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18 de setembro de 2020

Jogando: The Walking Dead The Final Season

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Obrigado, Telltale.

Fui do júbilo à aceitação em relação ao destino do capítulo final da franquia The Walking Dead. Quando o episódio que encerraria a jornada de Clementine foi anunciado, tudo indicava que a desenvolvedora iria entregar uma conclusão que estivesse à altura de seu início. Havia fogo na equipe e um nível de compromisso como jamais visto antes.

Então, acabou. Telltale acabou. A desenvolvedora e produtora de jogos sucumbiu diante do peso de suas próprias ambições, no meio da criação de The Walking Dead: The Final Season. Uma das melhores narrativas em jogos eletrônicos da década estava ameaçada de não ter sua despedida. Dos quatro episódios planejados, apenas dois foram entregues.

Foi necessária a intervenção de ninguém menos que Robert Kirkman, criador dos quadrinhos que deram origem a tudo, para resgatar Clementine dos mortos. Os necromantes da sua produtora Skybound reuniram um time de profissionais saídos da Telltale e fundaram um time para concluir o jogo. Seu nome não poderia ser mais apropriado: Still Not Bitten Team.

O resultado é um jogo que fecha um círculo. A criança agora é a protetora e um novo protagonista emerge.

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Está completo agora, duas pontas de tempo estão perfeitamente amarradas

The Final Season tem a missão de devolver Clementine para o centro dos holofotes, depois de The Walking Dead: A New Frontier O título anterior colocava a jovem como uma espécie de coadjuvante de luxo ao mesmo tempo que explorava novas linhas narrativas. A ruptura não foi bem vista por todos os fãs. Por outro lado, se a franquia iria receber uma conclusão, era evidente que ela deveria liderar.

Foram quatro jogos acompanhando as dores e alegrias de Clementine. Muito mais dores do que alegrias, porque estamos falando aqui do apocalipse zumbi. Como é patente em todo universo criado por Kirkman, os maiores monstros nem são os mortos-vivos, mas os humanos e sua desesperada e egoísta luta por dominância em uma sociedade na qual não há mais regras. A metáfora que o autor sempre quis passar está presente nos jogos também: os "mortos que andam" somos nós, condenados sem saber, nos recusando a desistir, mas sem esperança de triunfo.

O amargor está na boca no momento em que o jogo começa porque a sombra da morte não irá nos largar em momento algum. Depois de seis anos cuidando e protegendo Clementine como uma filha, eu seria capaz de dizer "adeus"?

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A evocação de Lee é proposital em seu marketing. Agora é Clementine que protege e ensina Alvin Jr., ou "AJ", como uma mãe com seu filho. Em algum momento do jogo, o bastão será passado e será traumático. No meio do caminho, o título ainda brinca com nossos sentimentos com um momento nostálgico profundo.

Uma rua de sentido único, ela está caminhando para o fim da linha

Porém, no meio do caminho também está uma ameaça do passado. E os velhos problemas de sempre: personagens irão morrer por causa de suas decisões e é assim que funciona um título da franquia. Você aceita as perdas, coleta seus restos no chão e avança, oferece a outra face, já inchada pelas lágrimas, à espera da bordoada seguinte. Não é o título que você deveria estar jogando em uma pandemia, mas os horrores lá fora conseguem ser piores, então você volta.

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The Final Season traz menos escolhas do que os jogos anteriores e é uma necessidade óbvia diante do desafio de se fazer um encerramento. Não haverá pontas soltas para outros episódios e há uma história que precisa ser contada, uma história que seja conclusiva para todos, independente de suas decisões.

Felizmente, há um segundo mecanismo em andamento nos bastidores: as decisões que tomamos irão moldar o caráter de AJ. Clementine não é mais uma força independente que luta por si, mas uma mulher, uma moça, insegura mas determinada a cumprir a maior de todas as tarefas: a educação de uma criança. Isso em um mundo que não é como era antes, isso quando ela mesma foi forçada a amadurecer rápido demais. AJ está crescendo de uma forma ainda mais vertiginosa e isso é perturbador.

No final das contas, o que AJ aprende das ações e das conversas de Clementine não tem um peso mecânico. O jogo não se torna mais fácil ou mais difícil, não toma esse ou aquele rumo. Não espere isso de The Walking Dead. Ainda assim, ver uma personalidade se moldar diante de seus olhos é um exercício de roleplay impressionante que remete aos melhores momentos do primeiro jogo.

Se falo pouco dos quicktime events ou dos "puzzles" do jogo é porque, a essa altura, não importa mais. The Walking Dead poderia ter seguido esse caminho, mas o coração da série nunca esteve aí. Não é sobre apertar botões. Talvez nem dê para chamar de jogo. É sobre pessoas e suas histórias e acompanhar a evolução de AJ se torna o ápice de uma equipe que entendeu o cerne da franquia.

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E lá ela encontra rostos que ela vê em seu coração e mente

Em sua conclusão, fui da aceitação ao júbilo. Precisei de dias para processar os eventos e enfrentar a reta final de frente.

Há pelo menos quatro momentos em que o jogo poderia ter encerrado sua trajetória e eu estaria em paz comigo mesmo. Entretanto, o Still Not Bitten Team não se conforma e continua entregando, como o imenso epilogo de O Retorno do Rei. De certa forma, não poderia ser um paralelo melhor: são duas obras que concluem uma jornada comovente e longa, muito longa.

Aqui, a rainha retorna para seu trono, mas também temos um novo rei. Até mesmo a interface muda quando passamos a controlar AJ. Há mais opções em suas respostas e elas oscilam, porque ele é jovem, sua mente está menos limitada a pré-concepções, mas suas decisões ainda são incertas. AJ foi moldado por Clementine, por nós, mas ainda tem sua história para começar.

É agridoce a despedida, porém perfeita. Os rebeldes sobreviventes da Telltale deixam sua marca nas paredes, com a sensação de dever cumprido. Eu contemplo a tela, mais do que satisfeito. Pleno por ter chegado até aqui.

Regra número um: nunca vá sozinho. Goof boy...

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