Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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26 de março de 2014

Empatia

Todos os dias somos bombardeados por notícias sobre conflitos, guerras, desastres, catástrofes, vidas que se perdem. Dizem por aí que o consumo excessivo de jogos violentos nos tornaria insensíveis para o sofrimento alheio, que haveria uma perda de empatia. Outros especialistas, muitos deles, na verdade, rebatem que são os noticiários que nos deixam insensíveis: "120 desaparecem em acidente de avião", "245 pessoas são soterradas por deslizamento", "choque entre grupos rivais faz 18 vítimas". Sem que nos demos conta, o outro ser humano se torna uma unidade que compõem um número. Não é mais um pai de família que não voltará para casa ou um promissor estudante de Medicina que desaparece, mas 120, 245, 18, abstrações que acontecem em algum lugar fisicamente distante.

A chave para alterar essa perspectiva é a identificação, é o conhecimento. Tudo muda quando uma reportagem mais profunda nos mostra nomes, vidas, rostos que se apagaram.

Quando eu vi as fotos dos protestos na Ucrânia, agora ameaçada pela truculência de uma superpotência militar, não pude deixar de pensar em todos os desenvolvedores de jogos que trabalham lá.

Ucrania 04 Ucrania 01 APTOPIX Ukraine Protest

Todas as fotos são dos confrontos entre manifestantes e a polícia na capital, Kiev.

A mesma Kiev onde funciona a Action Forms, criadora da série Carnivores. A mesma Kiev onde funcionava a GSC Gameworld, criadora da franquia S.T.A.L.K.E.R. e de cujas cinzas surgiu a Vostok Games, que desenvolve o MMO Survarium. A mesma Kiev da Deep Shadows, do infame Boiling Point. A mesma Kiev da 4A Games, criadora da incensada franquia Metro. A mesma Kiev da Ubisoft Ukraine, braço da gigante francesa que colaborou no desenvolvimento de Assassin's Creed IV. Tantos desenvolvedores trabalhando em uma cidade em chamas.

Em cinco dias de conflitos, 102 pessoas morreram, mais de mil ficaram feridas. Quantas delas não ajudaram de alguma forma a criar vários jogos que nós tanto curtimos? Ou tiveram parentes e amigos atingidos pela proto-guerra civil? A imprensa não informa, não se sabe.

Nigéria: País do Futebol?

Da mesma forma, a opinião geral sobre a África é de um continente subdesenvolvido, castigado por guerras tribais, AIDS, fome e até mesmo uma maldição bíblica. Mas é um Continente, uma vasta massa territorial que não pode e não deve ser generalizada com opiniões preconcebidas, resquícios da visão colonialista ou lembrada apenas quando um viral cuidadosamente construído acerta a internet.

Há pessoas na África, iguais a nós. Há jogadores na África, se essa identificação facilita a empatia.

Em Dezembro do ano passado, o Polygon produziu um magnífico ensaio fotográfico sobre como os jogos são, bem, jogados na Nigéria.

Africa 04 Africa Africa 02 Inside Knightz gaming center Em um país onde a infraestrutura de banda larga ainda é precária e o 4G é o acesso mais popular, as disputas entre jogadores são cara a cara, mas não menos acirradas. Jogos de luta e esportes são os preferidos e, a julgar pelas fotos, não são exclusividade da "molecada", como quem está fora do meio acredita.

Removendo o Medo

Em Novembro do ano passado, a The New Yorker publicou um artigo sobre os jogos eletrônicos no Iraque. Se o americano médio ou o cidadão do mundo médio imagina um vasto deserto repleto de camelos, terroristas de turbante e viúvas de Saddam Hussein, a realidade, como sempre, diverge.

Um dos maiores jogadores de Battlefield 3 do planeta é iraquiano e tinha apenas 18 anos na época da reportagem. Um título onde uma força invasora altamente treinada invade o seu país em nome da Justiça e da Democracia. Uma das missões da campanha inclusive se passa em Sulaymaniyah, a cidade onde ele mora. Contraditório? Não se você conhecer Yousif Mohammed. E o Iraque.

Seus pais temem que o excesso de jogos de tiro possam tornar o garoto em algum tipo de psicopata, como tantos pais em tantos países. Mas aqui também sabem que o hábito permitiu que ele fizesse amigos rapidamente na cidade para onde se mudou, fugindo da violência real. Também sabem que quanto mais tempo o garoto passar em casa jogando é menos tempo que irá passar exposto aos perigos da rua. Em cinco anos, mais de mil pessoas morreram em atentados à bomba no país. Os jogos eletrônicos se tornaram uma segurança para os pais e uma válvula de escape de toda uma geração.

Jogadores iraquianos

Clubes, cinemas, shoppings, parques, todos podem ser alvos de homens-bomba. O jogo online se torna a principal diversão. Apesar disso, o país ainda sofre sanções de importação e compra. O Steam, por exemplo, recusa cartões de crédito iraquianos. O que gera um mercado paralelo onde portadores de cartões americanos ou ingleses funcionam como atravessadores para aqueles que não tem, comprando jogos e "dando" gifts no serviço de distribuição digital.

Call of Duty, Medal of Honor e Battlefield são bastante populares entre os jovens. Segundo Mohannad Abdulla, administrador de sistemas, "qualquer jogo que seja ambientado no Iraque e envolva matar terroristas se torna instantaneamente famoso aqui. Nós passamos por muita coisa por causa do terror. Atirar em terroristas em um jogo é catártico. Nós podemos ter nossa vingança de alguma forma".

