Retina Desgastada
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13 de dezembro de 2023

Jogando: Wall of Insanity

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Não é segredo minha fascinação pela estranha cena dos FPS desenvolvidos no Leste Europeu. Há algo de sui generis manifestado em sua estética que não pode ser reproduzido por estúdios ocidentais. Possivelmente fruto de uma cultura marcada pelo macabro folclore eslavo e depois pelo controle opressor da União Soviética. Digamos que suas paisagens alienígenas são mais alienígenas do que aquilo que sai da mente dos norte-americanos e o seu grotesco é mais grotesco. Some a isso uma falta de polimento que pode ser fruto de restrições orçamentárias ou propósito de se atingir um resultado mais cru e temos títulos intrigantes como Vivisector, You Are Empty ou os mais conhecidos Metro 2033 e S.T.A.L.K.E.R., que deram origem a bem-sucedidas franquias.

Portanto, Wall of Insanity, da russa VenomizedArt, estava, de certa forma, predestinado a cair em meu gosto. Aqui, acompanhamos uma equipe de elite das forças policiais, a Unidade Cobalto, chamada para investigar o desaparecimento de outro esquadrão, que invadiu uma casa supostamente ocupada por um culto satânico. Tudo dá errado e nosso protagonista é isolado de seu grupamento. Satã não tem nada a ver com os estranhos eventos que irão acontecer nessa residência. Nada tão facilmente compreensível está por trás da jornada pelos limites da realidade que irá acontecer.

A arquitetura da casa não obedece a qualquer lógica, ora residência comum, com móveis e outros utensílios, ora instalação subterrânea que remete a um centro de pesquisa. Até o momento em que nosso protagonista cruza de vez qualquer verossimilhança com o espaço físico terreno. Não estamos mais no Kansas. Estamos em Xen. Estamos dentro de uma das obras de arte de Zdzisław Beksiński, com suas construções colossais de propósito obscuro, labirintos e formas de vida que não pertencem a esse mundo, onde até o céu é ameaçador.

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Acompanhando as mensagens espalhadas pelo caminho, é possível vislumbrar uma fresta de respostas. De alguma forma, um grupo de estudiosos do oculto descobriu uma ponte para o Mundo dos Sonhos, um espaço concreto que pode ser visitado em carne e osso. Através de rituais e sacrifícios humanos, o caminho permaneceu aberto. Agora, as entidades superiores que habitam aquela dimensão estão se infiltrando para o nosso mundo, alterando o próprio tecido da realidade. Entretanto, é possível que minha interpretação esteja incorreta, uma vez que a VenomizedArt não comete o pecado de escancarar explicações. É melhor assim. É melhor insinuado e intuito, é melhor que o inexplicável permaneça envolto nas brumas da dúvida.

Respostas baratas não me interessam, mas a atmosfera de Wall of Insanity faz jus ao nome do jogo. Estará o protagonista imerso em um delírio? Quem é a força sinistra, o rosto gigante que tudo acompanha e vigia? Quem é o vulto totalmente coberto, mas claramente não humano, que pisca em determinadas partes, como que orientando o protagonista? Quem fim levou o culto? Quem mora ou morou nas ruínas que atravessamos? O que é aquela realidade que é idêntica à nossa, exceto pela presença dos monstros? Um mundo paralelo que já foi invadido?

Um título tão absurdo poderia ser facilmente um walking simulator ou um título convencional de terror, mas a VenomizedArt optou por tornar Wall of Insanity um jogo de tiro. Não um Call of Duty onde o tiroteio é a lei, ou mesmo um Resident Evil, com munição mais escassa, mas um título onde a exploração é muito mais presente e os combates muito mais tensos, seja pela força dos oponentes, seja pelo gerenciamento de armas e munição. Wall of InSanity pode ser jogado em primeira ou terceira pessoa e visualizar um operativo de tropa de elite vagando por paisagens surreais somente aumenta a sensação de descolamento da realidade.

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Se precisasse destacar um defeito no jogo seria a baixa variedade de inimigos. Entretanto, considerando a curta duração (menos de oito horas), esse problema não chega a incomodar. Pelo menos, cada inimigo apresenta seu próprio desafio, seja pela resistência ou pelo comportamento, o que obriga a troca de arma ou o uso de diferentes abordagens. Para minha felicidade, Wall of Insanity não termina com uma batalha infernal e extensa contra um chefe gigante, como a Valve cometeu no primeiro Half-Life. A jornada termina com um nível extremamente tenso, em que a movimentação precisa ser muito bem calculada e se completa com um ponto de interrogação resolvido na bala. Porém, há um Midboss no jogo que se desenvolve como um confronto convencional e desafiador, até o momento em que você percebe as limitações de agilidade do inimigo e consegue encontrar o ponto certo para descarregar seus pentes.

Para quem curte títulos fora da curva e não está atrás de grandes valores de produção, Wall of Insanity é impecável, entregando um mergulho no coração das trevas e uma conclusão perturbadora.

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Ouvindo - Cobalt 60 - Born Again (Ubermix)

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