Retina Desgastada
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24 de abril de 2020

Espaços Liminares

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Pouco antes do funeral de meu pai, em 2018, me foi oferecido um tempo para almoçar perto da capela. Não tinha apetite, estava em uma cidade desconhecida no interior do estado do Rio de Janeiro, o dia estava nublado, mas era a oportunidade de contemplar a calmaria antes da tormenta. Seguindo uma orientação vaga, caminhei em direção ao centro da região. Errei o caminho.

Atravessei ruas desertas, com casas de ambos os lados sem sinal de vida, com pavimentação de paralelepípedo onde não passava carro, não passava gente. Apenas eu debaixo de um céu tão cinzento quanto eu estava por dentro. Mesmo naquele estado de espírito, os paralelos com Silent Hill me alcançaram. Estava no limiar de algo que transcendia a normalidade e o espaço físico ao meu redor era quase reflexo de meu contexto. Não sei precisar por quanto tempo estive nesse estado, mas depois me convenci que estava no sentido contrário, refiz todos os meus passos, fui em outra rua e cheguei na praça central em poucos minutos.

Não sabia naquele momento, mas havia cruzado um espaço liminar. E a evocação de Silent Hill não era coincidência.

O conceito de espaço liminar é recente e quase tão vago quanto aquilo que tenta conter. Pode ser um espaço físico real ou um sentimento. Um espaço liminar pode ser definido como "o momento entre o 'o que foi' e o 'próximo'. É um lugar de transição, uma temporada de esperar e não saber". Mas também cabe a descrição de espaços físicos que estão ausentes de sua função ou que funcionem como pontos de transição entre espaços. Nessa classificação teríamos também lugares abandonados, escadas, elevadores, aeroportos. Em todos essas situações, acontece o desconforto, o sentimento de irrealidade, de transitoriedade.

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Não por acaso Silent Hill é uma cidade-fantasma, situada entre o mundo real e uma não-realidade que não é Céu nem Inferno, mas um espaço de julgamento muitas vezes projetado pela própria mente de seus visitantes, como em Silent Hill 2 ou Silent Hill 4: The Room.

Em parte por minha dissonância em ambientes cheios de pessoas desconhecidas, em parte por experiências prévias, os espaços liminares, de certa forma me fascinavam, antes mesmo de descobrir o conceito. Quando criança, brincava entre grandes máquinas abandonadas, no sítio de uma amiga de meus pais, esposa de um barão da construção civil. Na faculdade, estudei na Escola de Comunicação da UFRJ, um grande prédio colonial que até hoje guarda muitos corredores onde nada passa e o tempo parece preservado entre paredes pouco iluminadas.

Reencontrei tais espaços virtualmente, seja na Zona da franquia S.T.A.L.K.E.R., nas névoas de Silent Hill ou em tantas ruínas, assombradas ou não, de diversos RPGs. Lugares que deixaram de cumprir sua função na sociedade, esqueletos de normalidade.

Fugue in Void 02Fugue in Void

Call of PripyatNaissancee

Não estou sozinho nessa paixão. Desenvolvedores de jogos, principalmente entre os independentes, passaram a investigar esses espaços liminares e construir títulos inteiros em torno desses não-lugares. Entre os grandes nomes, destacaria o magnífico NaissanceE, mas essa temática também pode ser encontrada nos trabalhos de Kitty Horrorshow, em Fugue in Void, Everybody's Gone to the Rapture, Draugen ou qualquer título que lide com o desaparecimento de pessoas e suas histórias.

Com uma parte significativa de nossa civilização fora das ruas agora, o mundo inteiro caminha para se tornar um grande espaço liminar, em todos os seus sentidos. É uma época de transição entre o que foi antes e o que virá depois.

Sala Vazia

Ouvindo: Christophe Frutuoso - Land of Despair
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