Eu Li: The Making of Karateka - Journals 1982 -1985

making-of-karateka-cover Entre meus guardados, de algum bundle do passado, havia uma versão digital do livro "The Making of Karateka - Journals 1982 –1985", de Jordan Mechner. É uma preciosidade histórica. Esperava um livro técnico e possivelmente enfadonho sobre a gestação de um jogo que nunca experimentei, mas encontrei uma pérola de sua época.

A mente inquieta de Jordan Mechner registrou em cadernos os principais pensamentos, desejos e atividades que ocuparam sua vida entre 1982 e 1985, período em que ele iniciava sua carreira como desenvolvedor de jogos, porém ainda inseguro sobre seu futuro. É como ler um blog de quarenta anos atrás, pré-internet, ou um jorro de ideias típico da geração Twitter, muito antes de sua invenção. De muitas formas, Mechner estava na frente do seu tempo. Que ele tenha preservado essas anotações e resolvido publicá-las sem retoques décadas depois é uma dádiva para entusiastas da indústria dos jogos, historiadores da sociedade ou simplesmente aqueles que apreciam um bom texto.

Não há uma pretensão literária ou narrativa e pessoas entram e saem da vida de Mechner sem muita descrição ou desenvolvimento. É o fluxo ininterrupto da vida real. Ainda assim, é uma janela aberta para uma outra época, uma outra cultura, assim como um registro vivo e frenético de uma sociedade. Jordan Mechner anota os filmes que viu (e que safra maravilhosa aconteceu nesses três anos), os livros que leu, os discos que escutou, com suas considerações aqui e ali, assim como sua jornada indústria dos jogos adentro em um período de efervescência, justamente naquele momento que deveria ser o pós-colapso.

Karateka_CoverartÉ interessante observar que o desenvolvimento de Karateka é uma parte central do livro, mas não é nem de longe exclusivo. Mesmo assim, acabamos nos tornando testemunhas de sua gestação, do momento exato em que a ideia brota na mente de Mechner e as outras ideias que acabaram sendo descartadas para fazer algo tão inovador. O ponto de virada de Karateka é um dedicado processo de captura de movimentos de seu instrutor de karatê e a capacidade de transpor essas filmagens para modelos digitais, uma técnica que Mechner repetiria em praticamente todos os seus jogos e acabaria se tornando a norma para grandes produções.

Entendemos também um pouco melhor como foram esses primórdios, como era a relação entre produtoras e criadores independentes e as dificuldades tecnológicas para se conseguir colocar na tela aquilo que antes era somente sonhado.

Acima de tudo, nesses diários amadores, anotados em papel, Mechner revela mais ainda de sua humanidade Conhecemos sua vontade criativa, mas também seus anseios e questionamentos, tão comuns a todos nós. Jordan Mechner não tinha plena certeza de que gostaria de seguir desenvolvendo jogos e aponta a vontade de produzir literatura e cinema. Ele é um apaixonado por narrativas. Hoje sabemos que ele concretizou tudo aquilo que queria, o caminho que ele traçou em sua juventude se completou: Jordan Mechner é autor de livros e se envolveu com cinema, seja dirigindo curta-metragens, seja fazendo o roteiro da adaptação de Prince of Persia. É fascinante demais que todas essas facetas já estavam desabrochando desde os anos 80.

O jovem Mechner dificilmente imaginaria que iria tão longe e, não obstante, ele foi.

Ouvindo: Thomas de Waard - New Popylon

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