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27 de novembro de 2019

Jogando: Citadel: Forged With Fire - Primeiras Impressões

(publicado originalmente no Gamerview)

Jogos de sobrevivência costumam ser uma brutal lição de humildade em que é necessário impor a ordem em um universo dominado pelo caos, em que se manter vivo é prioritário e tudo mais vem depois. Por sua vez, MMOs costumam ser fantasias de poder em que o jogador está constantemente massacrando criaturas inferiores para obter mais poder, melhor equipamento, mais habilidades para finalmente massacrar criaturas mais fortes. Dois gêneros incompatíveis? Não exatamente.

Citadel: Forged With Fire traz um cenário mágico praticamente vazio e insosso, mas que irá se tornar sua caixa de areia, um mundo que será domado de acordo com sua vontade, atravessado com fúria e estilo e explorado em todos os sentidos por um mago ou bruxa que já nasce com poderes arcanos.

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Eu nasço do fogo, fazendo jus ao título. Sou um feiticeiro, de uma raça projetada para dominar o continente de Ignus. Ou pelo menos é assim que eu entendo, porque o jogo não se preocupa em explicar nada sobre esse mundo ou minhas motivações. Sou saudado por um poste humano, um NPC que nunca irá sair do lugar mas irá me cobrar algumas tarefas, como pegar itens ou construir coisas, em troca de algumas recompensas.

É o tutorial, é claro, uma etapa obrigatória em milhares de jogos e algo que costuma ser negligenciado em jogos de sobrevivência. Imagino então que a sobrevivência em Citadel: Forged With Fire não seja tão ruim assim. O fato de eu não precisar me preocupar com fadiga, fome ou sede indicam que esse título está bem aquém das exigências do gênero a qual ele busca pertencer. Pelas barbas de Notch, até Minecraft exige que você se alimente de vez em quando.

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Machado e picareta são para camponeses! Aqui é feitiçaria, mermão!

Porém, aqui eu sou o bruxão. É meu dever aprender feitiços, subir de nível, domar criaturas fantásticas e explorar essa terra que elas habitam. É um parque temático, um Harry Potter selvagem sem aulas para frequentar e sem missões importantes.

Citadel: Forged With Fire traz um sistema de criação de magias criativo, em que o jogador combina essências místicas, ingredientes adicionais e injeta encantos diferentes em armas diferentes. Essa mecânica aguça a curiosidade e a experimentação, embora seja possível encontrar todas as combinações possíveis bem rápido (a Essência de Fogo é um pouco mais rara). Apesar da variedade ser menor do que parece a princípio, ela permite que os jogadores tenham flexibilidade para escolher sua abordagem para os desafios dos combates.

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A paisagem nunca cansa de me fascinar.

Entretanto, em um par de horas, descubro que jogar em um servidor solo é uma experiência frágil e tediosa. Ao contrário do que passei em Conan Exiles, não me sinto um sobrevivente triunfando contra as adversidades, sozinho no mapa. Tampouco me sinto como o temível feiticeiro que os trailers vendem. Sinto-me como um carinha comum fazendo tarefas chatas. Também não me imagino no futuro chegando até algum lugar. O que eu vejo são intermináveis dezenas e dezenas de horas de extração de recursos, combates contra javalis insistentes que abundam a floresta, fugas desesperadas, humilhações de todo tipo em uma terra encharcada de chuvas e sem glamour.

Depois de uma dezena de horas, eu tenho o chão do meu casebre montado, algumas paredes, nenhum telhado e a sensação de que esse jogo não foi feito para mim.

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Minha "casa" ficava perto dessa torre, mas tive vergonha de tirar foto.

É Nós Que Voa, Bruxão!

Não iria desistir de Citadel: Forged With Fire sem avaliar pelo menos um servidor online. Escolhi um PvE, porque a perspectiva de ser caçado como um "newbie" para a satisfação de arquimagos não entra em minha definição de "jogo de sobrevivência".

Curiosamente, o servidor estava marcado como Fast e, para minha surpresa, Fast não é uma referência à velocidade de conexão. Fast é uma referência à velocidade de progressão do personagem. Desta vez, estava coletando recursos 5 vezes mais rápido que o normal: eu pegava uma pedra no chão e, na verdade, eram 5. Além disso, os pontos de XP adquiridos também eram quintuplicados. O que parecia inatingível se tornou plausível, o que parecia tedioso e repetitivo se tornou interessante.

