Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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13 de agosto de 2011

Rageando

(corrigido às 20:30, com novas informações)

(corrigido outra vez no Domingo!)

Rage Após anos de espera, o próximo jogo da id software promete revolucionar o mundo das engines gráficas mais uma vez. Rage traz para a mesa as mais absurdas resoluções de tela já vistas pelo homem. Mas Rage traz também o começo do apocalipse.

O diretor criativo Tim Willits revelou em entrevista a nova arma da indústria dos jogos eletrônicos contra o mercado de usados. O pobre infeliz que comprar o jogo de segunda mão não conseguirá ativar um setor inteiro do universo do jogo na campanha single-player. Toda a área dos esgotos, suas missões e inimigos, estará fechada para aqueles que não conseguirem ou não quiserem comprar o jogo na loja.

Willits tentou justificar a decisão: "A maioria das pessoas não vai vê-la nunca mesmo. Eu posso te dizer, algumas pessoas irão comprar Rage e nunca vão botar o pé lá. Eles simplesmente não vão. Eu acho que é justo. É bacana. Está fora da trilha principal. Nós não estamos comprometendo nada". Willits afirma que o jogo também terá uma forma de ativação online, mas não declarou se haverá alguma forma de desbloquear o conteúdo travado mediante uma propina à desenvolvedora.

Não sei nem por onde começar em apontar como esta decisão está equivocada e representa tudo que existe de podre na indústria dos jogos eletrônicos. Se o conteúdo bloqueado não é relevante para o jogo, porque ele foi incluído? Se ele é tão irrelevante e escondido porque o primeiro comprador paga o preço integral do jogo? Se ele é tão irrelevante, então porque seu bloqueio funciona como uma "punição" ao segundo comprador? Se o conteúdo já está no disco, o que a id software perde ao liberá-lo? (o conteúdo não está no disco e é baixado como um DLC gratuito para quem compra o jogo, automaticamente)

O mercado de usados existe desde que o comércio foi inventado. Ele existe porque nem todos os consumidores são iguais. Alguns podem comprar seus produtos a preços artificialmente inflacionados no dia do seu lançamento, outros esperam o custo de produção abaixar e outros compram o produto muito tempo depois, por questões financeiras, por escolha ou simplesmente por não saberem que o produto era bom na época do lançamento. Volto a repetir a pergunta que fiz, quase dois anos atrás: se o jogo vai parar no saldão quatro meses depois do seu lançamento, de quem é a culpa? Do jogador? Da desenvolvedora que entregou um produto descartável? De toda a indústria? O consumidor que a indústria está punindo hoje poderia ser o um consumidor de um título novo amanhã ou um influente divulgador de uma determinada franquia. Mas ele está sendo tratado como um criminoso, como um venda perdida.

Todos os setores sadios do mercado se auto-alimentam e se renovam a partir do mercado de usados. Quem nunca comprou um livro no sebo, quem nunca comprou um carro usado ou um apartamento de segunda mão? Se mantivermos nossa comparação apenas com o mercado editorial, veremos que ele sobrevive a séculos convivendo com livros usados, livros xerocados, livros emprestados entre amigos e até clubes de troca de livros! Em nenhum momento capítulos são bloqueados porque a editora não está recebendo uma parte na transação. Em nenhum momento, o leitor é obrigado a se conectar com a Record ou com a Melhoramentos para ativar seu livro, muito menos se manter online enquanto lê. Em nenhum momento, o livro se auto-destrói depois da quinta releitura. E um livro bem-preservado pode durar décadas, muito além do período tecnológico que um jogo permanece compatível. Aquele garoto que hoje tem doze anos e que encontrar Rage no eBay daqui a dez anos, não poderá jogar o título da id software em sua totalidade, mesmo que tenha a sorte de fazê-lo rodar no Windows X. Eu posso ler um livro de trinta anos atrás na íntegra, se descontar as mordidas de traça.

