Acertar uma adaptação de jogo eletrônico para a linguagem cinematográfica é um tiro no escuro, mas um disparo que tem obtido mais chances de sucesso com o formato de série. Acertos foram cometidos com The Witcher, The Last of Us e Halo (em certa medida), além de altos muito altos e baixos muito baixos com animação.
Entretanto, sobreviver ao impacto de uma primeira temporada é um patamar adicional. Projetos desse tipo costumam apresentar todas suas armas de cara, para depois assentar nos louros da vitória e naufragar nas temporadas subsequentes. A adaptação de Fallout é o raríssimo exemplo que mostra o caminho de como superar a si mesmo. Se a primeira temporada cativava, a segunda temporada da série a consolida como uma das propostas mais criativas da indústria no momento.
Com a audiência e os produtores satisfeitos, o time criativo está mais solto para demonstrar seu amor desenfreado até mesmo pelos elementos menos vendáveis do universo de Fallout. Ainda que de forma tímida, somos apresentados ao FEV, o vírus de evolução forçada que faz parte do cânone desde o primeiríssimo jogo. É a porta de entrada para a estreia de um Super Mutante na série. É a introdução dos Deathclaws. A partir desse ato de coragem, a franquia se expande nas telas e tudo se torna possível, inclusive os aspectos quase caricatos, como a Legião de César ou a isca deixada no pós-créditos, para uma terceira temporada.
Porque Fallout é isso: é um alerta sobre os horrores nucleares, é um alerta sobre como a impossibilidade de convivência e a ganância sufocam os ideais civilizatórios, mas tudo isso sempre esteve embalado em fartas doses de absurdo e sátira, para tornar mais suportáveis os seus horrores. Existem momentos pesados nos jogos e na série, daqueles em que a garganta engasga, mas são intercalados com cenas e situações de absoluta loucura. Essa é uma realidade insana e negar esse lado do universo seria adaptar de forma incompleta. O lado camp de Fallout se integra com a abordagem mais sisuda da primeira temporada e essa fusão funciona.
A segunda temporada, como era de se imaginar, bebe de se afogar em Fallout: New Vegas. Não em termos de história, mas em termos de personagens e cenários. Novamente, foi fenomenal poder virar para o meu filho e dizer para ele: "eu batalhei exatamente aí". Locais estão reproduzidos com fidelidade inacreditável. Em vez de virar uma página e contar uma nova história, centrada na decadente cidade dos cassinos, essa segunda temporada soma as novas camadas com as camadas antigas, construindo uma trama muito mais complexa do que parecia anteriormente. O tabuleiro de poder do pré e do pós-apocalipse recebe novos jogadores e nossos protagonistas seguem levados a mercê do vento, buscando fazer o melhor, provocando o pior, tentando sobreviver em meio a um caos que parece insolúvel.
Cooper cresce para se tornar o verdadeiro motor da série, ganha espaço, ganha dores. Lucy segue sendo o núcleo emocional, o seu oposto na disputa pelo melhor caminho. É lamentável somente que Maximus se perca nessa segunda temporada, quase como os roteiristas não soubessem o que fazer com ele. Até que Maximus se torna o astro de um dos melhores momentos da temporada, no episódio final, mostrando que ele pode ser o equilíbrio exato entre o espírito combativo de Cooper e a inocência de Lucy. A trindade está completa. A segunda temporada não se esquece de seus coadjuvantes e vai contando histórias paralelas que também cativam.
Fallout não é apenas um acerto, é um míssil nuclear lançado com precisão cirúrgica no coração dos fãs e uma apresentação magistral para quem não conhece, um convite para um mundo caótico que nos instiga a pensar no tipo de futuro que queremos.
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