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31 de julho de 2022

Jogando: Endling - Extinction Is Forever

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(publicado originalmente no Gamerview)

É impossível jogar Endling: Extinction is Forever sem se sentir incomodado, para não dizer impactado. É a representação perfeita da máxima "mostre, não conte" para narrativas, em que atravessamos um mapa que se transforma enquanto o tempo passa e onde não acontecem diálogos e mesmo assim compreendemos perfeitamente o que acontece: o Homem chegou, a natureza chora.

O título do Herobeat Studios é um grito de socorro mais efetivo do que muita retórica, uma obra seminal para entendermos os caminhos nocivos da industrialização excessiva e do abuso do meio ambiente. Humanos, plantas e animais estão no mesmo barco e navegando para o mesmo destino: a extinção. E, como diz o subtítulo do jogo, essa é permanente.

O Horror, o Horror

Em 2004, Paolo Bacigalupi escreveu o conto The People of Sand and Slag, indicado para três prêmios importantes da ficção-cientifica em seu lançamento (o conto está disponível na íntegra, gratuitamente, no site do autor). Tem mais de uma década que tive acesso ao conto através de uma coletânea de histórias pós-apocalípticas. De todos os textos ali presentes, incluindo material de medalhões do gênero como Stephen King e George R.R. Martin, o conto de Bacigalupi foi o que mais me marcou.

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The People of Sand and Slag narra a história de três humanos geneticamente modificados de um futuro distante que são vigias das instalações de uma mineradora mecanizada, no que restou dos Estados Unidos. O trio se surpreende com a aparição de um cachorro, criatura supostamente extinta nesse futuro. Sua inabilidade em lidar com o ser e a naturalidade com que eles aceitam esse cenário arrasado e poluído são o núcleo da situação. O solo contaminado, o ar impuro, as alterações ambientais são o normal, o cachorro é a anomalia. Todo o contexto deprime ao nos demonstrar uma possibilidade de futuro para nossa civilização.

Endling: Extinction is Forever funcionou para mim como um resgate brutal dessa possibilidade traumática. Aqui controlamos uma raposa, a última raposa de um planeta consumido pela industrialização desenfreada e a exploração da natureza.

De imediato, fugimos de nosso habitat anterior, engolido por um grande e desesperador incêndio. Na segurança provisória de uma nova toca, no perímetro do avanço humano, a raposa dá a luz a quatro filhotes. Cuidar da preservação de sua prole será o desafio praticamente impossível do jogo.

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Apesar da simpatia da raposa e seus filhotinhos (com direito a lambida nos pequerruchos e um ocasional carinho de humanos amigáveis), o maior personagem do jogo é a paisagem. De forma magistral, o Herobeat Studios nos mostra sua transformação gradativa.

Rios limpos com peixes abundantes se tornam valas imundas de esgoto, lixo e produtos químicos. Uma floresta exuberante vira um campo de desmatamento com máquinas e toras espalhadas pelo chão. As fontes de alimento desaparecem, obrigando a raposa a se aproximar cada vez mais de áreas que não foram feitas para a presença da natureza.

Essa degradação afeta por igual os seres humanos. É uma ilusão acreditar que o jogo está agindo apenas em defesa dos animais ameaçados de extinção. É nossa sobrevivência que também está em jogo.

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Esse compartilhamento de destinos fica evidenciado no acampamento dos refugiados do desastre ambiental e suas reinvindicações ou na magnífica narrativa não-contada do pescador que vivia do que o rio oferecia e termina enterrado ao lado de seu casebre. A conclusão de Endling tem uma carga dramática tão poderosa e humana que provoca lágrimas.

Endling é o Filho Mutante de Shelter com Inside

Em termos mecânicos, há algo de Shelter em Endling. Tanto aqui como ali, precisamos zelar pelo bem-estar de nossa prole, buscando comida e evitando ameaças, como predadores e o bicho-homem. A furtividade é nossa principal arma, embora eu tenha sentido falta de um sentido de faro capaz de detectar inimigos. Mais de uma vez, esbarrei quase literalmente em caçadores e o jogo avisa somente quando um humano está alerta para nossa presença, um aviso que pode chegar tarde demais, dependendo da circunstância.

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Porém, Endling guarda ainda mais semelhanças com Inside, tanto no sentido de perspectiva e movimentação no terreno, quanto no sentido de ser cruel em seus desafios. A morte é uma constante, seja de um de seus filhotes, seja da própria raposa (o que força um retorno ao checkpoint na toca e a perda de todo o progresso daquele dia). Quase tudo nesse cenário em decadência pode se tornar um perigo para o jogador, enquanto a fome nos atormenta.

Dessa brutalidade surge o questionamento constante: buscar pistas sobre uma questão importante do enredo ou impedir a morte de sua prole por inanição?

Nesse dilema, somos forçados a gastar uma boa parte do tempo no jogo apenas sobrevivendo. É desgastante passar os dias dessa forma, mas entendo que faz parte da proposta de seus desenvolvedores: se não está fácil pra você, imagine como seria para um animal selvagem expulso de sua área natural e forçado a conviver próximo daqueles que querem seu mal? Sendo obrigado a caminhar cada vez mais longe da toca em busca de alimentação cada vez mais escassa, forçado a revirar o lixo e se expor ao risco de sufocamento?

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Em contrapartida, Endling não explica algumas de suas mecânicas, que aparecem apenas nas telas aleatórias de carregamento. Em alguns momentos, raros, mas desesperadores, a raposa não responde aos comandos de farejar como deveria, o que nos força a perder tempo precioso em um título em que cada segundo pode significar a diferença entre a vida e a morte para um filhote.

Poesia em Estado Bruto

A angústia de Endling é aliviada parcialmente por uma direção de arte impecável, que destaca muito bem a beleza presente nos restos de meio ambiente e na própria família de raposas, mas que também nos sufoca com o detalhismo das paisagens adulteradas pela presença humana. É um deleite para os olhos absorver cada elemento estrategicamente colocado em cena.

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A trilha sonora mantém o impacto nos momentos certos. As músicas acentuam a exploração de um mapa que já não é mais reconhecível para jogador, enquanto dão o tom certo de tensão quando os caçadores se aproximam ou o perigo cai sobre nossas raposas. Há uma melancolia latejante nesse futuro, presente também na música feita pelos humanos, muitos deles tão vítimas quanto nós dessa máquina impessoal de destruição.

Há importantes lições a serem aprendidas com Endling: Extinction is Forever, um cartão postal sem retoques daquilo que nos aguarda no final da estrada que estamos tomando. Assim como no jogo, a transformação é lenta, um sapo cozinhando em fogo baixo, incapaz de perceber os riscos até ser tarde demais. Um belo dia iremos acordar e a extinção estará batendo na porta, se nada for feito para mudar.

Ouvindo: Alien Sex Fiend - Alien

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