Sebo de livros

Já se tornou lugar-comum que as empresas cobrem uma taxa extra para ativar as funcionalidades online de um jogo comprado usado. A justificativa para isto seria o custo de manutenção dos servidores, desde que estes servidores não sejam desligados um ano após o lançamento. Pouca gente agora se lembra da comoção causada por Modern Warfare 2 quando foi anunciado que o jogo usaria somente servidores dedicados da própria EA Activision. Agora, servidores controlados pela própria produtora são a norma. Uma rede de servidores sustentada por aficionados ou mesmo por empresas privadas, como costumava ser nos "bons e velhos tempos" livraria as produtoras deste "encargo". Esta estrutura descentralizada mantém Killing Floor funcionando muito bem, obrigado. E vai funcionar por muitos anos, enquanto houver interesse no jogo, mesmo que a Tripwire Interactive feche as portas ou resolva investir em outro segmento.

Então, qual seria a desculpa da id software para bloquear conteúdo single-player? Conteúdo que já existe no disco. Conteúdo que foi removido do disco com o único propósito de servir como moeda de barganha contra o consumidor que não compra o jogo novo. Por que se dar ao trabalho de programar mais algumas linhas de código a não ser a mais pura arrogância e a mais pura ganância? Como um diretor-criativo pode afirmar que este comportamento é "justo", "bacana"? E a id software não está sozinha em sua guerra aos usados, esta batalha sem sentido por trocados. A Capcom aderiu com o polêmico Resident Evil: The Mercenaries (a doce ironia de um nome...), ainda que afirme não ser esse o seu objetivo. A EA tem seu online pass. A Sony e a Ubisoft estão próximas de implementar soluções semelhantes.

Curiosamente, ou não, lojas de distribuição digital estão começando a oferecer serviços de "usados". A pioneira foi a Green Man Gaming, onde o título que você não quer mais pode ser trocado por uma fração do valor. E agora quem ameaça entrar neste mercado é o líder da distribuição digital: Steam. Depois de ter negado rumores em outubro do ano passado, o sistema de troca do Steam existe. Ainda está em beta e tem suas ressalvas, porém é um sinal inevitável que a mudança está a caminho. 

Troca do Steam

Seria a utopia das produtoras: um mercado de usados "autorizado", com preços controlados, usuários identificados, DRM renovado e uma taxa devidamente aplicada. Quando este dia chegar, nós iremos recuperar o esgoto de Rage. Mas teremos perdido muito mais.

Ouvindo: Soundtrack - Rango Theme Song
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5 comentários:

EsquizoDouglas disse...

É, as produtoras estão perdendo a vergonha. É incrivel a cara de pau do Willits em dizer "é super bacana, ninguem vai ver mesmo." muito legal, realmente INCRIVEL!

Estou ficando cada vez mais desanimado com a nova geração de produtoras, parece mais uma ditadura ou sei la.

Lucs disse...

Tão querendo ferrar com o mercado dos games mesmo.É Só ferro em cima do consumidor...
Estão criando dificuldades que só existem pro consumidor de games.
Mais triste é lembrar que dificilmente um game é eterno,principalmente esses multiplayer centralizados,e essa dificuldade de comprar/distribuir só deixam menos eterno o produto.
Tudo isso só para ganharem mais.

Acho que tem um errinho no primeiro parágrafo depois da imagem da livraria:"Modern Warfare 2 quando foi anunciado que o jogo usaria somente servidores dedicados da própria EA"
Não seria da Activision ou IW?

Eu odeio grande parte desses DLC dos games atuais,já tem jogo que sai com DLC pra comprar junto.Isso é repugnante.
Outra coisa que não gosto são aqueles DLC que você olha e percebe que são obrigatórios.

E seria bom lembrar que game é um negócio que desvaloriza rápido.E cada vez menos parece que algo que você paga se torna algo seu.

C. Aquino disse...

Opa! Falha apontada pela Lucs! É tanta empresa gananciosa que eu confundi quem produziu Modern Warfare 2. Texto corrigido! Obrigado pela dica!

Chaccall disse...

Podem malhar mas só falo o seguinte: Só The.Pirate.Bay Salva! Esse é o ponto de equilíbrio nessa queda d braço produtor vs jogador.A pirataria é o Yin e as produtoras o Yang.

Marcos A. S. Almeida disse...

É nessa hora que entendemos o que o grande Alexandre Taú quis dizer no seu ótimo texto-denúncia-desabafo JUSTIFICANDO A PIRATARIA , indicado no post acima pelo Aquino.

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