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15 de setembro de 2017

Jogando: Trine 3

Trine 3 - My Screenshot 01

Jogar Trine 3 deve ser uma sensação semelhante a assistir um trem descarrilhando. É visualmente fantástico, de arrepiar a espinha, uma experiência que você irá agradecer por ter saído com vida. Mas também é um desastre inacreditável, de algo que não foi feito para dar errado, mas ainda assim custou o sofrimento de muita gente e provoca uma certa culpa por ter curtido.

A metáfora é extremamente inapropriada, mas assim também é Trine 3: o jogo que tinha tudo para dar certo, mas não deu.

Mantendo a linha equivocada, permita-me então começar pelo final.

Não tem final.

Após uma longa, longa, longa exposição das forças em andamento no universo do jogo e uma clara visualização do que precisa ser feito para derrotar o grande vilão da história, Trine 3 se encerra abruptamente depois que os heróis completam o que deveria ser apenas a primeira etapa. Com direito a epílogo enigmático e uma possível revelação de quarto personagem.

Trine 3 - My Screenshot 07

Imagine A New Hope terminando com a Millenium Falcon escapando de Tatooine. Han Solo perguntando "e aí, para onde vamos agora?" e Obi-Wan respondendo que novas aventuras os aguardam. E sobem os créditos. Ou o filme do Capitão América terminando com o soro do supersoldado fazendo efeito. Alguém fala "bombadão, hein?" e sobem os créditos. Você nem vê o herói lutando. Ou Harry Potter embarcando no trem para Hogwarts e sobem os créditos.

Acho que já deu para entender.

Exceto que Star Wars deve quatrocentas continuações, Capitão América ganhou três filmes e Harry Potter virou saga. Mas Trine 3 para em Trine 3 e, de acordo com a própria desenvolvedora Frozenbyte, não há planos para Trine 4. Desde seu lançamento em 2015, quando o jogo saiu do Early Access, a desenvolvedora não olhou pra trás: lançou Shadwen, Has-Been Heroes e seu próximo título é Nine Parchments.

Considerando o hiato de quatro anos entre Trine 2 e sua continuação, ainda há esperanças, por mais que a própria empresa tenha se arrependido amargamente do terceiro capítulo. A transição do 2D para 3D custou muito mais que a Frozenbyte estava imaginando e o resultado foram bugs colossais e a necessidade de cortar a história a um ponto de ser ofensivo. Mesmo comercializando o jogo antecipadamente, faltou dinheiro para terminar e ficou por isso mesmo.

Trine 3 - My Screenshot 06

Erros...

Se os problemas do jogo se resumissem ao final abrupto da trama, seria somente uma surpresa desagradável ao final de uma jornada prazerosa. No entanto, não é o que acontece. A Frozenbyte comete mais equívocos além de apenas calcular mal suas finanças.

As evoluções de personagens, que davam um toque de RPG aos dois primeiros jogos da franquia, desaparecem por completo sem qualquer explicação. Habilidades antes tão queridas por mim ou por meu filho não estão mais presentes e nossos heróis são os mesmos do começo ao final da aventura, o que elimina e muito o sentido de progressão. Alguns poderes foram mantidos e outros foram acrescentados, mas quem esperava desbloquear algo ao longo do jogo vai se decepcionar.

A exploração de cada centímetro quadrado dos cenários, que antes era opcional e oferecia bônus na forma de pontos para evolução ou detalhes interessantes do seu universo, agora se torna obrigatória graças a uma decisão de design pobre: para avançar no enredo, é necessário liberar novos capítulos com "moedas", os "trineângulos" espalhados pelos mapas. Imaginamos que, talvez, como em outros jogos que utilizam do recurso (e Rayman Origins imediatamente me vem à lembrança), bastasse pegar cerca de 70-80% deles para assegurar o desbloqueio dos próximos níveis. Ledo engano: apenas uma passagem quase perfeita garante a fluidez do avanço e nos vimos repetindo fases em busca dos tais "trineângulos" deixados para trás, o que diminui muito o foco do jogo: de um maravilhoso conto de fadas com enigmas para uma cansativa caçada de objetos.

Trine 3 - My Screenshot 02

Os capítulos podem ser selecionados em uma espécie de mapa interativo, que insinua uma possível não-linearidade do jogo, mas é uma promessa falsa: não há caminhos alternativos, apenas uma oportunidade de repetir o que já foi jogado ou realizar missões "solo" com cada herói e que, por incrível que pareça, também não trazem uma sensação de término em suas próprias tramas paralelas.

A falta de foco está óbvia em Trine 3 ao oferecer uma trama confusa. Não que a série se caracterize por seus roteiros profundos (não acredito que conseguiria recapitular aqui o enredo do primeiro Trine ou resumir de forma satisfatória o do segundo). Mas Trine 3 comete novamente o pecado de tentar abraçar o mundo com as pernas também em sua história, introduzindo elementos demais, incluindo desvios que não fazem sentido.

O ultraje final acontece na batalha do único chefe do jogo, uma monstruosidade que ataca com padrões repetitivos e que, equívoco dos equívocos, aparentemente só pode ser derrotado com o uso do Cavaleiro. Para uma franquia que sempre se caracterizou pela colaboração dos três heróis, o fato de um deles ser de longe o mais indicado para fazer dano no inimigo enquanto outro é um risco absurdo e o terceiro é completamente inútil, soa como uma traição para os fãs.

... e Acertos

Então, Trine 3 é ruim? Não. Por que ainda é Trine.

Trine 3 - My Screenshot 03

Pai...

Trine 3 - My Screenshot 04

... e filho.

A essência de deslumbramento em cada tela ainda é palpável, desta vez com a possibilidade de se mergulhar na profundidade ou se aproximar. A causa do fiasco da Frozenbyte é também o maior trunfo de Trine 3, ao transpor aquele mundo mágico para algo mais imersivo do que era antes. Em mãos mais habilidosas ou com cofres mais largos, o terceiro jogo poderia ter sido a obra-prima que a desenvolvedora merecia, com novas possibilidades de interação com o cenário.

A empresa também pareceu menos preocupada com desafios de ferver o sangue ao exigir o salto perfeito. Usa-se mais a cabeça nesse e menos a visão microscópica e o reflexo de ninja. À exceção do chefe final, meu filho e eu praticamente não ficamos empacados em nenhuma fase.

Apesar de menor, a criatividade da Frozenbyte ainda pulsa nesse jogo, com a magnífica fase ambientada em uma academia de magos e sua arquitetura insana e no capítulo literalmente passado no interior de um livro. É um jogo que realmente frustra pela curta duração e Trine 4 fará falta.

Trine 3 - My Screenshot 05

O que nos leva a uma análise similar a Trine 3: confusa, com mais pontos negativos do que bons, indecisa sobre seus resultados e com um final ab

Ouvindo: The Mission - Hymn (for America)
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3 comentários:

Raphael AirnMusic disse...

O que é um final ab?

Que bom que tem a parte final da resenha dizendo que vale a pena, apesar dos problemas. Adoro os outros trines e estava com esse na fila pra jogar logo mais =D

C. Aquino disse...

"O que é um final ab?"

É uma palavra cortada. A análise acaba de repente, como o jogo... pronto, expliquei a piada. :(

Raphael AirnMusic disse...

putz, foi mal hahaha

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