Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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12 de fevereiro de 2017

Um Sonho de Liberdade

"These walls are funny. First you hate 'em, then you get used to 'em. Enough time passes, you get so you depend on them"

Red, The Shawshank Redemption (1994)

Gothic - CoverQuando eu entrei em Khorinis, era para nunca mais sair. Preso por roubar um pedaço de pão, condenado a trabalhar nas minas de minério mágico de Myrtana até o final dos meus dias ou até os Orcs finalmente vencerem a guerra e escravizarem a raça humana. Uma ratazana era capaz de me matar, mas provavelmente outros prisioneiros seriam os responsáveis por meu trágico e doloroso fim, como percebi pela recepção inicial na Colônia.

Eu não era especial, eu não tinha um nome, não havia uma profecia sobre mim, eu não estava infiltrado. Eu era um ninguém e como um ninguém morreria naquele presídio. A única coisa que me diferenciava da escória da sociedade que ali habitava era uma carta que deveria entregar para os magos residentes, mas mesmo assim eu era um mensageiro por uma questão de conveniência e temia imensamente não ser capaz de cumprir essa missão.

Ao final da minha jornada por Gothic, estava equipado com a melhor armadura que um guerreiro pode conceber, forjado pelos meus próprios braços, com uma espada colossal, um mestre no seu uso, comandando uma impressionante força de 8 soldados esqueletos que eram verdadeiras máquinas de matar, enfrentando demônios e, por que não dizer, salvando Myrtana de um Mal milenar.

Nada mal para um zé-ninguém.

Prisão Sem Muros

Gothic 00

O título de estreia da Piranha Bytes é um murro no estômago da fantasia medieval tradicional. Nada de fadinhas, elfos e dragões aqui. O mundo de Gothic é brutal em sua essência: a humanidade está perdendo a guerra contra a avalanche Orc e depende de um mineral mágico para forjar armas encantadas para equilibrar a luta. Para acelerar a produção, o rei decide colocar prisioneiros em trabalhos forçados para extrair o tal Ore. Para acelerar ainda mais a produção, qualquer crime já vale uma passagem só de ida para a Colônia de Khorinis.

Para garantir que ninguém escape, magos erguem uma barreira mística ao redor da colônia, mas o feitiço foge do controle, aprisionando também o castelo onde ficam os guardas e os próprios magos. Além de uma tribo de Orcs que vive na mesma ilha. Nada vivo sai da barreira e há uma rebelião de presos, que tomam o controle da Colônia e passam a barganhar com o Rei: Ore, em troca de suprimentos, mas passa a valer ali dentro a lei do mais forte e a selvageria.

Gothic 01Gothic 02

Tudo isso acontece antes de sua chegada. Como um reles maltrapilho, o mundo está liberado para você. Para o que deveria ser uma prisão, há um horizonte a ser explorado.

Foi provavelmente uma das minhas primeiras experiências com o conceito de mundo aberto e, até hoje, uma das mais marcantes. Vale a regra do "você pode ir em qualquer direção... mas pode não chegar vivo lá". Há perigos em cada recanto desse território, muitos realmente assustadores que só podem ser confrontados quando se tiver o nível e o equipamento adequado.

Para subir na hierarquia desse lugar você deverá se sujeitar a missões humilhantes ou extremamente perigosas das três facções existentes na Colônia. Mesmo em termos narrativos, Gothic também lhe oferece uma extrema liberdade: é possível se aliar a qualquer um dos três lados, que possuem diferentes visões do que fazer com o tempo disponível preso em Khorinis. E cada uma das facções tem uma divisão interna, uma mais voltada para o combate e outra para a magia.

Mas além das intrigas, Gothic oferece um mundo que pulsa vida: cada NPC segue sua rotina em horários específicos, eles não ficam simplesmente esperando que você interaja com eles mas também são capazes de reagir a atos aparentemente inofensivos que você realiza, como furtar objetos ou mesmo dormir em uma cama que não te pertence. Você, definitivamente, não é o herói absoluto desse mundo, a quem tudo é permitido mas alguém em busca de seu lugar, na luta diária pela sobrevivência.

Segredos e Esqueletos

Mas Gothic oferece ainda mais para quem se lançar em seu mapa. Há segredos escondidos em cantos obscuros e mesmo missões paralelas que um jogador comum sequer irá conhecer. Atalhos fantásticos, criaturas idem, muitos aliados inesperados, magos misteriosos e até mesmo reviravoltas que alteram o cenário e o equilíbrio entre as facções.

Gothic 03

E tem os esqueletos. Se eu fosse obrigado a destacar um único momento de Gothic como o símbolo de sua jogabilidade quase emergente é o feitiço de convocar esqueletos. Ele invoca quatro esqueletos que por padrão atacam qualquer criatura em seu campo de visão que poderiam ser hostis ao jogador. E o feitiço é cumulativo: você pode terminar com 8 ou 12 esqueletos (tentei 16, mas eles também tendem a ficar agrupados e o simples choque entre eles já enfraquece seus pontos de vida).

Pegando um destes "atalhos" mágicos acabei parando em um local inesperado e hostil. Para me proteger, invoquei oito esqueletos. Eles lutam muito bem e me tiraram do perigo... apenas para sair pela porta da frente e iniciar uma carnificina que seria hilária se não fosse trágica. Tenho certeza de que teriam dizimado todos os seus alvos se eu não tivesse recarregado um save game...

