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30 de abril de 2023

Eu Vi: The Last of Us

The Last of UsMais uma vez, a grande imprensa repete o bordão de "adaptação definitiva" de um jogo eletrônico para outra mídia audiovisual, relembra outros títulos assolados pela tal "maldição" dos games e faz um grande esforço para ignorar produções recentes que foram igualmente incensadas. Descontando a aparentemente infindável síndrome de vira-latas de uma audiência que vive carente de validação, o fato é que The Last of Us é uma excelente adaptação.

Ainda que tenha seus porèns.

E o foco aqui está no significado de adaptação: não uma emulação literal do que acontece na tela da TV quando se liga o console ou o PC, mas uma captura da proposta e do visual do jogo. Nesse sentido, a obra-prima da Naughty Dog sempre apresentou fortes características cinemáticas, como um enredo profundo, personagens envolventes e uma cenografia bem elaborada. Recorro agora à mesma amnésia da grande imprensa e ouso dizer que nenhum jogo até então teve sua história transposta para outra mídia audiovisual como a série da HBO, com diálogos e cenas transcritos frase a frase, pose a pose.  Essa é a força do texto de Neil Druckmann e seus parceiros.

Soma-se a isso uma escolha de elenco igualmente primorosa. Pedro Pascal emerge, depois de anos de carreira, como uma estrela sóbria, um ator que exala confiança e domínio das artes, o protótipo do "pai triste" em busca de redenção. Entretanto, se alguém duvida de sua versatilidade cênica, sugiro assistir a seu Maxwell Lord no execrável Mulher-Maravilha 1984. Ou não. Pascal é a salvação daquele filme. No outro lado do ringue, temos Bella Ramsey, tão jovem e já tão marcada por trabalhos de impacto. Ao redor desses transitam outros grandes atores que sugam ao máximo o tempo menor que possuem em cena (e meu destaque vai para Anna "Tess" Torv).

O resultado é uma série espetacular, madura, sobre a condição humana diante da catástrofe e, mais especificamente, sobre como lidamos com a perda. Quem achou que era sobre monstros fungòides e tiroteios, certamente não entendeu nem a série nem o jogo.

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Por ser uma adaptação e não uma transposição e por entender que isso oferece uma certa liberdade em relação à obra original, a série ousa ao remover alguns elementos e adicionar outros inesperados. O capítulo sobre Bill e Frank é de uma delicadeza singular, um sopro de poesia em uma jornada tão marcada pela brutalidade. Narrativamente, o recado final do amigo marca o ponto em que se inicia a transição de Joel. É uma lição que é passada e se encaixa perfeitamente no arco dramático do amargurado veterano.

Ao mesmo tempo, a pausa para se contar a história de Ellie e Riley (que foi distribuída como DLC depois do lançamento do jogo) é o respiro necessário entre a cena que acontece antes (a facada de Joel) e o que vem depois.

Entretanto, há uma explicação pseudo-científica e desnecessária para a imunidade da Ellie... felizmente, a sequência oferece um espaço para Ashley Johnson aparecer na tela. A atriz e dubladora deu vida à Ellie nos jogos e aqui, dá vida novamente, desta vez como a mãe da jovem.

Se os acréscimos em sua maioria engrandecem enormemente a série, as remoções esvaziam um pouco do impacto do jogo. Como meu filho bem observou, existe um sentido nos tiroteios longos e constantes do jogo: não se trata apenas um filler ou uma concessão mecânica para que o jogador se sinta, bem, jogando. Cada ato de violência de Joel, e são muitos no jogo, é um acréscimo na percepção que temos dele: temos em mão um homem embrutecido, uma máquina eficiente na arte de matar. Joel deixa ao longo do jogo um rastro de dor e destruição, mesmo que seja em auto-defesa. É alguém com quem não se deve brincar. A contagem de corpos bastante inferior na série não causa a mesma impressão. Controlar a mão de Joel na cena final do hospital não é a mesma coisa que assistir. Entender as engrenagens da violência que Joel colocou em andamento no primeiro jogo é fundamental para compreender o segundo jogo.

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Em contrapartida, é evidente que a série não poderia se dar a esse luxo, de apresentar combates sem fim e uma sucessão de mortes horrendas. Apenas pontos chave são mostrados, para se evitar o risco de entediar a audiência. Determinados elementos de um jogo sempre irão se perder na tradução.

Se a série optou pela sutileza e não pela exaustiva e traumática maratona de sangue e tiros, ela erra de verdade em seus momentos finais. É um detalhe bobo, mas um detalhe que só destaca a genialidade de Druckmann. No jogo, durante a última conversa entre Joel e Ellie, ele toca carinhosamente em seu relógio. Esse é o presente de sua filha, recebido no último dia em que ela esteve viva. "Inconscientemente", Joel se apega à memória dela e não deseja perder outra filha jamais. Na série, que reproduz o diálogo palavra por palavra, o momento do relógio não está presente. É uma pena.

Mesmo com seus defeitos mínimos, o sucesso estrondoso da série pavimenta o caminho para outras adaptações que tratem com igual respeito o material original em live action. Evidentemente, irá atrair também produtoras interessadas somente no dinheiro fácil. Então, teremos mais adaptações "malditas" em grande quantidade e uma ou outra adaptação que "quebra o ciclo", para alegria das manchetes e dos fãs.

Ouvindo: Hoodwinked - Hoodwinked Theme, Granny Techno Mix (Banzai!)

6 comentários:

Anônimo disse...


A série The Last of Us adaptação apressada do primeiro jogo.
Destruição da personalidade dos personagens, quase nenhuma ação, infectadas e novos personagens sem sentido.

Anônimo disse...

A interpretação da Ellie Bella Ramsey foi fraca e sua química com Joel Pedro Pascal não convincente.
Principalmente devido ao quão apressada a série The Last of Us é.
Muito poucos episódios para detalhar adequadamente.
Cortar grandes partes do jogo não ajudou a mostrar ligação.
Relacionamento crescente de forma emocionalmente satisfatória e convincente como a história original.

Anônimo disse...

Série The Last of Us adiciona coisas desnecessárias, é o ritmo tão chato.

Anônimo disse...

O jogo é bem mais denso que a série The Last of Us.

Anônimo disse...

Joel Pedro Pascal é velho, triste e inútil comparado a versão do jogo.

Anônimo disse...

Não havia necessidade de adaptação do jogo The Last of Us.
Já é uma experiência incrivelmente cinematográfica.
E tudo o que torna tão especial não pode ser igualado em formato de série.

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