Jogar Legend of Grimrock está me fazendo mudar alguns conceitos. Um deles é a compulsão de carregar tudo que não está preso no chão em jogos de RPG. Desde minhas primeiras jornadas por Diablo até a complexidade de um Baldur's Gate 2, minhas metas em títulos do gênero são combater monstros, salvar o mundo e acumular coisas. Muitas coisas. Foi por isso que cada trocadinho e cada pente de munição que caía de um bandido em Borderlands conseguiam me manter seguindo em frente, mesmo quando o jogo já não estava agradando. Sou do tipo que se deixa um resto de refrigerante no copo, lembra-se dele horas depois e lamenta o desperdício.
Em The Elder Scrolls III: Morrowind, fazia várias viagens até a cidade mais próxima para poder limpar por completo um covil de bandidos ou catacumba e vender tudo. Infelizmente, nem todos os comerciantes de Vvanderfell tinham dinheiro o suficiente para comprar minhas mercadorias e precisava percorrer mais de uma loja (ou mais de uma cidade) para conseguir zerar o inventário. Descobri logo o segredo do Creeper, a bizarra criatura com 5000 moedas de ouro que comprava qualquer coisa. Com truques de compra e venda, empurrava para ele armas e objetos de até 30 mil moedas. Um longo e tedioso processo: você compra tudo o que ele tem, não importa a quinquilharia, e o Creeper consegue juntar, digamos 10 mil moedas no bolso. Então, você vende para ele um artefato que vale 10 mil e ele fica com nada. Você dorme por 24 horas, o Creeper renova seu orçamento inicial de 5 mil. Você compra de volta o artefato de 10 mil. Agora, o Creeper tem 15 mil no bolso. Repita quantas vezes for necessário até que o Creeper tenha 30 mil ou mais no bolso. Venda seu item mais caro. Durma. E vá vendendo de volta gradativamente tudo que você comprou do infeliz. Eu avisei que era tedioso. No final de Morrowind, eu devia ter mais de 300 mil moedas em meu poder, mais uma quantia maior ou equivalente em itens armazenados em três ou quatro baús em diferentes cidades.
A arte de armazenar objetos em "lugares seguros" é quase instintiva. Entenda que em nenhum destes RPGs ninguém jamais irá roubar o seu tesouro. Não existe esse risco, mas você age como tivesse. A maior ameaça é você largar seus artefatos no chão e o jogo resetá-los, mas muitos títulos nem isso fazem.
E, no final das contas, você acaba com outro problema nas mãos: gerenciar a localização exata dos seus esconderijos. Acontece com freqüência: você está explorando uma área nova e hostil do cenário, mas seu inventário ficou cheio. Retornar para vender o desnecessário pode demorar ou ser perigoso. Largar tudo por aí ou avançar sem pegar mais nada está fora de cogitação. Você escolhe um baú, uma caixa de correio, um armário e despeja tudo lá na esperança de recuperar tudo depois e fazer uma grana. Em Fallout 3, meu primeiro "cofre" foi uma geladeira dentro do Super Duper Mart, o segundo foi em um acampamento Raider onde eu matei todos os ocupantes e o terceiro foi em um armário em um prédio abandonado perto da rádio do Three Dog. Graças ao maldito respawn, quando eu finalmente voltei ao primeiro, o lugar estava infestado de Raiders, o segundo estava infestado de Raiders E um Raider com um lança-foguetes. O terceiro lugar permaneceu seguro por um tempo grande o suficiente para eu continuar usando. Mas depois ficou infestado de Mutantes.
E, mesmo assim, quando finalmente me despedi do mundo de Fallout 3, eu tinha juntado armamento e munição suficientes para equipar uma vila inteira de soldados. Ainda tinha aproximadamente mais 20 armas guardadas em latões de lixo. Na mochila, mais de 100 stimpaks e mais dinheiro vivo do que o senhor Tenpenny.
