Retina Desgastada
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6 de junho de 2018

Jogando: Deathspank

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Uma das (várias) lacunas em meu currículo de jogador era nunca ter experimentado um título em que Ron Gilbert tivesse colocado a mão. Comecei a jogar no PC tarde demais para pegar clássicos como Monkey Island ou Maniac Mansion. O fato de serem adventures, um gênero que aprecio de longe, mas sem muito entusiasmo, não me fez corrigir essa falha.

Até Deathspank.

Não sei o que o jogo de RPG representa na carreira de Gilbert, se é um de seus melhores trabalhos ou um ponto baixo, mas sei de duas coisas: que lamento profundamente ter demorado tanto para conhecê-lo e que eu ri como uma criança em muitos momentos.

Em Deathspank, o primeiro de uma trilogia de jogos que acompanha as aventuras de um guerreiro com um senso de justiça tão grande quanto sua falta de noção, Gilbert empresta seu senso de humor consagrado para reverter completamente o RPG tradicional e os clichês de fantasia. Nosso protagonista é o Dispensador da Justiça, o Desaparecedor da Maldade, o Herói dos Oprimidos e se cura entre as batalhas traçando pizzas, batatas fritas e milk-shakes. Sua voz impostada zomba do herói másculo e impecável de outrora. Ele salva órfãos os guardando em um saco de pano e os transporta para cima e para baixo dessa maneira. Ele tem uma marreta mágica que arranca caca de demônios abatidos. Seu maior antagonista é um ególatra montado em um burrico.

Aparentemente, não há limites para metralhadora giratória de Gilbert e de sua mente brotam as situações mais absurdas que você possa imaginar assim como diálogos impagáveis e missões que você não costuma encontrar em RPGs de fantasia.

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Mas também não há como não dar créditos para a desenvolvedora Hothead Games, formada por veteranos da antiga Radical Entertainment, que chamou Ron Gilbert para coordenar os trabalhos e cuja parceria se estendeu por quatro anos. Hoje, a desenvolvedora se dedica a jogos esportivos para dispositivos móveis, provavelmente porque não há público suficiente nesse mercado para apreciar um bom RPG onde um mago conjura um ciclope de dois olhos ou Leprechauns forma uma espécie de Máfia.

A simpatia de Deathspank vai além das piadas singulares ou das poucas, mas sensacionais, cutscenes. Por cima da paródia, a Hothead Games montou um RPG sólido, com uma boa mecânica de evolução de personagem e equipamento, ainda que nada complexa. Obedecendo aos seus parâmetros de insanidade, o inventário chega a contar com um "moedor", um dispositivo que destrói o equipamento que você não quer mais e converte em ouro na hora, uma excelente alternativa à tediosa tarefa que visitar lojas para vender itens.

Outro grande trunfo de Deathspank está nos puzzles claramente herdados dos adventures comandados por Gilbert. Em alguns momentos é necessário combinar itens da mochila para conseguir solucionar desafios e o resultado é surpreendentemente fluido e lógico (o inverso é uma das minhas antipatias pelo gênero), além de não ser uma constante. Para aqueles que ficarem travados em algumas missões, o que não é comum, mas também não é impossível, o jogo implementa um sistema de dicas em forma de "biscoitos da sorte", que ajuda a compor a atmosfera de esquisitice de seu universo.

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Deathspank também traz gráficos desenhados à mão, abdicando de modelos 3D cheios de polígonos e trazendo um charme de conto de fadas à narrativa, embora tudo se aproxime mais de um Pratchett do que de Andersen ou Grimm. Combine isso com uma música cativante e temos um jogo impagável.

Minha ideia inicial era que Deathspank fosse um título para ser jogado com meu filho. Mas esbarramos em duas barreiras... a primeira é o idioma, uma vez que o jogo não é dublado e tampouco traz legendas em Inglês. Meu domínio da língua para leitura é pleno, mas traduzir em tempo real não apenas era cansativo como eu não tinha a verve e o timing para que o guri apreciasse as piadas devidamente. Ainda assim, ele comenta até hoje algumas passagens hilárias do jogo.

O segundo obstáculo é a implementação do modo cooperativo em Deathspank, que parece mais algo colado apressadamente por cima de algo já pronto. No caso, o protagonista que dá nome ao jogo é o herói controlado por um jogador e o segundo jogador atua como um sidekick, um parceiro com pouca serventia que é obrigado a ir para onde Deathspank vai e tem um poder de ataque muito, muito limitado. Com seus quatro feitiços, sem um inventário para chamar de seu, sem equipamento, sem mudança de visual ou evoluções, meu filho se cansou de jogar ao meu lado como o aprendiz de feiticeiro.

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Assim como fiz com Costume Quest, não quis deixar o jogo de lado e assumi a tarefa de completá-lo. Não me arrependo nem um pouco e contei para o meu filho o que ia acontecendo, uma vez que ele não perdeu o interesse nas aventuras desse herói desajeitado.

O próximo título traz uma segunda opção de personagem secundário, um ninja que parece ser mais capaz do que o sidekick anterior, então é provável que eu retorne acompanhado a esse carismático e cômico mundinho de Ron Gilbert e a Hothead Games.

Ouvindo: Das Ich - Von der Armut
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3 comentários:

Marcos disse...

Se você curtiu o DeathSpank, vai adorar o Thongs of Virtue. Mas passe longe do The Baconing (sim, nem leva o nome Deathspank), o Ron Gilbert saiu da produção antes desse jogo sair, e o jogo possui diversos pecadinhos que o torna esquecível

Raphael AirnMusic disse...

Deathspank está na minha lista infinita, um dia chegará a vez dele.

Ron é rei!

Sugiro tentar o Thimbleweed Park, quando resolver se aventurar num adventure feito por ele ;)

disse...

O remaster de Monkey Island é perfeito para quem aprecia o genero de longe, mas sem muito entusiasmo, como eu.

Tem uma curva de evolução perfeita para novatos, a interface foi toda otimizada para parecer um jogo moderno no remaster (alem de ser acrescentada dublagem, que só melhora o jogo) e é um dos poucos jogos que realmente me fizeram rir até hoje.

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