Retina Desgastada
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2 de abril de 2022

Jogando: FAR: Changing Tides

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(publicado originalmente no Gamerview)

Em 2018, a desenvolvedora Okomotive estreava no mundo dos jogos eletrônicos com um trem e seu maquinista. Era o surpreendente FAR: Lone Sails. Quatro anos depois, ela nos convida de volta para uma nova jornada, desta vez à bordo do barco de FAR: Changing Tides.

Muda o veículo, permanece a atmosfera. Engolidos pela solidão da imensidão oceânica, navegar é preciso. Viver também é preciso, contrariando o poeta. Queimando os últimos restos da civilização humana em nossa fornalha e aproveitando a força dos ventos do destino, essa travessia irá nos mostrar que a perseverança compensa e que jamais devemos desistir da esperança.

Reembarque

Os cinco minutos finais de FAR: Changing Tides foram a consagração de uma odisseia, que se estendeu até mesmo durante os créditos. Dizer mais do que isso poderia estragar o presente que a Okomotive nos oferece. Começar essa análise pela cena final é uma forma de tentar me aproximar da genialidade de seus desenvolvedores na difícil tarefa de se fazer uma continuação. Essa literal reviravolta irá me acompanhar para todo o sempre.

FAR: Changing Tides é isso: um reembarque magistral em uma experiência que já havia deixado sua marca lá atrás. Se você não jogou o título anterior, ele não é necessário para se entender o que se passa aqui, mas é recomendado. São duas peças de um quebra-cabeças, duas metades da mesma mensagem, de algo que nunca se completa, mas encanta e traz promessa de trilogia.

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Apesar de todas as suas qualidades, é um título para poucos. Ele foi feito para aqueles que conhecem o prazer embutido na viagem, que muitas vezes é mais interessante que a rápida satisfação da chegada. Para aqueles que não se importam com sua duração um pouco excessiva, se o título anterior era curto demais, esse talvez pudesse ser enxugado. Para aqueles que curtem simplesmente largar o teclado (ou o controle) por um ou dois minutos e tão somente contemplar a paisagem passando, que conseguem imaginar a água salgada respingando no rosto só de ouvir o rugir das ondas. Ou para aqueles que se deixarem levar por sua envolvente, mas nem sempre presente, trilha sonora.

Seria FAR: Changing Tides um jogo para poetas? Ou seria um jogo para se chegar do trabalho, afrouxar a gravata, largar a rotina para lá e se entregar em uma prazerosa, mas não desafiadora, viagem? Não espere frustrações ou dificuldades, existem muitas opções no mercado para saciar aquele vontade de superar seus limites. A tônica aqui é se entregar à mais pura necessidade de se manter seguindo em frente, sem pressa, mas não sem um objetivo.

A Solidão na Máquina de FAR: Changing Tides

No centro de tudo isso, está o barco. Ele é seu lar, seu veículo, sua âncora com essa realidade, uma casa móvel em uma estrada submersa. As mecânicas de FAR: Lone Sails se repetem: seu veículo recebe melhorias, desbloqueia novas capacidades, mas exige constante manutenção. Nada que seja estafante ou desesperador, é uma fina camada de gerenciamento com uma única função: criar uma relação de simbiose entre seu personagem e a máquina. Afinal, fora do barco, tudo que existe é a solidão.

Alguns aspectos que não funcionavam tão bem no jogo anterior foram simplificados, incluindo os puzzles que precisam ser resolvidos para tirar obstáculos do caminho. O sistema de zoom, problemático antes, agora funciona adequadamente e é praticamente desnecessário. Porém, ainda é comum errar um pulo e acabar acionando o mecanismo errado, a falta de precisão segue assolando a franquia. Em contrapartida, FAR: Changing Tides adiciona soluções inesperadas para seu veículo, que encantam e adicionam novos horizontes, por assim dizer.

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Por outro lado, senti falta das noites iluminadas por lampiões, como havia no primeiro título. Há menos opções aconchegantes para tornar o barco um lugar confortável. As áreas são menos variadas, até porque quase tudo é oceano. Ainda assim, abaixo da superfície, os fantasmas da sociedade humana se escondem e causam espanto, trazendo um outro tipo de paisagem.

Sair do barco será necessário em certos pontos da viagem e o jogo providencia todos os meios para nossa protagonista circular sem dificuldades, seja no fundo do mar ou em terra firme. Ruínas monumentais apenas reforçam nossa insignificância diante do destino do mundo. Somos senhores tão somente de nós mesmos, porém, felizmente, acionando os controles certos, os caminhos se abrem para nosso barco.

Catástrofe Climática

Em FAR: Changing Tides, somos uma menina, que talvez seja a última sobrevivente da extinção da raça humana. Novamente, o jogo não quebra o véu do mistério sobre os fatos que levaram o mundo a esse ponto. Entretanto, os sinais são abundantes: exploração excessiva dos recursos naturais, regiões inteiras embaixo d’água em uma inequívoca referência ao aquecimento global e ruínas de maquinários monstruosos erguidos pelo homem (que podem ter sido utilizados para conter os efeitos de nossos erros, mas também podem ter sido a causa de nossa queda).

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No entanto, a vida continua. Ela está presente no espírito indômito da jovem, que não aceita a derrota em momento algum. Sua jornada resoluta para a frente pode parecer uma convenção dos jogos eletrônicos, mas aqui sintetiza uma força obstinada em busca de respostas, de abrigo ou de sentido. Ficar parado não é uma opção. Em algum lugar dessa vastidão pode estar o que a menina procura.

A força reconstrutora da vida se faz presente também nas paisagens atravessadas, seja na aparição tímida de cervos no pouco terreno sólido que resta, seja no balé das baleias e das arraias nas profundezas do oceano, seja na forma de uma onda colossal que tudo arrasta e sepulta mais uma vasta sobra da arrogância humana, seja na delicadeza das flores que brotam onde menos se espera. Nós nos tornamos uma nota de rodapé na História do planeta, mas a natureza selvagem herdará esse novo mundo.

FAR: Changing Tides começa com a menina sem nome, sem passado, sem rosto, sem lar. Cabe a você descobrir onde o vento da esperança vai deixá-la.

Ouvindo: Russell Brower, Derek Duke, Glenn Stafford - Runes

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