Retina Desgastada
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7 de julho de 2021

(não) Jogando: Risen 2 - Dark Waters

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Demorei 27 horas em vários meses, entre idas e vindas, tempestades e calmarias, para perceber que continuava em Risen 2 movido tão somente pela inércia e pelas glórias passadas lado a lado com a Piranha Bytes. Em nome do que vivemos juntos no primeiro Risen e em nome dos grandes tempos da franquia Gothic, eu buscava ali um lampejo da imersão de seus jogos anteriores, ria de seus gracejos com mais um protagonista sarcástico e aguardava aquelas batalhas épicas ou aqueles territórios mágicos lotados de segredos. Enquanto isso, lutava contra seu mais obtuso e preguiçoso sistema de combate já criado, um loot desinteressado no limiar para me manter entretido em busca do próximo e me confrontando com representações próximas da controvérsia do colonialismo europeu.

No final das contas, o golpe de misericórdia foi uma batalha que não conseguia vencer. Faz parte da fórmula sagrada da desenvolvedora alemã não pegar o jogador pela mão, mas trazer para a tela um universo bem abrangente que convida ao improviso, um mundo que reage à inventividade de quem aceita esse desafio. Em outras palavras, quando uma abordagem mais direta, de peito aberto, não funcionava, sempre era possível contornar obstáculos, engatilhar uma malandragem, burlar suas regras, ou pura e simplesmente aprimorar seus atributos para uma vitória menos árdua.

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Desta vez, nada disso importava. Ou tinha eu tomado o infame caminho sem volta dos RPGs desbalanceados, no qual uma série de decisões impensadas do jogador evoluem o personagem da forma errada, ou a Piranha Bytes tinha mesmo cometido um erro irreparável ao não avaliar todas as opções de um jogador. Havia eu gastado pontos demais em vodu e pontos de menos em armas de fogo? Havia investido demais em perícias de ladrão e deixado de lado o aprendizado de combate corpo a corpo? Não deveria a desenvolvedora estar preparada para uma eventualidade dessas ou teriam seus criadores se esquecido de lições aprendidas com seus próprios trabalhos anteriores?

Tentar diversas formas de passar daquele ponto e esbarrar na tela de carregar o save de novo e de novo me ajudaram a colocar minha experiência em perspectiva. Havia muito tempo que eu queria começar essa análise, estabelecer pelo menos um "Primeiras impressões", mas o momento nunca parecia apropriado. Duas dezenas de horas depois estava evidente o motivo de não ter feito isso antes: Risen 2 nunca estava pronto, nunca saía de um tutorial contínuo, em que o protagonista nunca parece atingir o seu potencial pleno, permanentemente rastejando pelos cantos, evitando perigos e evoluindo habilidades e equipamentos a conta-gotas.

Piratas do Caribe

Uma das principais reclamações a respeito do jogo é sua ambientação com temática pirata. Não passei por essa repulsa. Na verdade, curti a mudança de paradigma, a quebra da enxurrada de RPGs sobre fantasia gótica que enxameia o gênero. Empacado com Risen 2, procurei um pouco de alento em Salt, um jogo de sobrevivência também sobre piratas.

Talvez minha única reclamação seja a ruptura abrupta com o que vimos anteriormente no primeiro Risen. É gritante o salto "cronológico" entre os dois títulos. De uma hora para outra (e acredito que tenha se passado no máximo um par de anos para o protagonista), toda a sociedade foi reestruturada. Armamento, tecnologias, o abandono da magia, vestuário, até mesmo o sistema político parece dois, três séculos à frente, sem nenhuma explicação além de "a Inquisição baniu o uso da Magia". A descoberta da pólvora deve ter sido mesmo uma revolução nesse cenário.

Tivesse sido Risen 2 um jogo com outro nome teria feito mais sentido. Porém, como dez anos (!) separaram esse jogo da minha experiência com o primeiro Risen, a transição foi bem suave.

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Encontramos então o Herói Sem Nome (outra marca registrada da Piranha Bytes) integrado à Inquisição. É o mesmo grupo que tentou matá-lo no passado e cujo ataque lhe custou um olho, mas nenhum dos eventos parece guardar qualquer importância na narrativa. O núcleo dessa nova aventura será mesmo Patty, a coadjuvante pirata do jogo anterior. O pai dela guarda um segredo fundamental para derrotar Mara, a Titã dos Mares que ameaça destruir o Império, que depende dos oceanos para comércio e comunicação. O despertar dos Titãs é apenas mencionado rapidamente aqui, então, se você não jogou o primeiro Risen, não terá dificuldade para acompanhar a história dessa continuação que não é bem uma continuação.

A partir daí temos o que pode ser chamado de o RPG mais aberto da desenvolvedora até aquele momento. Existem regiões enormes para serem exploradas e, a partir de determinado ponto do enredo, você pode até mesmo visitar essas regiões na ordem que desejar. No seu caminho, haverá piratas amigos e inimigos, tribais estereotipados que parecem saídos de um livro de Tarzan, soldados da Inquisição e algumas feras estranhas e monstros, porque não seria um RPG com a marca Piranha Bytes se nem isso tivesse.

