Retina Desgastada
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20 de agosto de 2022

Eu Li: Clementine - Book One

01Eu achava bastante questionável a necessidade de dar uma continuidade para o destino de Clementine, após a excelente e agridoce conclusão de The Walking Dead: The Final Season. Continuo achando, mas meus pensamentos interiores não tiveram qualquer influência na decisão de Robert Kirkman e sua editora. Ele é o pai desse universo, a Telltale Games foi a mãe de nossa menina, nós somos apenas os guardiões legais de Clementine. Ainda assim, minha preocupação foi grande. Não pela sua segurança, uma vez que a jovem heroína já mostrou mais de uma vez sua resiliência. Eu temia pela banalidade.

Clementine sai dos jogos e estreia nos quadrinhos pelas mãos de uma ganhadora do Weisner, a cartunista e ilustradora Tillie Walden. Ela não nos pertence mais, se é que um dia pertenceu, e se solidifica no universo sombrio da franquia dos mortos-vivos. Outra pessoa está tomando suas decisões, outra pessoa está traçando sua trajetória. É uma filha que sai de casa e agora está solta no mundo. Literalmente, uma vez que a primeira decisão que Clementina toma em sua nova fase e abandonar o conforto do abrigo em que a deixamos e buscar a estrada, em direção ao Canadá. Seus motivos iremos entender bem depois.

A Skybound havia prometido essa história em quadrinhos no ano passado e o resultado demorou bastante a sair. É justificado porque não é uma revista comum. É um livro. Um calhamaço de mais de 220 páginas de enredo, que usa e abusa de seu tamanho para manter um ritmo lento e contar uma trama mais contemplativa e com menos ações e reviravoltas do que estamos acostumados. Tillie Walden escolhe começar sem pressa. E quando digo "começar" é porque esse é o Book One de uma planejada trilogia. A segunda parte sairá somente em junho de 2023, então é necessário fôlego e paciência para essa caminhada.

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Tillie Walden é exaltada pela sensibilidade e pela construção de personagens. Isso é nítido nessa história em que Clementine busca a todo custo se afastar das pessoas, apenas para ver mais uma vez enredada em um ciclo aparentemente infindável de simpatia e tragédia. Nossa jovem sobrevivente blinda suas emoções e reflete sobre tudo que a levou até aqui. Já se passaram quase dez anos desde o apocalipse. Cada ser humano que ainda respira nesse mundo está aqui marcado por traumas, é o último de uma linhagem de sacrifícios, testemunhou horrores, praticou horrores. Ainda que Clementine encontre aquele que possivelmente é uma das raras exceções desse mundo, a inocência não dura para sempre.

A trama acaba se focando em torno de um pequeno grupo de jovens, contemporâneos de Clementine, uma geração que cresceu no Inferno. É possível criar um sonho coletivo? Ou o peso das escolhas do passado irá atrapalhar o futuro?

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Infelizmente, Tillie Walden não consegue desenvolver muito bem suas situações quando foge da introspecção. Há quase nenhuma tensão envolvida. Nesse ponto, os roteiristas da Telltale Games eram mestres. A ação é rara e confusa, prejudicada pelo estilo gráfico da autora, muito mais próximo do cartum do que da narrativa em quadrinhos mais tradicional. Em dados momentos, é até difícil entender o que está acontecendo ou quem está fazendo o quê. Personagens tomam decisões completamente estapafúrdias sem aviso, se expondo a situações de perigo que não fazem sentido. A conclusão da história é abrupta, seguida de um epílogo longo demais, mas em que tudo está muito acelerado, como se a autora quisesse deixar tudo para trás logo e abrir caminho para o vindouro segundo livro.

Se Tillie Walden não é muito eficiente naquilo que mostra, ela brilha é no subtexto. Olhares, frases soltas, dizem mais do que a trama em si. Há um desabafo de Clementine em dado momento que soa extremamente palpável e doloroso.

A sensação que fica ao final ainda é de incredulidade: por quê? Que desfecho essa série de livros poderá dar à personagem que supere o encerramento de sua trajetória nos jogos? A resposta ainda vai demorar, possivelmente anos. Entretanto, ficarei à espera de notícias de minha menina.

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Ouvindo: Evanescence - Sick

Um comentário:

Anônimo disse...

bem ruim o livro mesmo,
mas a história não é canon, entao ta tranquilo

abraços.

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