A história dos jogos eletrônicos não existiria como conhecemos sem a presença e sem o talento de profissionais LGBGTQIA+. Danielle Bunten, uma mulher trans, foi a criadora de M.U.L.E., em 1983, um dos primeiros títulos multiplayer do mercado. Tim Cain, um dos pais da franquia Fallout, assumiu sua homossexualidade no início dos anos 2000. Rebecca Heineman, um dos pilares de diversos estúdios e pioneira no jornalismo sobre jogos, era uma mulher trans. American McGee, responsável pela franquia Alice, se define como pansexual. No predominantemente machista ambiente em que os jogos eletrônicos nasceram e vicejaram, suas histórias e identidades de gênero foram apagadas ou esquecidas. Qualquer pessoa que acredite que a presença dessa população na indústria é uma invenção moderna ou consequência de uma diversidade "forçada" está mal informado ou mal intencionado.
Então, em 1989, era lançado Caper in the Castro, o primeiro título conhecido por trazer o universo LBGTQIA+ para dentro do próprio jogo. O adventure point and click trazia a detetive lésbica Tracker McDyke investigando o desaparecimento de uma amiga, a drag queen Tessy LaFemme. Caper in the Castro colocava o jogador procurando pistas e informações no bairro de San Francisco chamado Castro, conhecido reduto da comunidade LBGTQIA+ na virada década de 80.
O jogo foi desenvolvido por C.M. Ralph, artista que encontrou no jogo eletrônico uma forma de devolver o acolhimento que recebeu nessa comunidade. Na própria tela de título, o jogo explica a que veio: "It's not just a game… it's a gayme". Para completar esse objetivo, o título foi distribuído gratuitamente em BBS específicas do seu nicho. Ralph não pedia pagamento e determinou que o jogo seria um charityware. Assim, quem estivesse disposto a contribuir com alguma quantia deveria destinar esse valor opcional para uma instituição de caridade que combatia a crise do vírus da AIDS na época.
A estimativa é que Caper in the Castro tenha atingido a marca de 250 mil downloads. Anos mais tarde, Ralph relançaria o mesmo jogo, removendo o conteúdo homoafetivo e renomeando a aventura para Murder on Main Street, para atrair a atenção de uma produtora. O jogo censurado acabou encontrando espaço através da Heizer Software e foi distribuído através de venda direta pelo Correio.
Caper in the Castro foi considerado mais um pedaço perdido da história da comunidade LGBTQIA+ até que, em 2017, Ralph encontrou disquetes com o jogo completo durante uma mudança em sua casa. Atualmente, o jogo está disponível para ser baixado ou jogado através do próprio navegador no Internet Archive.
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