Em algum momento, Clementine precisaria encontrar um final para sua jornada. Para quem acreditou que o ponto final de sua saga pelo mundo dos mortos e dos vivos teria acontecido no brilhante The Walking Dead: The Final Season, a editora Skybound tinha uma surpresa reservada. A personagem que nasceu e cresceu nos jogos eletrônicos concluiria seu arco narrativo na mÃdia que deu inÃcio a esse universo: nos quadrinhos. A premiada criadora Tillie Walden foi convocada para assumir essa responsabilidade e o próprio processo produtivo desse encerramento acabou sendo sua epopeia separada. O primeiro volume da trilogia foi mal recebido pelo público (incluindo eu) e o segundo volume apresentou uma correção de rumo. Nos cinco anos para esse projeto ser concluÃdo, a autora casou e teve filho, o que se somou à montanha-russa emocional atravessada pela própria Clementine.
Para o capÃtulo derradeiro, Tillie Walden não tenta reinventar a roda uma terceira vez e joga no seguro. Depois de tanto tempo, o universo de The Walking Dead já começa a apresentar sinais de decadência e seu esqueleto está exposto. Sabemos muito bem o que vai acontecer. Clementine continua sendo um para-raio de problemas. Novamente, ela encontra refúgio em uma comunidade, novamente ela experimenta uma felicidade e segurança passageiras, novamente ela se encontra envolvida em uma grande ameaça que não vem dos zumbis, mas das sombras ainda mais malignas da mente dos vivos. E, novamente, Clementine emerge triunfante dos desafios.
Entretanto, Tillie Walden tempera a receita com dois toques diferentes. O primeiro é o próprio cenário: uma colônia de sobreviventes isolada na distante capital da Groenlândia. Uma civilização, que já era milenar e resistiu ao próprio clima e aos interesses colonizadores, mantém a cabeça erguida e o senso de praticidade afiado diante de mais uma catástrofe. Clementine encontra aqui uma das sociedades melhor organizadas e mais justas que já viu.
O segundo toque da autora é seu estilo muito exclusivo de se contar uma história e construir personagens que sejam cativantes. Alguns aspectos se destacam: Nuuk é uma comunidade com forte presença de vÃtimas do apocalipse. Há amputados de todo tipo, de onde imaginamos que o conhecimento de que existe uma solução para a mordida zumbi já se espalhou. Ainda assim, a maior amputação é interna: cada um de seus habitantes atravessou uma cota muito grande de sacrifÃcios e perdas para chegar até esse ponto. Mais de uma década já se passou desde o fim da civilização e, se pegarmos a trajetória de Clementine como exemplo, aqueles que ainda estão vivos presenciaram horrores infindáveis.
E, apesar de tudo, Nuuk falha em oferecer acolhimento a todos. Há um abismo geracional em formação entre aqueles que se lembram de como eram as coisas antes do apocalipse e os jovens que já cresceram em meio ao caos. Dessa falta de entrosamento, brota o conflito. Ao contrário de outros momentos anteriores, Clementine flerta em se tornar a causa desse conflito. Com um coração consumido pela dor, ela quase se rende à sedução da violência e dos jogos de poder.
Se Tillie Walden falha amargamente ao adicionar um motor narrativo baseado no mais puro acaso (e é esse motor que empurra Clementine para a borda do precipÃcio), ela acerta em todos os sentidos na resolução. Clementine abraça a dor, aceita a perda e sua bússola moral volta a apontar para o Norte. Ao contrário dos volumes anteriores, o epÃlogo não é longo demais, nem desnecessário. Ele é conciso, quase minimalista, encerra suas pontas soltas e nos entrega a conclusão que Clementine e seus fãs merecem. Não é a felicidade absoluta de novela, mas maturidade e compreensão e, acima de tudo, vida que literalmente segue.
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