Escrevo essas linhas enquanto aguardo as garras da insanidade se fecharem sobre minha alma amargurada. As coisas que testemunhei, os atos que cometi irão permanecer na superfÃcie da minha memória a cada segundo de meu tempo desperto e nem mesmo a benção do sono poderá trazer sossego para meu espÃrito abatido. Porque é nos pesadelos que o pior de tudo se manifesta, é nos pesadelos que eu consigo ouvir novamente as vozes que emanam do vazio cósmico além da realidade. Saiba leitor que não há possibilidade de esperança para aqueles que se aventuram por Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth.
O tÃtulo produzido pela Bethesda é um artefato de tempos mais antigos, de uma era em que a produtora não estava perdida pelos campos pós-apocalÃpticos da franquia Fallout ou condenada a um ciclo infinito de relançamentos de Skyrim. Houve uma era em que a Bethesda ousou tocar a obra profana de H.P. Lovecraft e escapou das profundezas abissais com uma obra que é simultaneamente magistral e falha, perturbadora e risÃvel, destinada à s estrelas, mas varrida para o abismo do oblÃvio.
Não há como negar o efeito aterrador de escapar indefeso pelas portas e corredores de um hotel, enquanto uma horda de cultistas avança com a intenção clara de esquartejar sua carne. A correria guiada somente pelo instinto, sem igual em nenhum outro jogo eletrônico, sem interfaces, sem barras de vida, sem mapa, sem indicações do que fazer. Apenas corra. Apenas corra, atrapalhe o avanço de seus inimigos e fuja. É uma sequência de tirar o fôlego, de elevar o batimento cardÃaco e ainda nem estamos vislumbrando os horrores nada humanos que surgiriam posteriormente.
Em contrapartida, não há como fechar os olhos para a quantidade absurda de bugs existentes no jogo, muitos deles capazes de quebrar permanentemente a experiência e impedir o avanço. E ainda assim, aceitei o desafio de quebrar o jogo para que ele funcione, de torcê-lo com minhas próprias mãos para assumir formas que desafiam o conhecimento euclidiano da programação. Que necromancia se conjurou em minha máquina, instruÃdo por fragmentos de informação e softwares arcanos dos cantos mais escuros da internet?
Treze anos separam Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth de The Sinking City, cujas lembranças ainda me atormentam. Em treze anos, houve tanta evolução na forma de se criar um jogo, na forma de orientar o jogador para aquilo que ele precisa fazer, na forma como as mecânicas se encaixam a seu favor. Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth parece um jogo improvisado, uma abominação da natureza, um FPS forçado a executar tarefas para os quais ele não está preparado, uma quimera construÃda a partir de partes de outros gêneros, ora abraçando o tiroteio franco de um jogo de tiro, ora exigindo quebra-cabeças rebuscados de adventures, ora exigindo furtividade sem oferecer nenhuma indicação de que você terá sucesso. Ora rápido, ora lento, sempre incômodo.
Talvez seja proposital, mas esse é um jogo no qual você raramente se sente à vontade, raramente se sente no controle da situação ou respondendo aos desafios da forma que seus desenvolvedores imaginaram.
Desse flerte com o incompreensÃvel, surgem jogabilidades inesperadas. É impossÃvel saber se você está parado em uma fase ou se aconteceu um bug. É impossÃvel saber se os inimigos continuarão ressurgindo, não importa quantos você mate, ou se existe um momento em que você poderá andar em segurança pelo ambiente. É impossÃvel saber se você será avistado ou não.
Mesmo assim, persisti até o final, consumido por uma ansiedade de completar o jogo, de atender ao seu chamado. Mesmo que isso significasse refazer várias sessões até encontrar a forma certa de sobreviver, mesmo que isso significasse dar uma olhada no guia para entender o que não fazia sentido. Que minha alma encontre o perdão, pois até mesmo um comando de debug eu usei para contornar a barreira que o jogo injustamente colocou em meu caminho. O sinal era óbvio: não avance! Mas eu avancei.
Não deveria. Eu deveria ter desistido. Eu deveria ter apertado o botão de Quit e seguido com minha vida, fingir que nada daquilo aconteceu. Deixo agora o alerta para os incautos: não jogue Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth! Sua atmosfera irá consumir todo seu tempo vago, um ardor febril irá perseguir você, os créditos não te libertarão. Nada mais me resta a não ser carregar esse fardo até o meu último suspiro.
Ou, pelo menos, até o próximo jogo.
Consertando Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth
Como tudo relacionado a esse jogo, o fato é que ele é quebrado. Certamente é o tÃtulo mais quebrado que eu consegui terminar. Logo na primeira fase, se você entrar rápido demais em determinada passagem, o jogo irá travar. Em outra parte, se você olhar para determinada cena, o jogo irá travar. Vencer uma importante batalha é literalmente impossÃvel sem o uso de uma correção criada pela comunidade. Em outra fase, após uma cutscene, uma porta deveria se abrir. Ela não se abriu e foi nesse ponto que eu usei o comando de debug para atravessar a parede. A versão para PC não tem um botão para correr. Sim, um jogo que exige que você fuja de inimigos mais poderosos que você não permite que você corra.
Como tudo relacionado a esse jogo, o fato é que ele é confuso. Lamentavelmente, tentei diferentes opções de patches encontradas na internet. Algumas quebraram o jogo. Minha memória pode realmente estar nublada nesse momento, mas acredito que a única correção que serviu como um canivete suÃço para todos os problemas foi o DCoTEPatch1.7. Essa ferramenta modifica o executável do jogo. Porém, essa ferramenta só funciona na versão de caixa do executável do jogo e não é compatÃvel com o executável disponÃvel no Steam ou no GOG. Resultado: fui obrigado a procurar na internet uma versão de distribuição alternativa do executável CoCMainWin32.exe.
Isso significa que não será mais possÃvel executar o jogo a partir do GOG ou do Steam, mas somente a partir de um atalho para o próprio executável, como nossos ancestrais faziam. Em contrapartida, a ferramenta dá acesso a muitos recursos e correções de peso para o jogo:
Foi com essa ferramenta que eu ajustei a velocidade de caminhada do personagem para que ele ficasse em estado permanente de corrida. Essa ferramenta também permite habilitar o modo Debug quando necessário. Sem esses ajustes, seria impossÃvel completar o jogo. Tirando a velocidade de caminhada, não alterei nada que pudesse comprometer a experiência original.
Também utilizei esse pacote de texturas de alta resolução para deixar o jogo mais apresentável para os padrões de hoje: Sharp Corners of the Earth. Não é nada revolucionário e o jogo continuará com ar de jogo velho, mas acredito que ofereça uma melhoria visual sem afetar o aspecto mais retrô do tÃtulo.
Por último, recomendo a leitura dessa lista de bugs mais comuns do jogo e como evitá-los. Não passei por todos eles e o bug da porta que não abriu sequer é mencionado na página, mas a lista já é melhor do que ficar na completa escuridão.
1 Comentários