combinação aleatória de objetos sem muito nexo e pistas falsas.

Encodya até tenta facilitar um pouco para uma audiência mais impaciente, incluindo a opção de destacar levemente na cena os objetos com que se pode interagir e um sistema de dicas com o robô Sam. Porém, é certeza de que essas ferramentas não serão satisfatórias. É possível (e eu dou testemunho) apertar o botão para destacar objetos e mesmo assim não avistar aquela pedra minúscula iluminada na tela ou um galho levemente diferenciado em uma árvore. Além disso, as dicas oferecidas por Sam são tão úteis quanto os enigmas do Mestre dos Magos, daquele desenho que também é cria de décadas passadas.

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Não faça perguntas. Há uma explicação para isso.

Alguns itens do seu inventário precisam ser combinados para funcionar, mas nem sempre seguem uma lógica. Além do mais, alguns artefatos estão ali tão somente para atrapalhar, sem qualquer função na narrativa ou nos puzzles. Ainda que Encodya se livre de algum lixo entre um capítulo e outro, há objetos que permanecem com Tina praticamente do começo ao fim do jogo e você irá se perguntar a todo momento quando será a hora de eles finalmente resolverem algo.

Essa dinâmica das pistas falsas se manifesta também em locações e situações que não tem resposta no jogo. Você pode quebrar a cabeça, tentar alternativas de diálogo, combinar objetos e ainda assim nunca conseguirá entrar em determinados locais.

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Um dos segredos colecionáveis escondidos no jogo.

A lógica é jogada longe, e cito apenas um exemplo, quando uma caixa de controle funciona mesmo com o fio partido entre a caixa e aquilo que ela controla. Quanto tempo perdido imaginando uma forma de consertar o fio… Em contrapartida, há eventos na trama que claramente estão ali para alongar a trama, como a insistência de um personagem em realizar um piquenique no pior momento possível.

Por último, prepare-se para bater perna entre os diferentes cenários disponíveis porque o infame backtracking é constante. Se serve de algum consolo, Neo Berlin não é totalmente estática. Entre os capítulos, os lugares passam por alterações e você pode acabar vendo-os sob uma nova perspectiva, principalmente em relação a seus habitantes.

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Os melhores coadjuvantes do jogo? Talvez.

Charme Para Dar e Vender

Com tantos problemas pela frente, o que me fez avançar em Encodya noite após noite, após um dia inteiro de trabalho mental? O carisma de seus personagens. Não vou negar que Tina e Sam conseguiram se infiltrar em meu peito, muito por causa do estilo visual ímpar que seus designers conquistaram e muito também por causa do excelente trabalho de seus dubladores. Querer desvendar o mistério que cercava essa menina órfã e vê-la, talvez, mostrar o dedo do meio para os poderosos era minha gasolina.

Explorar Neo Berlin também se revelou prazeroso (se não parar pra pensar nos diversos loadings das idas e vindas), com algumas histórias paralelas. Ainda mais porque o jogo traz uma boa trilha sonora, com destaque para Maisy Kay, de quem eu sequer havia ouvido falar antes de Encodya.

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Maisy Kay em Encodya.

A jovem londrina é uma mistura de cantora e digital influencer, que produziu o jogo e conseguiu se introduzir na trama como uma personagem presente em Neo Berlin. É um casamento estranho entre o cyberpunk e o mundo real, uma união que começou lá atrás com David Bowie e Omikron e foi meio que esquecida desde então. Há algo de metalinguagem nesse inusitado encontro, principalmente se levarmos em consideração as circunstâncias que cercam a Maisy Kay virtual, uma cantora aprisionada em um tubo em uma lanchonete. Dona de uma bela voz, sua participação no jogo é discreta, mas marcante.

Ainda assim, Encodya não entrega suas promessas, com uma resolução que parece prematura e ilógica, seguida de uma reviravolta cruel nos pós-créditos. O gênero cyberpunk não é uma estrada para todos, não é modismo, não é apenas uma estética, não é apenas cyber, mas também é punk. Infelizmente, o título da Chaosmonger Studio tenta fazer parte da gangue, mas não convence, tenta ser uma fábula, mas pesa sua mão, tenta ser uma crítica política e soa frágil.

Ouvindo: Serj Tankian - Beatus

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