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25 de abril de 2022

Jogando: LEGO Star Wars: The Skywalker Saga

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(publicado originalmente no Gamerview)

George Lucas tinha a perfeita noção do que estava fazendo em 1978: resgatar a aventura e a emoção de ir ao cinema em uma aventura fantástica disfarçada de ficção-científica. A TT Games também tinha a perfeita noção do que estava fazendo com LEGO Star Wars: The Skywalker Saga: capitalizar em cima da nostalgia dos fãs e de toda uma nova geração de filhos de fãs.

Com o sucesso garantido, não importando o que a crítica escreva ou a recepção morna dos últimos filmes, a desenvolvedora seguiu o caminho de sempre, a testada e aprovada fórmula LEGO. O resultado é uma adaptação que encanta, mas um jogo mecanicamente raso e com pouco sal.

Que a Força Esteja Com o Fã

Lego Star Wars é um casamento de longa data. Originalmente, os bonequinhos e os bloquinhos foram utilizados para recontar a trilogia de prequel (Episódios I ao III). Com o sucesso, um ano depois, a desenvolvedora TT Games lançou a continuação, adaptando os clássicos (Episódios IV ao VI). Depois, foi lançado a chamada "Complete Saga", reunindo todos os filmes. Nem imaginavam que a Disney ressuscitaria a franquia… Tanto foi que o terceiro Lego Star Wars era uma adaptação do arco das Guerras Clônicas, explorado originalmente em animação.

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Então, veio O Despertar da Força e a Lego dedicou um jogo inteiro exclusivamente para o retorno da saga. A expectativa era de que essa abordagem se repetiria. Entretanto, Os Últimos Jedi veio e foi embora, sem um jogo Lego para chamar de seu. O mesmo se repetiu com a conclusão (até agora) A Ascenção Skywalker.

Enquanto isso, nos bastidores, a TT Games cozinhava a versão definitiva: LEGO Star Wars: The Skywalker Saga, um colosso de jogo que iria contar ou recontar os nove filmes de uma vez só. A maratona exige fôlego do jogador, da mesma forma que exigiu de seus desenvolvedores, principalmente porque houve uma pandemia no meio do caminho. É, de longe, a empreitada mais ambiciosa em termos de jogos Lego. O resultado é imenso, tanto em escopo, quanto em personagens, cenários e histórias.

Tanto tempo de desenvolvimento está refletido no visual. Comecei minha jornada como qualquer fã das antigas faria: pelas paisagens desérticas de Tatooine, em Uma Nova Esperança. O impacto das paisagens no motor gráfico me pegou de surpresa. Para um título com personagens de brinquedo, com blocos que se quebram, os cenários são incrivelmente realistas, com texturas de altíssima qualidade e efeitos de iluminação de tirar o fôlego. Os combates de sabres de luz são um espetáculo à parte.

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O mesmo apuro técnico pode ser percebido nos efeitos sonoros e na sempre magnífica trilha sonora. Nesse quesito, o mérito vai mesmo para as obras originais. Vale destacar a dublagem como um ponto forte, mas também como um ponto fraco. Por um lado, foi possível repetir dubladores inesquecíveis como a voz de C3-PO ou o dublador atual de Boba Fett (que, por motivos de clonagem, também é a voz de Jango Fett e das tropas da República).

Em contrapartida, o dublador de Darth Vader recebeu a inglória tarefa de substituir uma das vozes mais icônicas da história do cinema e não dá conta do recado. A pobre alma não pode contar nem mesmo com um efeito metalizado na voz e a nossa imersão acaba prejudicada. Além disso, a melhor piada Lego de toda história de Star Wars, o momento em que Vader explica, sem falas, que é pai de Luke Skywalker, aqui dá espaço a um diálogo sem nenhuma piadinha que apenas emula o filme.

Nem todos os méritos de Lego Star Wars repousam nos ombros da obra original. O humor típico dos títulos Lego se faz presente, pontuando tanto as cenas principais como o pano de fundo com uma metralhadora de situações cômicas. Essa simpatia é bem empregada inclusive nos momentos mais sombrios da jornada (como o massacre dos Tusken Raiders, perpetrado por Anakin Skywalker), enquanto outros momentos (como o massacre das crianças, também perpetrado por Anakin Skywalker) são simplesmente ignorados.

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Há Muito Tempo em LEGO Star Wars…

Com sete dos nove filmes já adaptados anteriormente por Lego, comparações são inevitáveis. É evidente que O Despertar da Força teve muito mais espaço anteriormente, então sua versão agora é uma corrida enxuta pela mesma trama. Porém, os filmes mais antigos podem ser comparados quase um por um. Curiosamente, elementos que fizeram falta lá atrás estão presentes em LEGO Star Wars: The Skywalker Saga, como a travessia submarina em Naboo ou a batalha entre os Gungans e os Battle Droids, em A Ameaça Fantasma; a luta contra monstros na arena em O Ataque dos Clones; e outros.

Porém, grandes momentos dos jogos passados são ignorados, como a grande batalha especial no começo de "A Vingança dos Sith". É evidente que a TT Games está evitando se repetir em LEGO Star Wars: The Skywalker Saga. Até mesmo os momentos em comum nas duas gerações recebem uma abordagem diferente.

