Retina Desgastada
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31 de maio de 2018

Jogando: FAR: Lone Sails

(originalmente publicado no Gamerview)

O vento sopra em meus ouvidos e a embarcação inteira trepida, ainda que levemente. Mas o vento é meu amigo, ele me leva em direção ao meu destino através de velas furadas que já viram dias melhores por uma paisagem que também já viu dias melhores. Sou o último humano na Terra e minha locomotiva, meu barco terrestre, é meu lar e companheiro de uma jornada que não sei aonde vai parar.

Com essa premissa, a desenvolvedora Okomotive consegue criar um título que, sem palavras ou falas, é um tratado sobre a solidão, sobre o impulso de seguir em frente e uma declaração de amor às pequenas coisas da vida.

Desastre Ambiental

FAR: Lone Sails fala ao navegador dentro de cada um de nós, como um Amyr Klink sentindo o chamado do mar. Aquele navegador que sabe que a viagem é mais importante que a chegada, que olha pela janela e contempla a vastidão se estendendo em todas as direções. No silêncio dessa travessia, a incerteza do destino.

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Sem uma história pregressa ou cenas de corte, o jogo nos apresenta rapidamente aos comandos mais básicos de pular, pegar e andar. Sua narrativa se faz na estrada, seu passado está presente em suas ruínas e sua jogabilidade é intuída de acordo com a necessidade, seja por tentativa e erro ou, como é mais comum, porque ela obedece a uma lógica bastante clara. Você é um aventureiro sem nome, à bordo de uma locomotiva steampunk, atravessando o que sobrou da civilização humana, devastada por um desastre ambiental ou consumida por sua própria insanidade, talvez ambos.

Você não sabe o que irá encontrar pela frente ou mesmo se o jogo tem uma conclusão satisfatória. Há outros humanos? Há respostas? Há vida nesse planeta castigado? Há um resgate? Nada disso importa. O importante é seguir em frente, resolver os problemas que aparecem no caminho, enigmas ora simples ora aterradores, quando tudo que você tem é sua inteligência, sua perseverança. E essa máquina, esse prodígio da tecnologia com o qual você acaba se afeiçoando, uma Agro de metal e vapor em uma terra onde os colossi já tombaram.

Sua rota é ao mesmo tempo bela e triste, com pequenas pistas do que aconteceu com o Homem espalhadas aqui e ali, restos orgulhosos de glórias do passado e o sempre presente contraste entre a grandiosidade e o nada. A civilização que acabou é a mesma que produziu esse trem fantástico, meio barco, meio lar. É possível encontrar outros maquinários ainda ativos e até mesmo evoluir seu próprio veículo ou consertar os inevitáveis defeitos que surgem. Mas cada fragmento de outrora, mesmo os que funcionam, apenas aumentam o sentimento de perda, de decadência. Se o protagonista não tem uma história ou personalidade, esse mundo transborda de significados.

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A Solidão na Máquina

O que a princípio parece uma jogabilidade simples, vai se desdobrando em tarefas de manutenção da locomotiva assim como tentar buscar soluções para obstáculos que aparecem, sejam os criados pelos escombros, sejam os criados pela própria Natureza, que, às vezes, parece reclamar de volta o planeta para si. Sem adicionar um único comando novo além dos iniciais, FAR: Lone Sails mesmo assim consegue engendrar novos desafios e a criatividade da Okomotive precisa ser elogiada, pelo talento de injetar uma interação forte do jogador onde outras desenvolvedoras se contentariam em entregar somente essa atmosfera.

Mas suas ações não se interpõem contra o jogador. Seu gerenciamento de recursos é suave, seus puzzles simples de resolver, mas sem ofender a inteligência. Tudo é muito orgânico e plausível e logo a locomotiva está de volta a sua estrada pessoal e o infinito se torna um pouco menor.

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Minha mente se flagrou tecendo comparações com Solo, um título independente lançado menos de um mês antes. Onde aquele se propunha falar sobre a solidão, mas trazia um mundo colorido e habitado por criaturas adoráveis, em FAR: Lone Sails a solidão está entranhada em cada tela, somos talvez o último navegador de um mundo morto. Enquanto Solo aparentemente introduzia uma jogabilidade desencontrada da narrativa apenas por obrigação, aqui a Okomotive integra suas tarefas com o sentimento de urgência, de encontrar uma saída e, com isso, ajuda a forjar um vínculo entre esse homem solitário e seu último refúgio ambulante. Nos flagramos ao longo da viagem decorando a locomotiva com itens colecionados, nos emocionamos com o súbito desabrochar da música em uma cena e nos agarramos à luz de nossos lampiões nas noites escuras. Solo queria discutir a solidão. FAR: Lone Sails nos faz sentir a solidão.

Desembarque

Apesar dos comandos serem bastante intuitivos, há espaço para melhorias. Os comandos de zoom ocasionalmente confundem e uma trava seria bem-vinda. No momento, para obter a aproximação máxima, você precisa manter o botão apertado o tempo todo e isso cansa. É uma pequena irritação que arranha um pouco a lataria de um título que se aproxima da perfeição.

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Tudo que é bom termina e esse é certamente o maior defeito do jogo. Por mais que eu desejasse que a viagem não tivesse fim, ela termina, inclusive de forma abrupta. FAR: Lone Sails peca pela curta duração, cerca de três horas marcadas aqui. Pode ser ainda menor se você tiver pressa, mas não acredito que essa seja a melhor forma de se apreciar o trabalho da Okomotive. Não importa como, mesmo que você aprecie cada minuto dessa jornada, a sensação de que ele acabou cedo demais irá permanecer, então talvez não haja uma forma de vencer esse dilema.

O próprio final do jogo pode não agradar a todos. Há respostas? Sim, assim como novas perguntas. Há dor? Sim, claro, o que eu estava esperando? É a dor de um jogo tão belo terminar e a dor de seu mundo.

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