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A nada modesta fortaleza de um jogador. Com 5x, a ostentação vai longe.

Em meu servidor há várias construções de jogadores. Muitas delas são majestosas e demonstram o poder de construção de suas ferramentas. É uma grande sacada da desenvolvedora, já que as obras de meus camaradas magos adicionam uma complexidade e uma vivacidade a uma terra que é estéril em termos de marcos significativos.

Andando alguns metros além do ponto do tutorial, encontrei uma casa na encosta de uma colina, com uma bela escadaria levando até ela. Ela estava abandonada e literalmente qualquer um poderia reclamá-la para si. Foi o que fiz. Encontrei um baú dentro dela, lotado de recursos importantes para o início do jogo. E era isso: em apenas uma hora no servidor online eu tinha muito mais do que em minha frustrante empreitada solo. Era o começo de uma jornada mais empolgante, em que finalmente havia entendido a graça do jogo.

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Voar, voar. Subir, subir.

Removida a barreira excruciante de se evoluir para fazer algo que não seja matar javalis e fugir de esqueletos, eu estava pronto para explorar Ignus como deveria ser feito: na garupa de uma criatura alada, com um aliado poderoso ao meu lado e descendo a fúria dos elementos sobre meus inimigos.

Os gráficos magníficos me faziam ainda mais feliz, pelo menos quando não chove ou não está de noite. A trilha sonora não impressiona, mas tampouco faz feio. Depois de um tempo no vício, comecei a ouvi-la mesmo dormindo. É o sinal de que agora consigo me ver enterrando uma centena de horas nesse jogo.

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Squad goals.

Avada-Kadavra!

Apesar do deslumbre dessa nova experiência, é preciso manter o senso crítico. Há falhas graves em Citadel: Forged With Fire, além apenas de um sistema de progressão estupidamente lento. Na verdade, mesmo se você quiser jogar sozinho, é possível configurar os parâmetros de seu servidor local para se comportar como um Fast ou até mais benevolente. O problema não é exatamente esse.

Para um mundo tão convidativo, Ignus carece de profundidade. Se você curte lore nos jogos, descobrir histórias e personagens, não há absolutamente nada disso aqui. É um playground, não um universo coeso. O mapa poderia muito bem ser randômico, porque há pouquíssimos pontos de interesse, somente algumas cavernas com criaturas ligeiramente mais fortes que a média e baús com conteúdo aleatório.

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Sorte que era o mascote de outro jogador…

Não espere encontrar ruínas ou fragmentos da civilização que aqui um dia habitou ou mesmo um contexto para suas ações. Nesse aspecto, Citadel: Forged With Fire está mais próximo de Minecraft do que de um Conan Exiles. Por outro lado, até mesmo Minecraft tinha diferentes biomas para serem atravessados, vilas com habitantes inteligentes e duas dimensões alternativas. Aqui, NPCs são humanos que vivem em ruínas de torres, nunca se movem de lugar e pedem coisas tolas em troca de recompensas de pouca monta. Um deles me pediu para tornar a floresta mais segura e me pediu para matar dois javalis e… dois coelhos.

Se Citadel: Forged With Fire busca inspiração em MMOs, deveria oferecer quests melhores e trazer vilas, cidades, castelos. Se você não tiver um norte ou disposição para inventar metas, vai ficar perdido nesse mundo.

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Meu humilde cafofo ocupado ao fundo.

Apesar dos 16 quilômetros quadrados alardeados pela desenvolvedora, são grandes as chances de você ver tudo que o jogo tem a oferecer nos primeiros dois quilômetros. Não há tantas criaturas quanto você imagina, nem tantos feitiços e muito menos locais para serem visitados. Por conta disso, não posso deixar de recomendar jogar em um servidor: o conteúdo gerado pelos jogadores dá um tempero às vastidões selvagens de Ignus.

Por enquanto, seguirei construindo minha tropa de monstros, buscando um dragão para domar, aprimorando meus conhecimentos arcanos e buscando por algum conteúdo oculto.

Ouvindo: AlienHand - The Unknown
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