O gênero de corrida segue sendo o único gênero que eu conheço em que conduzir uma narrativa é um esforço fútil. Não que jogos de estratégia estejam muito acima da decepção nesse quesito, mas o fato é que o jogador médio, quando pega um título de corrida, está muito mais focado na sensação de velocidade do que na motivação de seu personagem ou mesmo na existência de um personagem. Partindo desse preâmbulo, é possível afirmar que Need for Speed Undercover se encaixa perfeitamente, trazendo uma competente sensação de velocidade, embalada em uma história medíocre.
Aqui, controlamos um policial infiltrado no submundo das corridas clandestinas, para investigar furto e venda de carros esportivos. Não é das melhores premissas, já rendeu infinitos filmes B na televisão e infinitos filmes de alto orçamento na franquia Velozes e Furiosos. A EA Games não faz nenhum esforço para fugir do clichê, nem mesmo na reviravolta final. Tudo isso é entregue por atores de baixo calibre, em cenas espaçadas, sem nenhum tipo de legenda.
A história é insípida, porém, ao contrário do que aconteceu em Need for Speed: The Run, esse fiapo de trama, na verdade, colide de frente com a jogabilidade. Somos um policial infiltrado que, para provar seu compromisso com as gangues, irá provocar a destruição maciça de unidades policiais em diversas missões extremamente repetitivas. Acredito que eu causei mais prejuízo aos cofres públicos do que a operação que eu estava encarregado de desbaratar. Existem missões em que o jogador é literalmente obrigado a provocar perdas de dezenas de milhares de dólares. Somando tudo, possivelmente causei um rombo de mais de um milhão de dólares. Considerando o nível de caos e a força das batidas, é um milagre que eu não tenha também deixado uma trilha de cadáveres de bons policiais ou civis pelo caminho.
Em The Run, a premissa absurda dava um tempero ao jogo. Em Undercover, a premissa desgastada faz você questionar que raios de missão é essa. Em muitas ocasiões, determinados personagens pareciam como grandes antagonistas, apenas para sumirem da trama logo em seguida, derrotados e capturados em momentos que não traziam satisfação alguma ou mesmo geravam uma nova cutscene. Acho que o único bandido que vi saindo algemado foi o vilão final. Ou talvez eu não estivesse prestando atenção, porque a história em si era irrelevante. A única vantagem narrativa de Undercover em relação a The Run (que já tinha um desenvolvimento ruim, que fique bastante claro) é que Undercover não traz segmentos em que o protagonista está fora do carro, realizando ações de QTE.
E é isso que Need for Speed Undercover tem de bom: correr de carro. É o mínimo que se espera de um jogo da franquia e, de fato, está para surgir na minha frente um título da série que eu abandone (mentira: Shift foi largado com quinze minutos de jogabilidade, porque era um simulador, não um arcade). O resultado dessa dose diária de adrenalina e óxido nitroso é que mais uma vez eu aguentei a história até o momento em que subiram os créditos. E vieram na hora certa, porque eu já estava me cansando de disputar as mesmas corridas nos mesmos lugares.
O mundo de Need For Speed Undercover é satisfatoriamente grande, com um volume igualmente satisfatório de diferentes modalidades de corrida. Entretanto, o jogo parece exigir uma sucessão de tarefas intermediárias antes de apresentar uma missão de história que explore um pouco mais as possibilidades de jogabilidade. O jogo ia me oferecendo novas missões e eu só ia aceitando, martelando o TAB corrida após corrida. No final das contas, não sabia mais se o jogo estava me sugerindo missões repetidas ou se as missões são realmente muito parecidas, mesmo dentro de um conjunto aparentemente amplo. Para quem disputou mais de 100 circuitos em Need For Speed Underground, a impressão que eu tenho é que esse é o jeito da própria franquia: empurrar tantas corridas garganta abaixo que o jogador encerra sua jornada com a sensação de saciamento, para não dizer exaustão.
Esse cansaço ao final de Need for Speed Undercover pode ser explicado também pelo volume de horas: foram 13 horas marcadas no Steam, quase o dobro do que eu gastei com The Run. Por outro lado, Most Wanted consumiu 27 horas da minha vida sem provocar o mesmo efeito negativo.
Excetuando os momentos em que você precisa confrontar a própria polícia, o jogo é fácil, possivelmente um dos Need For Speed mais fáceis que já joguei. A seleção musical é impecável, como sempre. Visualmente, o jogo entrega uma experiência muito agradável para um título de 18 anos atrás. Esbarrei em muitos poucos bugs, o mais comum foi uma insistência em esquecer as minhas configurações gráficas e me forçar a ajustar tudo novamente.
Need for Speed Undercover é perfeitamente dispensável no currículo de qualquer jogador, embora eu não me arrependa de ele ter sido colocado na minha fila pela mais pura aleatoriedade. Fui feliz enquanto o pé esteve nesse acelerador. Hora de girar a roleta do backlog mais uma vez e ver se a sorte me surpreende com algo genuinamente bom.
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