Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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22 de janeiro de 2022

O Dia Em Que A Música Morreu

I met a girl who sang the blues
And I asked her for some happy news,
But she just smiled and turned away.

Don McLean

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A fragilidade e a curta duração de A Bird Story plantaram a semente da apreensão em meu peito. Teria Kan Gao perdido sua verve? Seria o fantástico autor do inigualável To The Moon já realizado seu canto do cisne, deixado seu legado para a indústria e para a história da narrativa? Relutei em iniciar Finding Paradise, temendo uma decepção ou apenas uma nova iteração morna da fórmula anterior.

Não poderia estar mais enganado. Kan Gao quebra os paradigmas que ele mesmo estabeleceu e cria uma nova e extraordinária história que começa intrigante e arrebata de uma forma diferente em sua reta final, que fala sobre inadequação social, a cruz carregada pelas pessoas criativas e sobre como não percebemos que muitas vezes a felicidade sempre esteve do nosso lado.

A Long, Long Time Ago...

Dez anos se passaram desde que To The Moon entrou em meu radar pela primeira vez. Aquece o peito saber que uma década depois Kan Gao continua relevante e que aquilo que ele começou lá atrás se transformou em um refinado universo de ficção-científica que utiliza os avanços tecnológicos para levantar questionamentos éticos e indagações sobre a nossa fugaz natureza humana. Explorar a relação entre vida e morte, conversar sobre nossa perspectiva sobre os instantes finais exige talento e uma delicadeza que poucos artistas possuem e o desenvolvedor independente, criador da Freebird Games, possui em abundância.

Nesse universo, a Ciência permite alterar as memórias das pessoas, reescrever sua História, ainda que seja apenas para elas mesmas. Para evitar conflitos que poderiam talvez levar a graves problemas psicológicos, essa tecnologia é utilizada somente com pacientes terminais, em seus últimos instantes. O objetivo é oferecer àquele que está partindo a certeza de ter vivido a vida que sempre quis, um alento derradeiro, um sorriso no rosto em seu leito de morte. E por que não?

To The Moon nos mostrava uma cativante história de amor que não poderia ter um final feliz, exceto no campo da metáfora. Para permanecer ao lado de sua amada, o paciente decide apagá-la de sua memória e viver uma outra vida. É bastante questionável se essa foi a melhor decisão, mas era o desejo de Johnny e ele morreu em paz.

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Finding Paradise nos apresenta um novo dilema: Colin, o paciente da vez, não deseja mudar nada de seu passado. Ele deseja que as coisas sejam melhores, mas não quer alterar nada. Como resolver isso? Nessa nova missão, a doutora Eva Rosalene e Doutor Neil Watts, a tragicômica dupla de cientistas, precisará primeiro decifrar esse desejo ao mesmo tempo em que esbarra em inexplicáveis anomalias dentro da mente de Colin.

Colin realizou seu grande sonho de ser um piloto de aviação, de voar entre as nuvens, uma herança que foi melhor explicada em A Bird Story (que funciona como um prelúdio, mas não é obrigatório). Ele ama sua esposa Sophia, sua grande companheira de música e de vida. Ele tem um filho adorado. O que está faltando? Que parte dele se perdeu no passado?

The Lovers Cried, and the Poets Dreamed

Kan Gao supera as limitações do RPG Maker mais uma vez, introduzindo elementos novos de jogabilidade, inclusive brincando com a indústria de jogos e seus gêneros, sem, entretanto, jamais quebrar o ritmo da narrativa que continua reinando soberana. Ainda assim, o desenvolvedor está mais livre para flertar com outras atmosferas, inclusive terror e comédia. O que poderia parecer uma disparidade em uma trama tão séria, aqui funciona nas doses certas, ora aliviando o stress, ora intensificando nossa relação com os personagens e o passado de Colin. É belo ver um mestre exercendo seu ofício, um contador de histórias multimídia.

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O desenvolvedor também é um compositor de talento. Enquanto em To the Moon a trilha sonora é praticamente uma parte essencial da experiência, aqui Kan Gao nos apresenta faixas mais contidas, mas não menos exuberantes. É como se ele não quisesse que a trilha ocupasse tanto o holofote dessa vez e a impressão que fica, em retrospecto, é que ele alcançou um equilíbrio que faltou em seu trabalho anterior, quase um musical disfarçado. Porém, em Finding Paradise, quando entra a faixa cantada por Laura Shigihara (repetindo a parceria de To The Moon), é impossível conter as lágrimas, dada a perfeita sintonia com os eventos apresentados na tela.

O próprio conceito de música se destaca na trama. Colin é um violoncelista que não toca bem, mas insiste com o instrumento. É uma lembrança para todos nós que gostar de uma coisa não significa que temos que necessariamente sermos bons naquela coisa. É a partir do violoncelo que Colin estabelece uma inquebrantável relação com sua esposa, essa sim uma música profissional. Esse é um de seus vários laços, o primeiro que surge.

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A reflexão de Kan Gao se estende para o próprio espírito humano e nossa inerente necessidade de imaginar cenários, de criar situações, de desenvolver um eu interior tão importante ou até mais do que o mundo externo. É essa capacidade que dá forças para Colin atravessar os anos difíceis de sua infância e adolescência, gerados por sua inadequação social. Porém, esse dom é ao mesmo tempo uma maldição. Entre o sonhar acordado e os pensamentos paranoides, um dos personagens explica, a realidade empalidece diante do infinito de possibilidades do que poderia ter sido. Nesse ponto, Finding Paradise coloca na berlinda a própria premissa desse universo: ilusões benfazejas seriam uma saída para um concreto enfadonho ou essas metas inatingíveis seriam o que pulveriza o valor do aqui e agora?

Sem enveredar por spoilers, ao final, o doutor Watts, o mais emocional e fora da curva da dupla, entende o que precisa ser feito, entende qual é a necessidade de Colin. O paciente parte completo consigo mesmo, amparado por sua esposa.

A música morre.

O jogo acaba.

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A Generation Lost in Space

Finding Paradise não é impecável (e que obra é?). Kan Gao comete o erro de tentar construir em paralelo uma trama misteriosa envolvendo o doutor Neil Watts que acaba não se resolvendo dentro das cinco horas do jogo. O tecelão de histórias imita o Universo Cinematográfico da Marvel e deixa ganchos para uma próxima aventura que talvez leve anos para chegar. Impostor Factory, lançado três anos depois, não parece ter uma relação direta com os eventos do final de Finding Paradise. Aliás, Impostor Factory parece desafiar convenções e talvez faça mesmo parte do To The Moonverso. Apenas as musas sabem se e quando esse arco desnecessário iniciado em 2017 terá continuidade.

Entretanto, agora aprendi minha lição: não subestimar jamais a força narrativa que emana da mente de Kan Gao.

Ouvindo: Therapy? - Joey

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