Retina Desgastada
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25 de outubro de 2011

Jogando: Fallout 3 - The Pitt

O DLC para Fallout 3 The Pitt consegue ter menos variedade de inimigos do que Point Lookout. Surpreendentemente, não dá para sentir. Apresentando algumas das mais impactantes paisagens pós-apocalípticas já vistas, a Bethesda consegue nos apresentar aqui tanto uma faceta mais sórdida do fim da civilização como também a imensidão industrial de uma Pittsburgh arrasada. Com uma introdução de tirar o fôlego, ambíguas escolhas morais e muita sujeira, a expansão naufraga apenas em seus momentos finais e na inconclusiva conclusão.

The Pitt - Screenshot 02

Em seus primeiros momentos, The Pitt começa de forma modesta, que não te prepara para o tamanho do problema que irá aparecer. Um sinal misterioso, uma patética emboscada facilmente neutralizada por um herói de nível alto e já chegamos na entrada dos túneis. Palmas para a sacada do grupo de escravistas reconhecer meu personagem como o responsável pela destruição de Paradise Falls, um dos raros momentos no jogo em que alguma coisa que eu fiz gera consequências mais longas. Como matar escravistas é meu passatempo favorito desde o segundo Fallout, não há nenhum inconveniente aqui. Ao emergir dos túneis, já no território exclusivo do DLC, sou apresentado a mais alguns escravistas em uma genérica estação de trem. Nada demais. Até que, alguns metros mais na frente, sou apresentado à silhueta da devastada cidade de Pittsburgh. A travessia da ponte irá permanecer na minha memória como um dos momentos mais opressores do jogo, não pelo desafio, mas justamente pela falta dele, pelo silêncio, pelas dimensões do holocausto.

Enquanto Point Lookout infla artificialmente as estatísticas de seus oponentes para elevar a dificuldade, em The Pitt um outro (e mais inteligente) recurso é utilizado para nivelar seu personagem ao cenário. Neutralizado, humilhado, me vejo obrigado a seguir os rumos da aventura, envolto pelos tristes sinais da escravidão. No mundo real, são menos de 130 anos que nos separam deste cruel estigma, praticado por tantas "civilizações" ao longo da História. Vê-lo reproduzido sem pudores na tela do computador é de doer o coração.

The Pitt - Screenshot 03

No outro extremo, The Pitt traz cenários complexos onde você fica imaginando como foi possível inserir tantos polígonos na mesma cena. O mapa talvez seja do mesmo tamanho de Point Lookout, mas é todo preenchido com passarelas, andaimes, ruínas, escadas, ferro retorcido, chaminés. É um pesadelo onde a vida não floresce, mas se deforma. Uma das aberrações nativas, ao ser derrubada por meus tiros, murmura um "obrigado" de gelar o coração.

The Pitt - Screenshot 04

Meu lado caçador de escravocratas clama por vingança diante das barbaridades, mas o DLC segue seu ritmo, adiando o momento perfeito. Infrinjo as regras e embosco um dos carrascos em um beco escuro, sem ninguém por perto. Arrebento com ele, por puro despejo de adrenalina, e consigo não alertar ninguém. Mais adiante, o jogo reequilibra as coisas e tenho a possibilidade de executar meus planos de Justiça com as próprias mãos. Com tantas horas acumuladas em Fallout 3, foi-se a inocência dos primeiros momentos. The Pitt ainda me apresenta uma pequena reviravolta no meio da trama e introduz um dilema desnecessário. Entre o cinza clarinho do compasso moral e o mais absoluto negrume, eu fico com o cinza. Não há escolha, no final das contas. E, no final das contas, tudo se encaminha em um imenso derramamento de sangue. É uma catarse vingativa, onde meu personagem de nível 30 passa como um rolo compressor por cima dos oponentes. Para completar, as portas do Inferno são liberadas e um mal pior do que os escravistas cai sobre suas cabeças. Não é bonito de se ver. The Pitt - Screenshot 06 The Pitt - Screenshot 08Após a revolução, nada muda. Assim como no jogo principal, a Utopia não chega a Pittsburgh. Pior do que isso, da mesma forma, poucos são os NPCs que se dão conta de que eu fiz alguma coisa. As forjas de fogo e aço continuam funcionando, suor e sangue continuam pingando, ainda existe uma ameaça no horizonte. E a esperança de cura, de alguma salvação, ainda é muito pequena. E me mandam procurar ursos de pelúcia? Eu vou, mas é a última coisa que faço por The Pitt. Quando eu parto, espero que as coisas melhorem quando eu não estiver por lá. Por que enquanto lá estive, quase nada mudou.

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8 comentários:

Breno disse...

