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9 de julho de 2022

Eu Vi: Cuphead - A Série

Quando o jogo Cuphead foi lançado, ele chamou a atenção imediata por funcionar como um magnífico tributo ao estilo de animação de eras passadas, clássicos da insanidade instantânea como Betty Boop, Supermouse e Gato Félix. Não apenas a forma de se animar os personagens é emulada no jogo (incluindo "artefatos" na tela e framerate diferenciado), como também seus criadores buscaram repetir a atmosfera quase lisérgica desses primeiros desenhos, um fino equilíbrio entre uma inocência que se perdeu e a absoluta anarquia.

O segundo aspecto marcante de Cuphead enquanto jogo é sua dificuldade absurda, quase cruel, exigindo precisão milimétrica do jogador, fartas doses de paciência e reflexos que desafiam a neurologia. Essa abordagem me afastou do jogo permanentemente, ainda que suas temáticas me fossem atraentes.

The Cuphead ShowCuphead - A Série (exclusiva da Netflix) foi a forma que meu filho e eu encontramos de mergulhar no universo desses personagens livres de desafios ou stress. Ao mesmo tempo tem o poder de funcionar como um túnel do tempo para duas gerações de fãs de desenho animado. É como se fosse um Looney Tunes retrô, que ora nos contempla com piadas modernas ora recicla chavões de quase um século atrás (como um bebê impossível de se controlar, dança de esqueletos e o imortal mal-entendido da conversa ouvida pela metade).

Da minha parte, voltei à infância, diante das estripulias de Tom & Jerry ou do humor mais refinado de Animaniacs, com uma pitada daqueles desenhos esquisitos que pintavam na TV, aqueles episódios ancestrais dos estúdios Fleischer que o SBT deve ter comprado a preço de banana e o programador reprisava no modo randômico. Para meu filho, foi uma oportunidade de ver condensadas em uma vitamina de animação décadas e décadas de influências e gargalhar efusivamente com as situações em que esses irmãos se metem.

Se fosse necessário criticar Cuphead - A Série, minha bronca seria com a falta de coragem de se manter fiel à estética do jogo para repetir as técnicas de animação das séries antigas. O resultado é claramente mais moderno, um "novo retrô", um "how do you do, fellow kids?" invertido. Seus produtores tinham a oportunidade perfeita de fazer uma réplica indefectível do que se fazia no começo do século XX, mas optaram por um caminho nada fidedigno e mais comercial. É uma adaptação de uma adaptação, uma nova camada de interpretação sobre os clássicos.

The Cuphead Show - King Dice

A chegada da moralmente ambígua Cálice no último episódio é um gancho perfeito para uma segunda temporada e um aprofundamento dos valores fofinhos presentes na série. Caneco e Xicrinho são dois meninos radiantes com coração de ouro mas um pendor para a confusão em um mundo que não é inofensivo e está lotado de pilantras e perigos. Como a série irá lidar com a menina que utiliza seu charme como ferramenta para engabelar todos ao redor? Sua aparição sacode o universo da ilha Tinteiro e promete ser o ponto central do retorno da série.

Nesse ponto é importante frisar que a série ameniza muitos dos pontos vistos no jogo. Originalmente, Caneco e Xicrinho são dois adultos que perdem uma aposta para o Diabo e precisam coletar almas dos chefes do jogo para pagar essa dívida. Aqui, os dois protagonistas são crianças inocentes que caem em uma armadilha do capiroto, mas conseguem escapar de suas garras usando uma mistura de esperteza com amor fraternal. O foco está evidentemente no público infantil, que recebe uma versão mais suave e doce da trama.

Ironicamente, é a série que se torna o centro de uma polêmica grotesca e desnecessária: a denúncia de que o desenho animado estaria fazendo uma apologia ao demônio. É uma declaração sensacionalista que se desfaz simplesmente assistindo ao primeiro capítulo na íntegra. Ainda que o Demônio tenha um número musical em que tenta se vender como um sujeito simpático, é evidente para quem vê e para os personagens daquele universo de que isso é conversa fiada, de que o soberano do Inferno é maligno, assustador e uma presença da qual todos querem distância. É uma discussão tão absurda quanto antiga, de pessoas que não sabem a diferença entre representação e defesa.

The Cuphead Show - Devil

Ao longo da série, o Diabo é representado como uma figura ardilosa, mas também estúpida e, em muitos graus, incompetente. Sua incapacidade de superar duas crianças inteligentes gera situações hilárias, em que o espectador ri do Diabo quebrando a cara. Essa é outra tradição dos desenhos animados e é possível puxar da memória outras humilhações históricas do cramulhão, seja em As Meninas Superpoderosas, A Vaca e o Frango ou no distante episódio Hell's Bells, da Silly Simphony, produzido pela própria Disney, em 1929. Quase cem anos depois, ainda estamos discutindo se o mito do Diabo pode ou não pode ser mostrado para nossa crianças como uma figura a ser evitada.

Ouvindo: Moulin Rouge - Come What May

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