Retina Desgastada
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11 de abril de 2020

(não) Jogando: Gigantosaurus The Game

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(publicado originalmente no Gamerview)

Nunca tive nada contra desenhos animados e ter sido pai nos últimos doze anos só aumentou meu conhecimento sobre o assunto. Tampouco acredito que adaptações de desenhos em forma de jogo são inerentemente ruins.

Entretanto, só pela abertura dessa análise você já deve ter percebido aonde eu quero chegar. Lamentavelmente, por mais charmoso que seja, Gigantosaurus The Game é o tipo de jogo que só tem dois públicos possíveis: os muito pequenos e aqueles que gostam de apontar e falar que jogos de desenho são todos uma porcaria.

Tatibitate

Talvez seja novidade pra você, como foi para mim, mas Gigantosaurus é o nome de uma série de animação desenvolvida para crianças na pré-escola e exibida pela Disney em alguns países. Isso coloca o desenho original mais próximo de Backyardigans e Teletubbies do que de Ben 10 ou mesmo Patrulha Canina. Para alegria dos pequerruchos e tormento dos marmanjos, o jogo mantém o mesmo tom na hora de se comunicar com o jogador. Tudo em Gigantosaurus The Game é mastigadinho como papinha de milho verde e inofensivo como cantos acolchoados.

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Aqui, o jogador assume o controle dos quatro protagonistas da animação, quatro filhotes de diferentes dinossauros, vivendo em uma pré-história que você já viu em vários outros universos, como Em Busca do Vale Encantado ou O Bom Dinossauro, com a candura do primeiro mas nada da originalidade do segundo. Crianças adoram dinossauros e, aparentemente, é tudo que basta para o show ou para o jogo.

Ao controlar os quatro protagonistas, podemos alternar entre eles ou jogar localmente com um amigo (embora não tenha funcionado aqui em casa). É uma mecânica que também já vimos antes em outros jogos, principalmente entre os títulos da franquia Lego. A ideia é que cada personagem tenha uma habilidade específica, que precisa ser utilizada para resolver puzzles e desbloquear caminhos no mapa. Entretanto, serão raríssimas as vezes em que esses "poderes" serão evocados e o jogador só poderá fazer isso em pontos determinados e muito bem sinalizados no cenário.

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A premissa que funciona como história (apresentada em uma longa cutscene inicial) é que raptores furtaram um ovo de dinossauro. Ao se tentar recuperar esse ovo, foi desencadeada uma série de eventos que virou o mundo de pernas pro ar: muito mais ovos estão espalhados agora, assim como colmeias de abelha, nozes, sementes de árvores e literalmente dezenas de outros elementos. Cabe aos protagonistas arrumar essa confusão e deixar todo mundo feliz.

Acumuladores

O narrador é tão irritante, com aquela vozinha que os adultos insistem em fazer para as criancinhas, que existe uma opção no menu para zerar o volume da sua voz. O dublador brasileiro está de parabéns por ter conseguido me fazer usar esse recurso. Dá para acompanhar o fiapo de trama através das legendas, então, se você tem mais de dez anos de idade, não há prejuízo nenhum. O narrador não é o único elemento de áudio que dá nos nervos. A própria música do jogo, em loop, cansa os ouvidos depois de uma hora e ajuda na impressão de que tudo é repetitivo.

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Não que a trilha ou a narração façam diferença: vamos ser honestos. A proposta de Gigantosaurus The Game é soltar a molecada no universo do desenho e isso ele faz a contento. Com cinco zonas diferentes, cada mapa é colossal, com várias áreas para serem acessadas e muita, muita, mas muita coisa mesmo para ser coletada. É quase impossível andar três metros sem esbarrar em algo para pegar, principalmente sementes. Essas sementes podem ser utilizadas para comprar fichas de personagens na seção de Extras e são garantia para deixar seu filho pequeno entretido por horas, se ele conseguir manter o foco.

Para o jogador adulto, tudo tem a impressão de ser um trabalho enfadonho: caminhar para cada canto do território para encontrar os ovos e depois levá-los, um a um, para seus respectivos ninhos. Não há nem mesmo a emoção de encontrar os ovos ou as nozes ou as colmeias, já que estão marcados no mapa. Há tão somente o ir e vir constante por um cenário desprovido de perigos. Na eventual hipótese de uma abelha te picar ou uma planta carnívora te dar uma dentada, o personagem controlado perde apenas um sexto de sua vida, que pode ser recuperada tranquilamente com as flores espalhadas por toda parte.

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Ao completar todos os ovos de uma região, somos contemplados com a possibilidade de ir para outra em uma divertida corrida de veículos pré-históricos. Não estou sendo irônico: esse é um raro momento em que o jogo realmente brilha. São sessenta segundos ou menos de uma corrida frenética, que também tem dificuldade zero, mas pelo menos é acelerada e dá alguma sensação de desafio. O que é bom termina logo e estamos de volta na função de acumuladores. Gigantosaurus The Game perdeu uma ótima oportunidade de ser um jogo de kart mediano.

A Molecada Pira!

gigantosaurus-coverPara quem nunca jogou um sandbox na vida ou nunca controlou um personagem 3D em terceira pessoa ou é um fã do desenho animado, o título da WildSphere é um prato feito. Ou seja, crianças que estão começando no mundo dos jogos eletrônicos. Não consigo pensar em uma forma melhor de apresentá-las a esse universo, sem a necessidade de lançá-las de imediato nos desafios de um Mario ou um Sonic, que podem provocar ragequits às vezes até em homens barbados. Gigantosaurus The Game é a rodinha da bicicleta, é o andador de quem está em seus primeiros passos.

Por esse prisma, a desenvolvedora não erra em nada. Não há bugs, não há lombadas no caminho, o jogo mantém a atmosfera do desenho original e está totalmente em Português. Se você tem crianças pequenas em casa, esse é um jogo que pode ser bastante divertido, talvez mágico. Até seus gráficos simples podem ser vistos como uma vantagem, já que provavelmente o título deve rodar até mesmo em uma batata.

Caso contrário, há jogos muito melhores no mercado com temática fofa ou baseados em desenhos animados.

Ouvindo: Amplifire - Perfect Goodbyes
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