E Yousif Mohammed acaba funcionando como um embaixador da empatia. Em suas partidas online, percebeu que muitos jogadores tinham medo dele por ser iraquiano. "Eles acham que somos todos terroristas. Mas na realidade, nós somos as vítimas. Quando eles me conhecem, eles veem a verdade e mudam de ideia sobre os iraquianos. O medo foi removido".

"Gamers"

O prazer de disputar partidas eletrônicas ou navegar em universos virtuais não é o que define uma pessoa, obviamente. Mas é um ponto em comum, um ponto de contato para a aproximação, um detalhe que muitas vezes é o que basta, para separar indivíduos de números, povos de estereótipos. Poderia ser uma comida preferida, poderiam ser os filmes do cinema ou um time de futebol, um recorde batido ou um sonho compartilhado. Porque, somos todos gamers, pais, filhos, irmãos, torcedores do Barcelona ou do Real Madrid, fãs de Crepúsculo ou entusiastas de Kubrick, comedores de pizza, homens e mulheres.

Somos todos humanos.

Ouvindo: The Sisters Of Mercy - Summer
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8 comentários:

Marcos A. S. Almeida disse...

"Bando de desocupados" - Folha do Globo do Estado de São Paulo

"Futuros assassinos" - Rede do Sistema Record Brasileiro Bandeirantes de TV

"Quero ser advogado, mas posso jogar Warframe esse final de semana, pai?" LFrancoII - 13 anos - Filho do Dellphos

Adivinhem em qual deles eu acredito?


Edu Lacerda disse...

Minha opinião sobre a Ucrânia é diferente da sua, mas em linhas gerais foi um sextos mais interessantes que li aqui no blog. Sensível e bonito.

Morcego de Netuno disse...

Cara, que texto demais. Concordo com você, todos os dias milhares de pessoas morrem e apenas um 5% delas são noticiadas, das quais menos de 1% têm seus nomes e rostos divulgados pela mídia. A sociedade precisa mudar, a mídia precisa mudar. As pessoas precisam entender que não são "apenas" alguns seres humanos que morreram, que perderam suas vidas, mas sim que vários homens e mulheres de todo o mundo deixam uma perda inestimável no ambiente em que viviam, marcas irreparáveis em familiares e amigos, além de todo o futuro que poderiam ter.

Acho que a principal razão por essa massa de generalização e repúdio pela vida alheia vem da própria mídia. O sensacionalismo que se torna cômico e ridiculariza a intensidade dos fatos (como o caso da Boate Kiss, em janeiro do ano passado, em que - principalmente - a Rede Globo demonstrava com um "afeto falso" o sofrimento de diversas pessoas que perderam amigos, amantes e familiares naquele dia), a despreocupação com a informação "profunda" (apenas dizem "Tantas pessoas morreram e tal acidente", ao invés de buscarem informar as causas do acidente e o que a morte de tais vítimas impactou na vida de outras pessoas) e a alienação ("Morrer é normal, pouco importa se alguém morra, existem outros bilhões de humanos que podem substituir as vidas perdidas" - Filmes e demais meios de entretenimento").

Agora, mais do que nunca, numa era rumo à revolução da mente humana e do próprio mundo, as pessoas devem se libertar dessas correntes que as prendem e as impedem de enxergar a realidade por si só, ao invés de acreditarem na mídia, nos outros e nos estereótipos impostos pela sociedade.

Novamente, belo texto.

Marcos A. S. Almeida disse...

Morcego de Netuno , eu fico particularmente indignado quando alguém, de uma maneira genérica ataca a "mídia".Você quer o quê?Um blog com uma pessoa chorando diáriamente pelas pessoas mortas? Um canal do Youtube com um vídeo só com o nome de pessoas mortas no dia anterior? Um jornal só de obituário? Quer um jornal só com biografia de pessoas mortas?Você leria? Claro que não!!! Fala sério! Pense bem no que você falou.Temos de exaltar a vida , a felicidade, os momentos marcantes e não momentos fúnebres.O próprio Aquino, que redigiu esse ótimo texto , não utiliza o tom de protesto ou desabafo - acho eu - e sim o da constatação.Não vejo ele fazer nenhum juízo.Infelizmente (ou felizmente) não é possível individualizar cada morte , cada sofrimento alheio em meio a uma multidão de pessoas.Apenas as exceções merecem o devido destaque.Por favor, pare de atacar a mídia como se fosse um ser onipresente e responsável por todas as mazelas do mundo.E vejo que não é só você , mas muitos jovens têm essa mania de atacar " a mídia".Ela têm seus problemas , óbviamente, mas não podemos generalizar.No caso da Kiss , qual seria a postura correta? Invadir a privacidade das pessoas e mostrar suas feridas , suas sequelas?Contar a história desde a infância de cada um dos envolvidos?Isso não seria sensacionalismo? Abra o olho amigo, temos de lamentar as mortes , sem individualizar , mas principalmente, temos de COBRAR das autoridades a preservação de vidas.Obituário somente com as funerárias.

Shadow Geisel disse...

concordo com o Marcos. quando uma morte é coberta com muito "afinco" pela mídia, não faltam acusadores para apontar o indicador (e com razão, em 99% dos casos). temos que nos lembrar que a escala de TUDO no mundo mudou drasticamente nos últimos 50 anos. não estamos falando de um óbito em uma cidadezinha pacata do interior. estamos falando de todos os cantos do mundo.o que deve ser cobrado da mídia é mais postura de incentivar os cidadãos a cobrarem de seu governo.

Davi disse...

Lindamente escrito!

Helder disse...

Senti falta de textos mais políticos. Boa!

aRexxx disse...

Muito bom o texto e as imagens, me fez pensar em como deve ser a realidade delas e como todas as pessoas ja tem um "pré-conceito" sobre as outras.

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