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Essa busca por um distanciamento gera tanto momentos superiores, como a impressionante batalha contra Darth Maul, como momentos que já foram feitos de forma melhor anteriormente, como a batalha de Hoth. Duas tentativas depois, a desenvolvedora segue nos devendo uma corrida de Pods satisfatória, então, Star Wars Episode I: Racer será para sempre a melhor representação dessa sequência.

Esse retorno ao universo de Star Wars é marcado pela abundância de conteúdo adicional. Se a campanha traz aquela corrida frenética de toda adaptação Lego, assim que o jogador tem acesso ao mundo aberto e sua exploração, a jogabilidade se transforma em um gostoso mergulho em tramas paralelas em mapas que são até pequenos, mas bastante variados. É nesse instante que a TT Games solta a criatividade que eles tem e o profundo conhecimento dos cantos mais curiosos ou obscuros do cânone de Star Wars.

Via DLC, LEGO Star Wars: The Skywalker Saga traz ainda pacotes de personagens de Mandaloriano (como deve ser), Solo (que ninguém pediu), Rogue One (amor eterno) e outros derivados.

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Eu Tenho Um Mau Pressentimento Sobre Isso

Apesar das inúmeras qualidades do jogo e de minha paixão por Star Wars, que não se deixou abalar nem mesmo por uma sequência de filmes que não me agradaram, não posso fechar os olhos para os defeitos de LEGO Star Wars: The Skywalker Saga. O principal deles é a absoluta ausência de senso de desafio. Nem os puzzles, nem os combates apresentam a mínima dificuldade, o que os aproxima bastante de uma tarefa enfadonha em direção à próxima cutscene engraçadinha.

É evidente que a Lego está em busca do menor denominador comum e que o foco de toda a linha sempre foi o público infanto-juvenil. Ainda assim, houve um tempo em que os jogos Lego eram minimamente complexos. Não do tipo em que você empaca ou xinga o computador. Lego nunca foi Dark Souls e nem deveria ser. Porém, reduzir a dificuldade cada vez mais a cada nova iteração leva a um patamar muito raso, que pode acabar afastando até a mesmo a parcela de jogadores que eles procuram. Lego se aproxima de Gigantosaurus The Game, bonito, fofo, mas insuportável de ser jogado se você tem mais de seis anos de idade.

LEGO Star Wars: The Skywalker Saga nos oferece um sistema de combos aéreos que o levaram a ser apelidado de Lego May Cry na internet, porém, o sistema não apenas é simplista, como também é desnecessário: você pode vencer todas as lutas simplesmente macetando os botões até se cansar. Isso, sem mencionar as mecânicas de ativar portas e mecanismos que podem ser resolvidas com movimentos mínimos e repetitivos.

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Sem uma jogabilidade divertida, o processo de explorar os mundos abertos perde peso. Com os melhores personagens desbloqueados durante a campanha, apenas o jogador mais dedicado irá passar por mecânicas sem sal para liberar a chance de jogar com aquele piloto rebelde que passou piscando em cinco segundos nos cinemas ou aquele dróide exótico que apareceu em uma revista publicada trinta anos atrás.

Além disso, a TT Games parece ter esgotado sua capacidade de fornecer bons momentos. Entremeados com sequências boas e bem adaptadas, temos tarefas insossas que adaptam momentos nada importantes dos filmes. Essa inconsistência está presente ao longo dos nove episódios e você nunca sabe quando vai ficar preso em uma cena que se arrasta sem necessidade, que durava um minuto nos cinemas. Quantos de vocês acham que uma batalha de dez minutos contra Jabba the Hutt é mais interessante que Leia estrangulando a lesma alienígena com as próprias correntes? Se não é possível mostrar o destino do vilão em um jogo infanto-juvenil, a cena poderia ser pulada ou transformada em uma cutscene.

Por apresentar vários hubs de cenários diferentes, para atravessar a campanha, o jogador precisa suportar uma grande variedade de telas de carregamento. Eu não sei como isso ficou em um console moderno, com todas as tecnologias de carregamento instantâneo, mas, em um PC com SSD, o excesso de interrupções em LEGO Star Wars: The Skywalker Saga é um ponto negativo.

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Por último, como não podia deixar de faltar em um jogo Lego, duas vezes aconteceu um travamento que me devolveu para a Área de Trabalho do Windows antes de salvar meu progresso. Para ser totalmente honesto, é até uma evolução: jogos Lego de dez anos atrás apresentavam uma quantidade muito maior de bugs e fechamentos abruptos. Porém, não posso deixar de citar essas duas quedas em um título que deveria ser o ápice da desenvolvedora.

Poderia ser questionável se a TT Games deveria ter se lançado nessa empreitada de adaptar nove filmes de uma vez só. Considerando-se o peso da franquia e a idade da tentativa anterior, é perfeitamente justificável se buscar apresentar o casamento dessas duas marcas para uma nova geração de jogadores e fãs, com tecnologia de ponta. É de se lamentar apenas a redução da dificuldade dos desafios e seus outros defeitos que impedem LEGO Star Wars: The Skywalker Saga de alcançar a excelência que o projeto deveria ter.

Ouvindo: Das Ich - Firmament

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