Você é um arqueólogo que cai em um fosso de uma montanha em algum ponto do México. Ali dentro, nesse colossal subterrâneo, residem os últimos resquícios de uma civilização antiga tão misteriosa quanto monumental. Sua única forma de interação, sua única ferramenta para resolver os desafios que surgem no seu caminho é uma esfera tecnológica do tamanho de um Fusca. Isso é The Ball.
O título de estreia da desenvolvedora independente Teotl Studios partia dessa premissa fora do convencional, mas estava inserido em uma tendência de jogos de tiro que buscavam a visão em primeira pessoa muito além do tiroteio. Nessa linha, entravam a Gravity Gun de Half-Life 2 e a inesquecível Portal Gun da franquia Portal. Em The Ball, nossa única arma tem a função de manobrar a esfera gigante pelo mapa, ora atraindo o artefato, ora repelindo-o. Dessas duas possibilidades físicas, nasce uma jogabilidade que até apresenta "combate" (a esfera esmaga os inimigos que atropela), mas está totalmente ancorada na solução de puzzles.
Usando e abusando da Unreal Engine 3, a desenvolvedora gera níveis de tirar o fôlego, que cumprem seu papel de reduzir o jogador a um minúsculo invasor de um mundo que não lhe pertence. Sem o controle da esfera, ele não é nada. A arquitetura mescla elementos astecas com a iconografia macabra dos reais criadores dessas estruturas, deuses astronautas que vagaram pelo passado da região. O resultado é uma escalada de espanto e respeito, de se sentir um intruso vagando por ruínas hostis ao Homem. Obviamente, armadilhas e monstros de todos os tipos estão espalhados pelo caminho.
De certa forma, The Ball faz pela esfera o mesmo que o cubo representava em Portal: ele se torna mais do que um instrumento, mas também um companheiro. O jogador se sente inseguro, incompleto nos momentos em que é necessário que a esfera se afaste. A Teotl Studios teve a ideia genial de tornar a esfera transparente quando está muito próximo de nosso campo de visão, caso o contrário o jogo seria somente a constante contemplação de um bólido girando.
The Ball capricha também no aspecto sonoro, com o merecido e satisfatório barulho da esfera rolando, assim como os sons emitidos pelas criaturas e o ranger de engrenagens milenares se movendo.
Ao contrário do que supunha, The Ball tem um fio condutor. Não estava prestando muita atenção na narrativa e tampouco fui atrás dos artefatos escondidos que contam ainda mais de seu mundo. Portanto, fui surpreendido pelo final, um desfecho apoteótico para uma odisseia nas entranhas da montanha.
Huge Success!
Além da campanha principal, o jogo apresenta níveis fechados de desafios. Entre eles, experimentei um nível Survival que fez parte da campanha de marketing para o lançamento de Portal 2. É maravilhoso. Os desenvolvedores mesclaram a aridez tecnológica do interior da Aperture Science com poços de lava, paredes de caverna e outros elementos de The Ball. E, é claro, a esfera. Você vai usar a esfera para solucionar puzzles de Portal, na ausência da Portal Gun. A integração é espantosa: Ellen McLain gravou diversas falas como GLaDOS exclusivamente para serem utilizadas nesse nível, com referências ao universo de The Ball.
É o tipo de sinergia de marketing que nunca mais aconteceu outra vez, a tempestade perfeita promovida pela Valve junto aos desenvolvedores independentes.
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