Ao contrário de jogos anteriores, em que era fundamental escolher uma entre diferentes facções para se aliar (e lidar com as consequências dessa escolha), aqui o ponto de decisão demora muito para acontecer e, para ser honesto, é desequilibrado. Se você mantiver sua aliança com a Inquisição, terá acesso a armas de fogo melhores e condenará sua experiência a uma sucessão de trocas de tiro que, por um lado, facilitam bastante os confrontos, mas, por outro lado, tornam o combate repetitivo e bem distante dos RPGs tradicionais. Se você decidir se aliar com os nativos, o que deveria ser encarada como a escolha ética, se você se importa com esse tipo de coisa em um cenário de fantasia, então você terá acesso a habilidades exóticas de vodu, que são muito pouco exploradas no jogo, tem pouco peso no combate direto, mas adicionam um diferencial muito interessante à experiência. A impressão que fica é que Risen 2 foi feito para armas de fogo e que a opção do caminho do vodu foi adicionado depois.

Obviamente, optei pelo caminho do vodu. É uma pena que o jogo só me permita utilizar determinados rituais em momentos específicos e sua árvore de habilidades só seja disponibilizada depois que investi muitos pontos em outras direções.

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Esse Navio Está Fazendo Água

Tecnicamente falando, Risen 2 exige paciência. Os gráficos do jogo precisaram de bastante ajuste e pesquisa na internet para que fiquem satisfatórios. Ainda assim, precisei me acostumar com um bug incorrigível: as sombras projetadas "saltam" de posição de tempos em tempos, o que pode até gerar tontura até a vista se adaptar. Alguns mods consertaram outros inconvenientes, mas esse problema da sombra me acompanhou por todo o percurso.

A mecânica de combate praticamente te força para atirar e se afastar. Para você atingir algum nível de proficiência em luta de espada, é preciso desbloquear quase que técnica a técnica, o que exige pontos de experiência, uma boa quantia em ouro e encontrar um professor. São exigências que já tinham sido empregadas antes em Risen ou na franquia Gothic, mas aqui parecem mais taxativas, ou por que a distribuição de pontos é mais desigual ou porque o ouro é escasso ou porque são perícias demais com professores espalhados pelos quatro cantos do império. É comum também desbloquear uma habilidade com sacrifício apenas porque o jogo te obriga ou descobrir que ela não era tão útil assim. Um sistema de zerar e recomeçar a árvore de habilidades, por bruxaria talvez, teria tornado tudo mais agradável.

Então, combinando esquiva, golpes calculados, tiros e malícia, foi possível vencer todas as criaturas que encontrei. O mesmo não podia ser dito dos oponentes humanos. Qualquer inimigo armado transformava a luta em uma troca de tiros sem sal e geralmente injusta ou um duelo de espadas em que o inimigo sempre tinha perícias que eu não tinha. Dois inimigos armados eram uma garantia de morte para mim e exigia uma abordagem bem cuidadosa.

A fórmula refinada da Piranha Bytes costumava seguir o fluxo de um início íngreme que precisava pesar bem as lutas em que se envolvia, mas culminava em um personagem poderoso capaz de dizimar legiões. Quase trinta horas depois, em Risen 2, ali estava eu ainda evitando determinados combates.

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Eu poderia suportar todos esses empecilhos se a veterana desenvolvedora me acolhesse com grandes momentos ou uma exploração recompensadora. Ainda que a história não seja ruim e alguns personagens sejam até mesmo carismáticos, ainda assim me sentia sendo conduzido no automático, com cada região levando incansáveis horas para avançar o enredo principal. Até mesmo descobrir lugares secretos e desbravar caminhos inéditos, dois pilares de Gothic ou mesmo o primeiro Risen, aqui não traziam a mesma satisfação. Acabei me flagrando seguindo trilhas escondidas para encontrar apenas um baú com conteúdo de pouco valor ou mais um bando de macacos para enfrentar. Explorei cavernas que morriam a poucos metros do seu início e penetrei em templos que terminavam em becos sem saída, sem nada de interesse.

Risen 2 acaba se tornando outro projeto da Piranha Bytes repleto de boas ideias e boas intenções, mas assolado por decisões equivocadas de design e uma certa preguiça. Em Gothic 3, esse desequilíbrio ameaçou me afastar do final. No primeiro Risen, a desenvolvedora ampliou alguns defeitos, mas conseguiu dar um grande suspiro de genialidade, prejudicado mais pelo final apressado do que pela execução do todo. É uma pena que a guinada de atmosfera de sua continuação não tenha recebido o mesmo esmero de todo o resto.

Risen 3 supostamente dá um novo giro de 180º e devolve a franquia para sua origem medieval com magia. Gostaria de saber como isso foi implementado em termos narrativos, mas segurarei por mais algum tempo, talvez anos, meu retorno a outro jogo da desenvolvedora. É hora de descer essas velas, deitar a âncora e voltar para a praia com uma ressaca de rum e o amargo gosto de um RPG em que investi tanto tempo, mas não tenho forças para continuar.

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Ouvindo: Moonspell - Ataegina

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