Em dezembro do ano passado, um pacote misterioso chegou ao escritório da Zenimax, na Inglaterra. Para quem não está ligando o nome à empresa, Zenimax é a corporação proprietária das produtoras de jogos Bethesda e, mais recentemente, da legendária id Software. Dentro do envelope, havia um exemplar do RPG Elder Scrolls III: Morrowind e um bilhete escrito à mão. Na nota, o seguinte recado:
“Prezada Zenimax,
Este jogo é incrivelmente viciante. É o diabo! Todo o meu precioso tempo está sendo devorado por este monstro. Eu devo enviá-lo de volta a vocês antes que eu comece a jogar novamente. Eu espero nunca mais comprar um jogo como esse! Misericórdia das almas dos nerds de computador por aí.
Adios!”
Dramático? Sarcástico? Inventado? Não sei. Só sei que é sincero.
Morrowind e Eu
Meu primeiro contato com o viciante universo de Elder Scrolls III não foi muito empolgante: dez minutos com um lag horroroso que me fizeram desistir. Foi a primeira e única dica que eu tive para parar. Anos depois, com uma máquina melhor, eu consegui rodá-lo de forma mais satisfatória. E descobri que Morrowind é um jogo complicado, com criaturas e NPCs mal-desenhados, propenso a falhas de hora em hora, que demora a engrenar, com musicas repetitivas e onde sua vida vale pouco.
E que você não consegue parar de jogar.
Há um encanto inerente na ilha-continente de Vvardenfell, capaz de cativar até quem nunca jogou um jogo eletrônico na vida. O universo apresentado não é apenas imersivo, mas vasto e detalhado, onde cada exploração revela um novo aspecto fascinante da cultura, da geografia ou da história do lugar. E quanto mais você explora, mais você se encanta, e quanto mais se encanta, mais quer explorar. Imagine um RPG sandbox de proporções quilométricas, onde seus desenvolvedores se preocuparam em criar minúcias de proporções milimétricas. O trabalho executado pela turma da Bethesda faz Gothic 3 parecer um deserto de conteúdo e Dark Messiah of Might and Magic um livro genérico de fantasia. Em Morrowind, não importa o quanto você jogue, haverá sempre algo a descobrir. Se você não acredita ainda, se dê o prazer de baixar o protetor de tela que eu criei com 50 telas do título.
Junte esse deslumbramento com a impressionante facilidade de criar mods para o jogo e teremos um RPG com MILHARES de modificações criadas por usuários. Cada aspecto do jogo pode (e foi) alterado, melhorado, expandido por algum mod. Com tantas missões novas, é possível continuar jogando Morrowind mesmo hoje, oito anos após o seu lançamento. Sem contar com as expansões oficiais: Tribunal e Bloodmoon.
Após completar a missão principal de uma história que se expande por todo o impressionante território do jogo, parti para cima da primeira expansão, completei, joguei a segunda expansão, completei, baixei diversos mods, completei missões extras de qualidade igual (ou superior!) às missões criadas pela Bethesda. E segui jogando. E jogando. E jogando. No final de tudo, meu personagem principal, Karkaz, era virtualmente invencível, dono de um castelo colossal, uma fortuna incalculável. Respirei fundo. E desinstalei.
Eu e Morrowind
Ainda havia mods que eu não tinha testado. Sempre haveria (sempre haverá?). Cometi o erro de não apagá-los. A tentação foi tanta que fiz algo que raramente faço: reinstalei o jogo.
Para mim, jogo vencido é jogo descartado. Com todo o respeito àqueles que me proporcionaram horas de entretenimento ou fantásticas experiências. Mas a vida é curta. E os títulos, muitos. Da mesma forma que envio jogos para a "lixeira" sem piedade, dificilmente eu retorno.
Mas voltei com Morrowind. Criei um personagem completamente diferente, um dremora chamado Elvac. Onde Karkaz era um poço de virtudes, na boa e velha tradição heróica, Elvac seria um mercenário frio, mestre na arte do assassinato. Entrei para guildas que não tinha entrado antes, me associei a um clã diferente, procurei mods que se encaixassem no que eu estava procurando. No final, acabei encontrando um mod que permitia ao personagem se aliar ao grande vilão do jogo e entrar para a Sixth House. Eu, definitivamente, não estava seguindo o caminho criado pela Bethesda.
Sem me dar conta, eu estava coordenando dois NPCs aliados (e me importando com seus destinos!), conduzindo quase dez quests ao mesmo tempo e gastando horas a fio na jogatina. Perceba que não existe nada de "casual" em Morrowind: quando você senta para jogar, você não levanta antes de duas horas de RPG ou antes do titulo travar e fechar na sua cara, o que acontecer primeiro. Desconfio, inclusive, que as constantes travadas do programa não sejam um bug, mas uma trava de segurança embutida pela Bethesda para salvaguardar o jogador.
Livre da missão principal "oficial", Morrowind se torna uma experiência ainda mais absorvente. Percebendo que minha odisséia estava longe de ser concluída, se é que um dia eu pararia de testar novos e novos mods, decidi desinstalar. Mas não menti para mim mesmo e guardei os save games, para um dia em que Elvac retornaria e tomaria Vvardenfell pela força da espada!
Nunca Mais?
Em 2009, entre um título e outro, resolvi reinstalar Morrowind. Indigo havia provado ser um computador possante. Imaginava eu que as falhas técnicas do jogo não iriam se repetir e eu poderia completar a saga de Elvac, sem irritação. Para meu espanto total, o jogo não rodava. Simplesmente não rodava. E eu ainda não havia instalado nenhum mod! Tentei outra instalação. E nada. Consultei os fóruns e vi que tinha muita gente com o mesmo problema com processadores dual core. Interpretei isso como uma dica para não cair no vício novamente e desisti.
Ao ler a notícia do pobre rapaz que devolvera o jogo pelo Correio, eu ri e pensei: "tenho que postar isso!". Por reflexo, fui dar uma olhada na pasta onde estava guardado meu save game. Estava vazia.
Vazia.
De alguma forma, eu havia recortado e colado os arquivos durante minha tentativa anterior e instalação. Não havia mais nada lá. Nem backup. Elvac estava agora no céu dos avatares deletados, junto com Karkaz.
Talvez eu devesse reconhecer os sinais e esquecer Vvardenfell. Talvez eu devesse jogar Elder Scrolls IV: Oblivion, a continuação oficial do RPG. Talvez eu devesse seguir o exemplo do rapaz do bilhete e devolver meu jogo.
Por que, apesar de tudo, eu ainda sinto vontade de voltar.
4 Comentários
Vale você experimentar agora Oblivion. Não é tão bom quanto Morrowind, embora tenha MUITAS qualidades. É de uma beleza e atmosfera de tirar o fôlego. Muitas vezes fiquei sentado em bancos de pracinhas, apenas vendo o tempo passar, e o dia virar noite... é bonito assim.
Um dia quero escrever resenhas sobre os dois jogos.
Abraços!