Em S.T.A.L.K.E.R., o inventário é bem limitado. É possível voltar para pegar itens, mas tem aquele respawn imprevisível... Tem gente que descobriu que cadáveres não tem limitação de inventário: eles entopem um corpo de armas e objetos e depois arrastam o defunto até o lojista mais próximo. Macabro, cansativo, mas ironicamente dentro do espírito da Zona.
Se você olhar atentamente minha tela da última batalha de Risen, verá no rodapé que eu tenho mais de 40 Mega Poções de Full Health em um atalho. Eu poderia chegar perto da morte mais de 40 vezes no confronto final. Fora as poções menores. Claramente, um exagero. Em todos os RPGs, eu estou sempre me preparando para um apocalipse: munição, poções, armas em quantidades colossais como se fosse encarar um desafio 50 vezes maior do que os desenvolvedores realmente entregam. O mesmo comportamento se repete em FPS e jogos de estratégia. Meu exército final em Age of Empires faz o desembarque na Normandia parecer a parada de Sete de Setembro.
Com 133 jogos somente em minha biblioteca do Steam e o hábito diário de conferir o que está em promoção, é óbvio que minha mentalidade coletadora não nasceu dentro de realidades virtuais. É um exagero, mais do que terei tempo de jogar. Somados aos vinte e tantos livros aguardando na fila de espera para serem lidos e aos infinitos gigabytes de música que meu passado pirata reuniu, eu diria que sou um sério candidato a me tornar um destes velhos loucos que juntam lixo dentro de casa, pilhas e mais pilhas de jornais velhos, gatos e garrafas de plástico.
Maldito Grimrock que não tem uma loja sequer...


13 Comentários
xD
Fazer o que, é isso ou o aperto no coração de ter abandonado algum item.
Eu sinceramente nunca tive muito prazer pela exploração , acho que por isso também sempre me afastei dos RPG´s , pois é uma tarefa demorada e enfadonha.Mas têm um jogo com estas características que venho jogando compulsivamente nas últimas semanas:Dead Frontier.
Os gráficos são fracos (quase toscos) e a jogabilidade satisfatória , nada de excepcional e com cenários bastante repetitivos (se ficarmos na mesma base por muito tempo). Mas eu não consigo parar de jogar…Nunca tinha jogado qualquer outro MMORPG, mas esse eu gostei.Não existe um único motivo para continuar á jogar, e sim vários motivos , como o fato de atirar em zumbis e não em monstros , orcs ou elfos como na maioria dos MMORPG.A atmosfera sombria, o clima que sempre muda, os ataques repentinos á base (e que temos de defender) , as missões diárias ,os itens que sempre achamos e que alimenta o sistema de compra e venda (muito legal esse comércio entre os jogadores),a variedade de armas , a escolha minuciosa pra distribuição de pontos de experiência, tudo isso contribui para a satisfação.A diversão já começa na escolha da classe , cada uma com a uma característica bem particular.Enfim, acho que é um típico MMORPG, e provavelmente chegará uma hora que enjoarei pelo fato de não ter um fim , mas a experiência está sendo muito divertida.
Adoro colecionar itens que me convenci de que vou precisar,sejam armas,cosmeticos,cura ou dinheiro.
Em Mass Effect eu colecionava bastante.
Em Fallout 3 meus itens eram/são guardados em Megaton e cato quase tudo que vejo pelo caminho,menos alguns itens misc e comidas radioativas.
O que fazer com Skooma, Moon Sugar e as calças que consigo em Morrowind?
Aquino, você se despediu do Fallout 3? já não vai mais para o céu dos nerds por causa disso! rsrsrs. o único jeito de você alcançar a redenção é começar a sua jornada no New Vegas, que consegue a façanha de ser ainda melhor que o 3.
Sofro horrores em escolher o que jogar fora e o que guardar. Lembro que o burro estava sempre cheio em Dungeon Siege hehe