Na medida em que se aproxima o lançamento de ELEX, a próxima iteração da fórmula consagrada no passado da Piranha Bytes, talvez seja um bom momento para remover a cortina sobre um episódio pouco conhecido de seu passado: a sequência que nunca houve do primeiro Gothic.
Olhando em retrospecto hoje, é lamentável ver como o nome da franquia foi arrastado para um fim indigno e como a própria desenvolvedora alemã parece repetir a si mesma em um ciclo infinito de falta de novas ideias. Não vou esconder que não tenho boas expectativas para ELEX. É a mesma receita requentada de quase dezoito anos atrás, com um motor gráfico de dez.
Mas, em 2001, a Piranha Bytes era a bola da vez. Seu primeiro Gothic cuspia na cara dos RPGs orientais e naquilo que se fazia no Novo Continente, com um niilismo e uma visão nada amigável da sociedade medieval combinados com uma liberdade de ação raramente vista. Era uma obra-prima e estava ganhando sucesso entre os jogadores europeus. Era o momento exato para seus criadores pensarem em uma continuação e ela viria, inicialmente, na forma de uma expansão, batizada internamente de "Gothic Sequel", na falta de um nome melhor.
Essa é uma história que foi desenterrada por uma comunidade de fãs russos, onde a franquia tem um lugar especial no coração, e uma história que a própria desenvolvedora preferia que não fosse divulgada. Ameaças de processo foram feitas, mas a história viu a luz do dia assim mesmo e, afinal, é uma que a Piranha Bytes deveria ter orgulho.
Na expansão do primeiro jogo, o Herói Sem Nome começaria do mesmo ponto em que o jogo principal terminou. Haverá spoilers nesse parágrafo... Em outras palavras, soterrado debaixo dos escombros de um templo profano após banir o Sleeper de volta para seu reino infernal. Ele é resgatado por Xardas e teleportado para a torre do mago. Sua armadura construída a duras penas foi destruída, sua espada mágica idem. Muitas de suas habilidades foram esquecidas. Se você está reconhecendo essa descrição, sim, é o início de Gothic 2, aquele que foi lançado, sem tirar nem por. Reciclagem é um dos lemas internos da Piranha Bytes.
A partir de seu início, Gothic Sequel passa a se diferenciar da verdadeira continuação da saga. As fronteiras entre as dimensões foram abaladas pelos eventos anteriores e a força maligna do primeiro jogo está enviando demônios para o mundo dos homens, enquanto planeja sua vingança. Nessa expansão, o Herói Sem Nome teria que enfrentar essa ameaça demoníaca e não os dragões vistos em Gothic 2 (e que, parando para pensar agora, fariam mais sentido que a súbita aparição destas criaturas tão empregadas por inúmeras obras de fantasia). Um segundo e definitivo confronto ocorreria entre o protagonista e seu oponente.
Outra novidade da expansão seria a chegada de uma guerreira lutadora de bastão, chamada Thora, à região de Khorinis, enviada pelo próprio Rei Rhobar II para investigar os incidentes na antiga colônia penal. E ninguém menos que o próprio Rei também apareceria em Gothic Sequel, muito antes de sua participação fugaz em Gothic 3. Sua Majestade traria sua corte para uma Fortaleza nas Montanhas, que seria reaproveitada como o covil do Dragão de Pedra em Gothic 2.
Muitos outros elementos da continuação também acabariam sendo aproveitados em outros jogos da saga, como as perícias de Alquimia, fabricação de Runas e Cozinhar, além das classes Guarda Real e Caçador de Demônio, que seriam renomeadas para Paladinos e Caçadores de Dragão no verdadeiro Gothic 2. Mesmo Thora, cujo modelo estava totalmente criado para a expansão, acabou encontrando uma vaga nos planos da desenvolvedora... como a prostituta com que o protagonista pode ter uma cena de amor no segundo jogo.
Segundo o que foi apurado, a expansão já estava em uma fase de desenvolvimento em que era possível jogar os seus arquivos. Mas algo aconteceu que mudaria a face da saga e seria um prelúdio de sua derrocada: a intervenção da produtora JoWood.
Com o sucesso do primeiro jogo, a Phenomedia AG, empresa-mãe da Piranha Bytes, conseguiria um acordo comercial que parecia caído do céu com a poderosa produtora influente no cenário europeu. A JoWood abriu as portas daquele RPG que poderia ter ficado confinado a um nicho para o mundo. Mas o preço era a interferência: de imediato, a desenvolvedora recebeu a ordem de cancelar a expansão, uma vez que a boa recepção do primeiro jogo pedia uma continuação completa, não uma reles expansão. O projeto foi engavetado, ainda que seus criadores tenham reutilizado conceitos e elementos já prontos no resto da série.
Gothic como um universo coeso certamente teria seguido uma direção completamente diferente. Ao invés de se trazer diferentes ameaças a cada episódio para o Herói Sem Nome (ou o cara mais azarado do planeta), poderia ter havido um conflito único e um inimigo sólido mais claro do que as forças ocultas confusas e mal-elaboradas expostas no terceiro jogo. Não dá para saber, é claro.
A saga de Gothic acaba se confundindo com a da própria Piranha Bytes, sacudida por forças externas além de sua criatividade, algumas vezes sem rumo.
Depois de amargar uma temporada sobre o controle da JoWood e seus sucessores, a marca retornou para a Piranha Bytes. Houve a indicação que um retorno triunfal poderia acontecer, mas ELEX se tornou o projeto ambicioso do momento da empresa. Recapturar a paixão de quase dezoito anos atrás é tarefa hercúlea e, talvez, seja melhor assim. O que está adormecido talvez deva permanecer adormecido.
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