Gothic 05

Mas Gothic também guarda outras delícias, como o feitiço de transformação. Em uma dessas ocasiões de pura experimentação, saltei do alto de uma torre bem alta e, antes de atingir o solo, metamorfoseei-me de inseto gigante. Parei a centímetros do chão e segui voando em alta velocidade.

(lamentavelmente tanto o feitiço do esqueleto quanto o de metamorfose seriam completamente menosprezados em Gothic 2 e Gothic 3)

Herói Sem Nome, O Bárbaro

Gothic não faria jus ao seu universo se fosse um jogo fácil. O sistema de combate exige uma dedicação ímpar, com ataques que precisam ser sincronizados e exigem o uso de dois botões, para atacar pela esquerda ou pela direita, por exemplo. A Piranha Bytes receberia reclamações nesse sentido e faria ajustes no sistema jogo após jogo até chegar no simplista Gothic 3...

Mas o que parece difícil de dominar a princípio vai se tornando quase uma segunda natureza e o jogador se sente participando de cada golpe, realmente usando o momento certo e até o flanco certo para eliminar oponentes que antes metiam medo. Combinando esse sistema de combate com o uso inteligente de magias e arco e flecha, minha passagem por Khorinis não foi menos do que uma épica, de sua origem humilde com uma espada enferrujada achada no chão até o embate de vida ou morte com o inimigo derradeiro.

Ao final, o Herói Sem Nome forja sua própria lenda, uma que será falada ainda por anos a fio, em continuações que progressivamente foram perdendo o brilho até culminar no execrável Arcania. Ironicamente, entre as barreiras de Khorinis descobri a liberdade de ir e vir e uma franquia e uma produtora que iriam me acompanhar por muito tempo.

Mas isso são outras histórias...

Gothic 04

Ouvindo: Aesthetic Perfection - Spit It Out (Grendel Remix)
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7 comentários:

Raphael AirnMusic disse...

Curiosidade Aquino, já jogou The Witcher? O primeirão mesmo? Estou quase terminando ele pra poder seguir a história no 2, espero algum dia, ir pro 3.

Apesar de vc não ser um zé ninguém como no caso do Gothic, todo o lance de decisão me parece bem semelhante, inclusive a parte de se aliar com uma facção específica.

Imagino que vc vai gostar, recomendo pra qdo tiver um tempo ;)

C. Aquino disse...

Eu tentei começar The Witcher, mas a química não aconteceu. Voltarei um dia, mas não sei quando. http://blog.retinadesgastada.com.br/2014/09/adiando-witcher.html

Raphael AirnMusic disse...

Só vi agora sua resposta e vi que eu já tinha comentado algo lá hehehe... também abri mão daquela tentativa porque tinha decidido jogar no difícil e com um mod que deixava a luta semelhante a uma luta real. Isso foi um erro porque deixou o jogo difícil demais, qualquer inimigo mais fraco já me custava vários minutos pra derrotar e eu parei porque estava apanhando infinitamente para o primeiro chefe! Retomei no ano passado, jogando no fácil mesmo pra poder seguir adiante sem muita dificuldade. Foi uma boa escolha, consigo avançar bem na história sem gastar preciosos e escassos minutos pra derrotar um único inimigo, como estava acontecendo antes.

Enfim, é um jogo pra ser jogado no momento certo mesmo. Caso retome algum dia, sugiro começar no fácil mesmo porque o jogo é antigo, não tem como mudar dificuldade depois de ter iniciado.

Gabriel N. disse...

Texto muito bom, parabéns. Saberia me dizer se esse 1º Gothic foi publicado no Brasil (distribuído oficialmente, com manual em português), ou chegou somente por importação?? Não acho essa informação em lugar nenhum! Abraço^^

C. Aquino disse...

Tenho quase certeza que o primeiro Gothic não chegou em mídia física por aqui. O segundo chegou (tenho original, com caixa e poster que ganhei de aniversário da minha esposa!).

Gabriel N. disse...

Opa, valeu pelo retorno! Pois é, também acho que o 1º não foi lançado não, infelizmente... produção independente européia, publisher reponsável pelo distribuição internacional, Xicat, desconhecida, provavelmente não deve ter tido muito alcance... Estranho que nem a Atari, na época com o sucesso do Neverwinter Nights, ou a Infogrames (BR), Sierra, Greenleaf etc. não tenham conseguido trazer.
Mas com relação ao 2º, fiquei muito curioso com essa versão que você descreveu (com POSTER?!)... até hoje só vi aquela versão em 'caixa média' distribuída pela ATARI aqui no Brasil. Você se refere a essa versão, ou a sua seria uma outra, em caixa grande?? valeu^^

C. Aquino disse...

Conferi aqui, é caixa da Atari. Dentro, envolvido em papelão vieram os três CDs de instalação, um adesivo da Atari, manual do jogo e um poster médio de um gárgula de pedra, mas que não é do Gothic, é provavelmente de Neverwinter Nights (tem o logo da Bioware no rodapé). Nas costas, fala da linha de RPGs da Atari, incluindo o NN, Temple of Elemental Evil e Gothic 2.

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