"Palmas para a sacada do grupo de escravistas reconhecer meu personagem como o responsável pela destruição de Paradise Falls, um dos raros momentos no jogo em que alguma coisa que eu fiz gera consequências mais longas."

O que vc vé como motivo para elogio,eu apenas vejo como uma obrigação basica de uma produtora que se diz desenvolvedora de RPGs. Se uma desenvolvedora não consegir implementar uma mecanica que já foi introduzida por diversos rpgs de qualidade,o que dira então a qualidade do jogo.Alias,o que vc ve como consequencia é apenas a velha ilusão de concequencia,tendo em vista que uma linha adicional de dialogo não muda de forma alguma o modo de jogar e resolver os quests do jogo.A definição correta seria reatividade.

Ate que eu gostei da forma como a quest principal do DLC se desenvolve. Sai um pouco do preto e branco que se prolonga durante toda a campanha principal(que é quase ao nivel de fable).A sacada é que para vc se juntar a facção boa,é necessário sujar as mãos.

Eder R M disse...

Breno, pessoalmente, eu interpretei esse comentário do Aquino com uma dose de ironia, justamente pela falta de consequências duradouras em FO3 (mas sei lá, talvez sejam "apenas meus olhos" :D)

Quando joguei FO3, achei fantástico, a princípio, poder escolher o destino de Megaton. Um instante bem "uau" mesmo. Mas mais adiante fui percebendo que, além de (para mim, ao menos) a escolha ser bem óbvia, esse era um dos poucos momemntos desse tipo no game. E, que fora de Megaton/Tempenny Tower, virtualmente ninguém se importava com isso...

Meio off-topic: no site the Vault, mais precisamente no link http://fallout.wikia.com/wiki/User_blog:Crazy_sam10/Weekly_poll_-_23, há um enquete sobre "qual seu jogo Fallout favorito". Apesar de esse tipo de questão/enquete ser um tanto (completamente?) desnecessário, achei interessante apontar que, no momento que digito isso, O New Vegas está vencendo com 46% contra 34% do FO3, para minha grande surpresa.

Surpresa porque, apesar de considerar o New Vegas um grande jogo (DLCs inclusos) e ser um dos meus games favoritos *de todos os tempos* (sim, sou fanboy :D), devo dizer que, por o FO3 ser mais mainstream (como tudo em que o Todd Howard bota as mãos diretamente), tinha certeza que ele se manteria no topo facilmente. Fico feliz de ver que não estou sozinho nas areais de Mojave Wasteland ;).

breno disse...

Pode ser Eder,mas é bom levar a definição com uma abordagem mais detalhista.Se Aquino estiver falando a serio o termo consequencia duradoura,então eu acredito que ele precisa rever um pouco esse conceito.

a fraca posição dos fallouts originais na enquete é decepcionante.Alias,que danado é aquele fallout:warfare?

O problema de new vegas para mim é justamente a engine e as mecanicas que conseguiram envelhecer mais rapido que os jogos da velha guarda.Quem sabe um dia quando eu esquecer a "experiencia" de FO3,eu consiga jogar new vegas.

Poa Kli-Kluu disse...

Caraca Aquino, tu sempre me espanta em como consegue me impressionar na forma como escreve. Sua convição detalhista descritiva é no mínimo, cativante. Fiquei muito animado a jogar essa DLC.

Tu até me inspiraste a escrever mais sobre Fallout no blog em que escrevo.

Triste saber que não importa o que fizermos em DLC's, pouca interferência ou relevância há em nossos atos quando nos deparamos de volta com Wasteland. Ninguém acha estranho uma arma de plasma, ninguem nota uma Megaton explodida mesmo se ela podia ser vista há km de distância.

Poa Kli-Kluu disse...

Aliás Aquino, lera meu post sobre filosofia em games no blog em que escrevo?

C. Aquino disse...

Breno e Eder, eu não estava sendo irônico apenas um pouco ufanista com o sopro de reação esboçado pela Bethesda. É triste ficar feliz com tão pouco, mas foi o que aconteceu. Agora, eu nunca imaginei que os primeiros Fallout fossem ficar para trás em uma votação no que já foi um bastião da franquia, como o Fallout Wiki (antigo Fallout Bible). Meu voto foi para o primeiro.

Poa, eu salvei nos meus favoritos, porque preciso separar uns minutos para jogar aquele título em flash que você recomenda antes de prosseguir na leitura.

Poa Kli-Kluu disse...

Quando tiveres tempo, recomendo que jogue, vale muito os minutinhos gastos (;
E como adoro seus texto, caso ache que eu eu possa fazer algo pra melhoras ou indicar, ou mesmo apenas sua opinião, por favor, me dia por twitter o/
meu twitter é @iguu_poa , abraço (:

Shadow Geisel disse...

cara o maior susto da minha que eu levei no fallout 3 foi justamente no the pitt

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