Retina Desgastada
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22 de setembro de 2018

(não) Jogando: Nether

Nether 01

As ruas da cidade estão vazias. Como um Will Smith sem cachorro (ou seria um Charlton Heston?), eu sou a lenda que vaga entre os escombros da civilização, evitando as criaturas hediondas que caçam e espreitam em cada quarteirão. Não há esperança, sobreviventes ou atividades que afastem o alento de um jogo abandonado, esquecido por todos e deixado para apodrecer.

Para todos os fins, Nether é o novo Lifeless.

Mais uma vez, sou o último explorador de uma realidade fantasma.

Nether 05

Nether é um título de sobrevivência PvP com elementos de PvE. Ou seja, foi projetado para que jogadores caçassem outros humanos em um único mapa, vasto e repleto de cantos para se esconder, entradas, telhados e subterrâneos. Foi criado para abrigar uma multidão. Para aumentar o desafio, seus desenvolvedores injetaram monstros de outra dimensão no cenário. Não há um enredo visível ou explicações, mas, pelo menos, dessa vez não são zumbis.

Desta multidão, não sobrou ninguém. Em algum momento de sua trajetória marcada pelos bugs, os desenvolvedores originais perderam a licença, outra empresa assumiu o jogo, viu nele a chance de lucro fácil, embutiu micro-transações, afugentou os poucos jogadores veteranos que restaram, perdeu a licença. Os seus criadores retomaram o desenvolvimento, sob o nome e a promessa de Nether: Resurrected, mas não havia mais muito o que se fazer para efetivamente ressuscitar sua base de jogadores. Pelo menos, eles removeram as micro-transações e habilitaram tanto um modo de jogo single-player (essencialmente um servidor local fechado) quanto a possibilidade da própria comunidade criar e manter seus servidores. Durante as duas semanas que joguei Nether, vi apenas dois servidores ativos, ambos vazios na maior parte do tempo.

Eu estava só na cidade sem nome. Sendo espreitado.

Nether 07Nether 09

Para complicar a situação, Nether é um jogo com uma curva de dificuldade inicial bastante acentuada. No começo, você irá morrer para quase qualquer inimigo e aprender a duras penas que a melhor estratégia é ficar escondido. A segunda melhor estratégia é correr. Depois que você aprende esses fundamentos básicos e começa a evoluir o personagem, Nether fica bastante fácil. Cheguei ao nível 31 com meu personagem e morri com ele apenas porque estava cansado e fui ousado.

Um grande entrave para quem se arrisca a começar é o permadeath: se morrer, perde o personagem e os itens. Parte do dinheiro fica na conta e é possível estocar itens em uma espécie de banco permanente. Mas recomeçar do zero, sem a habilidade de bloqueio, por exemplo, é desagradável.

Nether 11

Os bugs que assolaram Nether desde seu lançamento mais ajudam do que atrapalham a manter essa atmosfera. É como se a ordem natural das coisas tivesse sido invertida: seu corpo atravessa pequenos obstáculos no caminho como se eles não existissem, mas uma leve rachadura no concreto te obriga a pular para passar por cima. Subir ou descer uma pilha de escombros é animada como se você fosse o Zenyatta e estivesse flutuando por uma rampa lisa. Outra animação que causa embaraço é o próprio caminhar, onde o personagem sacode sua arma branca como se estivesse socando um pilão. A wingsuit poderia ser um recurso fantástico em um título com tantos prédios onde se pode subir, mas seu controle é pífio, e ela apenas serve para evitar que você se espatife no chão, e somente se você abri-la no tempo certo.

A lanterna se recusa a funcionar. Bug ou elemento de horror?

Sem outros humanos ou batalhas de facções, sem campanha ou enredo, o que resta a fazer? Explorar sem rumo um mapa pobre de recursos para saquear, transportar pacotes entre as Zonas Seguras para ganhar recompensas que nunca valem o esforço ou tentar realizar os únicos dois eventos dinâmicos do jogo que exigem um esquadrão e são suicídio para o jogador solitário.

Nether 13

A desolação dá a tônica do jogo, tanto intencionalmente quanto não intencionalmente. Se, por um lado, seus desenvolvedores capricharam na destruição de sua metrópole e no visual grotesco das criaturas, gerando um sentimento palpável de apreensão, por outro lado, a vastidão do cenário, criado para abrigar muito mais pessoas, mas agora de fato vazio, contribui para o sentimento de solidão e de que não existe ninguém no mundo para te ajudar.

É uma experiência arqueológica e melancólica que só posso recomendar aos jogadores mais masoquistas.

Ouvindo: Eric Clapton - Worried Life Blues
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